21 dezembro 2011

Nos intervalos, a solene felicidade


"Quem gosta de ser adulado é digno do adulador" (Shakespeare)

A vida não visa a lucro. Não existe possibilidade de encontrar sombra de felicidade em coisas que se desgastam, tornam-se enjoativas, desnecessárias e até descabidas com o passar do tempo. Em rigor, não há admissibilidade em procurar alegria nas coisas.

É da tradição clássica do pensamento socialista distanciar em profundidade as categorias emprego e trabalho. Enquanto está última sugere a insuperável relação entre o sujeito humano e a natureza, na difícil senda por satisfação de necessidades e realização de desejos, aquela se reduz a uma atividade que garante renda, uma fonte de subsistência. No dia a dia, acredito, não é preciso ir longe para encontrar gente que detesta seu emprego, não se realiza como humano nas tarefas que executa ano após ano. Já no que diz respeito ao trabalho, essa ação de dialéticas constantes entre a subjetividade das almas e a objetividade do mundo, é ainda mais fácil perceber que poucos sabem do que se trata de fato.

Bom, esse percurso conceitual me ajuda a retornar com mais lucidez às tais coisas. Se o emprego é só garantia material de sobrevivência, ele não deve ser compreendido como instrumento para alcance da felicidade. Como coisa, ele está condicionado às circunstâncias, ao perigoso e nefasto jogo que indivíduos e sociedades anônimas (sem subjetividade nem humanidade, visto que se escondem na invisibilidade de números e palavras fáceis) levam a cabo na disputa por poder, ocupação geográfica, domínios de mercado, essas tolices. Mesmo no âmbito do emprego, dessa indispensável alienação que o ser necessita praticar contra si mesmo numa realidade hegemonizada pelo valor de troca, é na linha de montagem, no lugar em que as pessoas de fato produzem e são felizes na fronteira de todas as (im)possibilidades, que reside a graça do viver. Não obstante a vulnerabilidade daqueles que se encontram subalternizados no "chão da fábrica", sem a chance de obter reconhecimento e glória por tudo que fazem, é o mundo da vida que habitam os sorrisos – na ânsia por mais e mais coisas, o humano se esquiva de si mesmo, torna secundária a afetividade, terciária a alimentação das utopias, exilado o amor, condenadas à morte a arte, a cultura, a poesia do existir.

Meu trabalho é minha realização como subjetividade, meu enfrentamento da realidade no incansável intuito de ser feliz, pleno, sujeito de mim e da história. No atual momento da sociedade mundial, capitalista – um mundo sem amor -, realizo no interior dos empregos que tenho (e nos que tive e ainda terei) a fantasia de encarar a natureza, convencê-la a reconhecer a condição humana que não pode prescindir de alegrias, vitórias, caminhadas em relação à alteridade. Vivo a reiterar que, com isso na cabeça, não visto nenhuma camisa, não ostento logomarcas, não absorvo discursos institucionais: meu trabalho é minha caminhada pelos labirintos de mim mesmo, pelos capítulos da longa e prazerosa aventura sociológica. A Sociologia é maior que tudo – e em sua defesa, saio sempre em carreira independente. Respeito regras, conduzo-me bem por regimentos e parâmetros institucionais, mas, no horizonte, desenho a missão de partilhar ideias, ajudar a mudar o mundo. E isso está ecos e mais ecos de distância da realidade corporativa, da cosmovisão estreita  e reducionista que possuem as organizações de capital no mundo contemporâneo. Camisa, quando visto, é, exclusivamente, a do Fluminense Football Club.

É, a vida não visa a lucro, não busca cifras, não requer ser vista como magnânima, imponente, cujos braços a tudo alcancem. A vida visa aos termos da felicidade. Ainda que sua plenitude seja ofuscada pelo delírio pequeno-burguês das mentalidades em vigência – que, aliás, em sua materialização nas relações sociais, andam tagarelas como nunca, falando, falando, colecionando estupidezes -, nos intervalos de uma dominação tão cruel sob a qual todos estamos, acenando com fé para uma luz que prometeu atravessar os céus, é possível e urgente respirar, exercitar no agora a vida que sonhamos para amanhã. Eu viso tão somente ao humano que certamente há em todos nós.