28 dezembro 2011

Václav Havel, a pétala da primavera de 68


O ano que agora chega ao fim, um ano ímpar, início de década, deixou marcas profundas e registrou muitas perdas. De relance, lembro que se foram o escritor Ernesto Sabato, os trabalhadores rurais João e Maria do Espírito Santo, a grandiosa cantora Amy Winehouse, o jogador de futebol-arte Sócrates Brasileiro e a belíssima diva do cinema Elizabeth Taylor. Em todas as áreas da vida social, houve prejuízos com a partida de gente insubstituível. Aqui e acolá também pulularam reengenharias de capital, compras e vendas, ampliação de negócios, precarização de vastas formas de trabalhar e viver. Resistente e movido por uma esperança que às vezes nem mais pode perceber, o humano segue em frente, criando, driblando, lembrando que tem história, força em suas tradições. Particularmente, as marcas mais doloridas de 2011 sintetizam-se na morte de Václav Havel, ex-presidente tcheco que tanto influenciou meu modo de ver o mundo, lá no início de minha vida adulta. Deixo aqui, no último texto do blog no ano, minha singela homenagem a este homem de ideias claras e vivas, mergulhadas na tradição progressista, não obstante, assim como já acontecera com Antonio Gramsci, os mais à direta vivam a tentar sequestrar seu belo espólio político. Obrigado pelo exemplo de vida, Havel!

Nos embalos da emocionante derrubada do Muro de Berlim, em 1989, a então Tchecoslováquia viveu sua Revolução de Veludo, que reconduziu o país do Leste Europeu às trilhas da democracia política e da liberdade econômica cidadã. O líder dessa revolução sem armas nem sangue foi o dramaturgo Václav Havel.

Aos setenta e cinco anos de idade, no último dia dezoito, Havel, que esteve à frente da política tcheco-eslovaca entre 1989 e 1992 e, depois, tornou-se-se presidente na nova República Tcheca entre 1993 e 2003, morreu na sua amada cidade de Praga, deixando um legado público complexo e muito, muito rico.

Ao deixar a política, Havel não apenas havia redemocratizado as instituições e a vida social de seu país, como também o deixara preparado para ingressar de modo soberano na União Européia, em 2004.

Como sujeito de letras e artes, Václav Havel foi um dos signatários da "Carta 77", uma combativa ode em defesa dos direitos humanos. Fiel e irredutível opositor ao totalitarismo soviético, Havel sempre permite recordar, por suas convicções, os idealistas personagens de A insustentável leveza do ser, um livro marcante de Milan Kundera responsável por retratar a Primavera de Praga, o ano de 1968 dos tcheco-eslovacos.

Václav Havel defendeu com coerência e extrema decência a pessoa humana e as verdadeiras liberdades do sujeito. Por isso, soube dizer não ao Fundo Monetário Internacional e suas tentativas de subsumir a República Tcheca aos interesses privatistas do mercado globalizado pelas grandes transacionais do capitalismo central. Nesse sentido, decente em cada ato - como num personagem-herói de suas peças e reflexões na dramaturgia -, Havel foi um homem público incansável na linha de frente daquilo que há de mais humanista nas tradições libertárias e socialistas.

Num tempo em que indivíduos dificilmente ultrapassam a condição de caricaturas de uma era de reacionarismo e desesperança, a vida de Václav Havel traz à luz anos de luta e coragem, enfrentamento do consumismo e busca por uma existência plena e verdadeiramente solidária.

O futuro já sente saudade de Havel, o ponto alto da Primavera de Praga.

21 dezembro 2011

Nos intervalos, a solene felicidade


"Quem gosta de ser adulado é digno do adulador" (Shakespeare)

A vida não visa a lucro. Não existe possibilidade de encontrar sombra de felicidade em coisas que se desgastam, tornam-se enjoativas, desnecessárias e até descabidas com o passar do tempo. Em rigor, não há admissibilidade em procurar alegria nas coisas.

