13 dezembro 2011

A noite


A noite me faz melhor. A combinação entre o inusitado e as estrelas, casal símbolo do tempo escuro, iluminando apenas timidamente becos que a alma não pode evitar, nunca me decepciona: à chegada do sol, o sono é de um justo, o descanso, merecidíssimo.

À noite eu me empenho em ser um sujeito menos áspero. O corre-corre do tempo iluminado, escuro tão somente no limite de eu não perder a esperança, desgasta, inebria; é temerário o passar das horas sob a intensidade de luzes incompatíveis com o sossego do corpo e do espírito.

Dia após dia, conto turnos em busca da noite perfeita. Houve época em que orava, suplicava, chamava pelo transcendente. Houve tempo também de ateísmo militante: importunavam-me tanto o céu quanto o inferno, o bem e o mal, o possível e tudo que se anunciava impossível.

Faço o que quero com a noite. Hoje em noite - nada de lugares-comuns nem referências a dias - creio, descreio, recreio. Sinto-me só no parque de diversões da vida ensolarada, mas sei que nunca estou sozinho quando chega a noite.

À noite, músicas soam, ressoam, ecoam bem melhor. A noite pertence à música - é sua partitura especial. A escuridão também pertence à dança, ao beijo, ao amor - todos os tipos de amor vivem na noite e dela recebem fortes abraços e sedutores entreolhares. Se há algo que a noite não é, esse algo cheira à ausência de preconceito e políticas de exclusão. À noite, todos somos iguais. Cada um é um pouco da noite. Nada mais democrático e republicano do que o cair da tarde.

Sempre julguei impertinente que verbos como iluminar e clarear fizessem alusão direta ao dia. À noite, ideias se iluminam, verdades ganham real claridade. Desconheço poetas bronzeados. Mesmo um povo solar, como o cubano, por exemplo, é mais revolucionário no esplendor da sua noite, aquele momento inesquecível que antecede as horas que nos mudam e marcam para sempre. O mar, esse amante impenitente do luar, prepara-se durante toda a noite para, na manhã seguinte, agraciar vidas, ensinar a sorrir. É de noite que o mar compõe sua beleza; pela manhã, existe somente a constatação. A noite também pertence ao mar.

Planos, sonhos, grandes descobertas, encontros definitivos, tudo do melhor em nós e para nós é da noite, ocorre noite afora, até a primeira sombra de cada manhã. O sol, sempre enciumado da exuberante formosura sem alardes da noite, exibe-se até não mais poder: sabe bem que é da noite também, que é nela que necessita se refugiar para reaprender, na escuridão, a brilhar