É da tradição clássica do pensamento socialista distanciar em profundidade as categorias emprego e trabalho. Enquanto está última sugere a insuperável relação entre o sujeito humano e a natureza, na difícil senda por satisfação de necessidades e realização de desejos, aquela se reduz a uma atividade que garante renda, uma fonte de subsistência. No dia a dia, acredito, não é preciso ir longe para encontrar gente que detesta seu emprego, não se realiza como humano nas tarefas que executa ano após ano. Já no que diz respeito ao trabalho, essa ação de dialéticas constantes entre a subjetividade das almas e a objetividade do mundo, é ainda mais fácil perceber que poucos sabem do que se trata de fato.

Bom, esse percurso conceitual me ajuda a retornar com mais lucidez às tais coisas. Se o emprego é só garantia material de sobrevivência, ele não deve ser compreendido como instrumento para alcance da felicidade. Como coisa, ele está condicionado às circunstâncias, ao perigoso e nefasto jogo que indivíduos e sociedades anônimas (sem subjetividade nem humanidade, visto que se escondem na invisibilidade de números e palavras fáceis) levam a cabo na disputa por poder, ocupação geográfica, domínios de mercado, essas tolices. Mesmo no âmbito do emprego, dessa indispensável alienação que o ser necessita praticar contra si mesmo numa realidade hegemonizada pelo valor de troca, é na linha de montagem, no lugar em que as pessoas de fato produzem e são felizes na fronteira de todas as (im)possibilidades, que reside a graça do viver. Não obstante a vulnerabilidade daqueles que se encontram subalternizados no "chão da fábrica", sem a chance de obter reconhecimento e glória por tudo que fazem, é o mundo da vida que habitam os sorrisos – na ânsia por mais e mais coisas, o humano se esquiva de si mesmo, torna secundária a afetividade, terciária a alimentação das utopias, exilado o amor, condenadas à morte a arte, a cultura, a poesia do existir.

Meu trabalho é minha realização como subjetividade, meu enfrentamento da realidade no incansável intuito de ser feliz, pleno, sujeito de mim e da história. No atual momento da sociedade mundial, capitalista – um mundo sem amor -, realizo no interior dos empregos que tenho (e nos que tive e ainda terei) a fantasia de encarar a natureza, convencê-la a reconhecer a condição humana que não pode prescindir de alegrias, vitórias, caminhadas em relação à alteridade. Vivo a reiterar que, com isso na cabeça, não visto nenhuma camisa, não ostento logomarcas, não absorvo discursos institucionais: meu trabalho é minha caminhada pelos labirintos de mim mesmo, pelos capítulos da longa e prazerosa aventura sociológica. A Sociologia é maior que tudo – e em sua defesa, saio sempre em carreira independente. Respeito regras, conduzo-me bem por regimentos e parâmetros institucionais, mas, no horizonte, desenho a missão de partilhar ideias, ajudar a mudar o mundo. E isso está ecos e mais ecos de distância da realidade corporativa, da cosmovisão estreita  e reducionista que possuem as organizações de capital no mundo contemporâneo. Camisa, quando visto, é, exclusivamente, a do Fluminense Football Club.

É, a vida não visa a lucro, não busca cifras, não requer ser vista como magnânima, imponente, cujos braços a tudo alcancem. A vida visa aos termos da felicidade. Ainda que sua plenitude seja ofuscada pelo delírio pequeno-burguês das mentalidades em vigência – que, aliás, em sua materialização nas relações sociais, andam tagarelas como nunca, falando, falando, colecionando estupidezes -, nos intervalos de uma dominação tão cruel sob a qual todos estamos, acenando com fé para uma luz que prometeu atravessar os céus, é possível e urgente respirar, exercitar no agora a vida que sonhamos para amanhã. Eu viso tão somente ao humano que certamente há em todos nós.

16 dezembro 2011

Um livro sempre atual


Em "O futuro da filosofia da práxis", o filósofo Leandro Konder reconstrói a trajetória do pensamento de Marx fixando-o no século XIX. Marx levantou questões que muitos economistas contemporâneos ainda não resolveram, como, por exemplo, o valor-trabalho e a expropriação de energias humanas para a concentração e o benefício proporcional de poucos. Como sujeito do século XIX, Marx não escapou também às influências do romantismo e do positivismo, o que pode ser claramente atestado em muitas de suas críticas ao modo de produção capitalista como um "estágio" da evolução humana (parcela de sua mentalidade emprestada a C. Darwin, que era autor dileto do amigo de Karl, o velho Engels). O que muito marxistas de hoje em dia combatem como "ciência" é a presença inequívoca de elementos positivistas na obra do genial autor de O Capital, expediente que estipula verdades como fenômenos exteriores à subjetividade e ao enfrentamento da objetividade. Logo na abertura do livro, Leandro Konder assevera: a coisa mais difícil, nos dias atuais, é pensar historicamente. Eu assino embaixo dessa assertiva de 1992, ano da primeira edição, pela Paz e Terra, desse livro indispensável.

15 dezembro 2011

Os direitos humanos de quarta geração


"Muros brancos, povo mudo", fotografia de Liliana-Oliveira

Faz alguns anos que a temática dos direitos humanos à comunicação livre e pluralista ocupou o debate sobre a qualidade da vida democrática.

De que adianta ter liberdade para dizer e fazer - privilégios conquistados por meio dos históricos direitos civis e políticos, afirmados, respectivamente, nos séculos XVIII e XIX, e de lá para cá sempre ampliados e espraiados -, se não existem fontes decentes que informem sobre a diversidade dos acontecimentos por diferentes pontos de vista?

A concentração dos veículos de comunicação nas mãos de poucos não apenas restringe acesso ao domínio dos meios difusores, como também impede que o conjunto dos cidadãos possa debater o mundo por ângulos pluralistas e até contraditórios. Sem essa condição preliminar da aspiração democrática, ou seja, sem uma unidade diversificada dos pareceres sobre a vida e a história, não há cidadania de fato.

Contra os monopólios e oligopólios dos meios produtores da informação e em favor da efetiva democratização das liberdades de dizer, fazer e ser, os direitos de quarta geração vêm conquistando espaço e força nas discussões sobre as experiências coletivas da prática cidadã.

Junto à ampliação das fontes de informação e ao combate a feudos de comunicação, os direitos de quarta geração também refletem como as novas tecnologias ligadas às ciências e pesquisas sobre saúde humana interagem com a promoção do bem-estar da vida em sociedade. Nesse sentido, temas como clonagem, eutanásia, uso das células-tronco em investigações sobre superação de limites e cura de muitas doenças passam a ser preocupação na batalha pela garantia e pela extensão dos direitos humanos.

Após séculos de lutas por liberdades individuais e direitos fundamentais, os quais sintetizam a necessidade humana de existir com dignidade, ter vez e voz, a cidadania do presente se estabelece francamente em oposição à discriminação, à exclusão e à violência - e, agora, pelo pleno direito às complexidades da vida e pelo acesso ao saber relacionado com as intersecções entre o sujeito humano e o mundo. Um acesso que deseja ser ativo, participativo, construtor da realidade social.

13 dezembro 2011

A noite


A noite me faz melhor. A combinação entre o inusitado e as estrelas, casal símbolo do tempo escuro, iluminando apenas timidamente becos que a alma não pode evitar, nunca me decepciona: à chegada do sol, o sono é de um justo, o descanso, merecidíssimo.

À noite eu me empenho em ser um sujeito menos áspero. O corre-corre do tempo iluminado, escuro tão somente no limite de eu não perder a esperança, desgasta, inebria; é temerário o passar das horas sob a intensidade de luzes incompatíveis com o sossego do corpo e do espírito.

Dia após dia, conto turnos em busca da noite perfeita. Houve época em que orava, suplicava, chamava pelo transcendente. Houve tempo também de ateísmo militante: importunavam-me tanto o céu quanto o inferno, o bem e o mal, o possível e tudo que se anunciava impossível.

Faço o que quero com a noite. Hoje em noite - nada de lugares-comuns nem referências a dias - creio, descreio, recreio. Sinto-me só no parque de diversões da vida ensolarada, mas sei que nunca estou sozinho quando chega a noite.

À noite, músicas soam, ressoam, ecoam bem melhor. A noite pertence à música - é sua partitura especial. A escuridão também pertence à dança, ao beijo, ao amor - todos os tipos de amor vivem na noite e dela recebem fortes abraços e sedutores entreolhares. Se há algo que a noite não é, esse algo cheira à ausência de preconceito e políticas de exclusão. À noite, todos somos iguais. Cada um é um pouco da noite. Nada mais democrático e republicano do que o cair da tarde.

Sempre julguei impertinente que verbos como iluminar e clarear fizessem alusão direta ao dia. À noite, ideias se iluminam, verdades ganham real claridade. Desconheço poetas bronzeados. Mesmo um povo solar, como o cubano, por exemplo, é mais revolucionário no esplendor da sua noite, aquele momento inesquecível que antecede as horas que nos mudam e marcam para sempre. O mar, esse amante impenitente do luar, prepara-se durante toda a noite para, na manhã seguinte, agraciar vidas, ensinar a sorrir. É de noite que o mar compõe sua beleza; pela manhã, existe somente a constatação. A noite também pertence ao mar.

Planos, sonhos, grandes descobertas, encontros definitivos, tudo do melhor em nós e para nós é da noite, ocorre noite afora, até a primeira sombra de cada manhã. O sol, sempre enciumado da exuberante formosura sem alardes da noite, exibe-se até não mais poder: sabe bem que é da noite também, que é nela que necessita se refugiar para reaprender, na escuridão, a brilhar

01 dezembro 2011

Por uma comunicação verdadeiramente livre


Houve um esforço, durante o período da Assembleia Nacional Constituinte, entre 1987 e 1988, de refletir com argúcia sobre o futuro das comunicações no Brasil. Após mais de duas décadas de censura, controle estatal da informação, perseguição às liberdades críticas e de pensamento autônomo, seria de muito bom tom que a nova constituição se dispusesse a regulamentar um amplo processo de democratização dos meios de comunicação social, fato que impedisse a volta ao passado de cercas e abomináveis manipulações. Mais de 20 anos depois da promulgação da constituição democrática de nosso país, quase nada se fez para efetivar o direito à informação livre e responsável, cidadã e realmente fruto de iniciativas em franca e leal concorrência.

É razoável, como ocorre, por exemplo, nos Estados Unidos da América, que um mesmo grupo de comunicação seja proibido de controlar, numa única cidade, veículos impressos, televisivos e radiofônicos, além de tomar para si as maiores fatias de negócios na rede mundial de computadores. Para muito além de configurar monopólio (uma verdadeira capitania hereditária, numa alusão metafórica a nossa história colonial), esse tipo de concentração impede que outros grupos ou indivíduos possam emitir o contraditório, ou seja, outras visões da vida e da história. Assim, o cidadão passa a ver o mundo por um único prisma, e sua formação passa a ser propriedade desses meios gulosos e economicamente muito poderosos. A permissão para a existência de monopólios ou oligopólios de mídia - muitos deles agraciados por concessões públicas de sinal e portentosos recursos governamentais - é um congelamento do tempo, uma guerra aberta entre a Idade Média que não quer morrer, insiste em fazer-se zumbi do anacronismo político e cultural, e a Modernidade que deseja nascer, almeja a luz, mas é impedida de todas as formas.

Igualmente plausível é não permitir que políticos e titulares de cargos públicos possuam controle de meios de comunicação. Nesse caso, a simbiose entre política, poder econômico e produção da notícia trabalha exclusivamente para a deturpação dos fatos, o esconde-esconde de personagens (protagonistas e coadjuvantes) e ocorrências (mínimas e máximas), a total incivilidade.

Infelizmente, no Brasil, criou-se um cacoete para desqualificar a discussão sobre a democratização dos meios de comunicação. Ao insistir em generalizar tudo como sendo censura, o cacoete conservador acaba praticando aquilo que mais jura combater, isto é, a pior de todas as censuras. É isso.