30 dezembro 2012

Coração do mundo II


Era só um pedaço de mim
que se perdeu,
do todo, de tudo,
daquela longa
caminhada.

Por anos,
um tempo maior que o necessário,
o pedaço voou solitário,
sem desconfiar
que ele era mais
do que o próprio tempo,
menos do que um castigo,
superior à dor do coração.

Tricolor, um cavaleiro de paz,
vigor e esperança,
encontrou seu tudo,
aquele todo,
no sorriso gigantesco
da lua,
que viu na ponte,
dançando,
menina,
a exalar paixão,
contagiar o mundo
de um coração-menino.

Agora
seu itinerário é a calmaria,
cabelos mágicos,
que se deliciam sobre o peito a amar,
dão sombra de proteção ao olhar,
que se fixa,
abraça,
faz um amor monumental.

O coração do mundo
tem seu sol
e também sua lua,
na passagem,
no caminho inevitável da vida,
por onde passam
aqueles
que souberam
perder
para
mais tarde
ganhar.
E, esplendidamente,
amar.

26 dezembro 2012

Ansiedade

Ernesto Sabato (1911-2011)

para Luana

O saudoso escritor argentino Ernesto Sabato dizia que o principal incômodo no mundo moderno era o barulho. Nas ruas, nos cafés e restaurantes, até em salas de cinema e aula, o silêncio bateu asas e foi dar em paradeiro desconhecido.

Eu penso que do desaparecimento do silêncio nasceu a ansiedade que come vivas as novas gerações. Por ser maioria e por pautar o ritmo da vida cotidiana, as novas gerações contaminaram o mundo com o dissabor alucinante da ansiedade.

Há uma afobação que impede por completo que olhemos à nossa volta, pensemos sobre o que vemos ou fantasiamos. Não é a pressa que corre contra o tempo, a ligeireza de quem tem urgência de viver. Não. É o desejo sem argumentos de chegar antes, avançar pela preferencial, furar o sinal, bater porta na cara dos outros.

As urgências sem cabimento, as emergências sem urgências tornam a ansiedade um símbolo deste tempo em que cada um é a única prioridade de si mesmo. Fala-se demais. Ouve-se pouco, quase nada. As imagens, que não precisam de muita atenção, anularam a palavra escrita, que exige calma, concentração, tempo disponível. Aqui, ali e acolá, em toda parte, entre todas as pessoas, o tempo parece curto, embora ele sempre sobre para a indiferença, o desprezo e o barulho.

Ernesto Sabato dizia ter vertigem diante de tanta velocidade. Tudo corre, quando não voa; voa, quando não parece se teletransportar... As conversas são curtas, desatentas, desinteressadas. Na verdade, por conta dessa pressa que não se explica, nunca temos muito a dizer. O barulho que nasce da pressa que ocupa o lugar do silêncio produz, então, cabeças ocas, inorgânicas, como escreveu o poeta Vinicius de Moraes.

A pior parte da ansiedade, contudo, é que ela não é nada amorosa. Privilegiando a quantidade, a ansiedade não se permite a delícia de um olhar, de uma boa taça de vinho, de um toque que se prolongue ao infinito. A ansiedade, como tantos de nós, sujeitos da pressa e da urgência sem argumentos, não sabe amar. 

11 dezembro 2012

Coração do mundo


Eu sonho sobrevoar o mar,
o mar que há em mim,
avistá-lo, tentar decifrá-lo,
anunciá-lo ao porvir.

No mar do mundo,
com as mãos que para sempre
serão tricolores,
antecipo a viagem da esperança -
ela vive em mim,
num interminável itinerário,
entre os meus sentidos
e os gritos do povo.

Atravessando nevoeiros,
pressinto a força que me move,
uma implacável disputa entre gigantes,
siameses,
que vivem no peito,
na coragem que ousa,
forja,
partilha um olhar solidário,
um coração do mundo.

No geral e
no particular,
eu só sei ser assim,
a fim,
o velho menino
de sonhos novos -
e eternos, na vitalidade
de seu longo tempo.

Liberdade X Segurança

"Flâneur" (Warren Haasnoot Studios)

Em 2010, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, radicado há décadas num refúgio urbano em Londres, na Inglaterra, recebeu em sua casa uma equipe brasileira de TV. Desse encontro nasceu uma entrevista inteligente e bastante provocativa.

A conversa que foi ao ar pela TV brasileira foi editada e tem quase meia hora. Bauman versa um pouco de tudo: o caráter líquido das novas relações sociais; o drama de vidas que se desperdiçam numa cultura exclusivamente voltada para o consumo; a difícil arte da felicidade num mundo que torna tudo tão temporário, fragmentado e descartável; e muito outros temas instigantes.

Lá pelas tantas do excelente bate-papo, Bauman é perguntado sobre o status da liberdade na sociedade contemporânea. De pronto, Bauman apresenta um tenso desafio que não escapa a nenhum de nós: todos queremos muita liberdade e muita segurança. O problema, afirma o sociólogo, é que quanto mais se tem uma, menos se pode esperar da outra.

Ao desejar e reivindicar a liberdade, cada um de nós se posiciona em lugar de absoluta vulnerabilidade. O mundo não tem sido um lugar tranquilo. A constatação disso amedronta e afugenta: muros crescem e se eletrificam, praças são abandonadas, a rua deixa de ser palco e passa a ser lugar de rápidas e assustadas passagens (impossível não pensar na crise do flâneur, o caminhante das detidas e preguiçosas observações da vida, imortalizado pela letra bela e crítica de Walter Benjamin em suas leituras de Charles Baudelaire). Disso tudo vem a perda da liberdade e a necessidade irremediável de segurança.

A conquista da liberdade pressupõe a tomada das ruas, o cerco ao medo, o enfrentamento daquilo que assusta e põe para correr. Não há na História – se há, nunca soube – exemplo de liberdade que não tenha sido construído no encontro das diferenças em espaço público e aberto, muitas vezes sobre os escombros de barricadas. Do mesmo modo – salvo terrível e imperdoável engano meu – a segurança brota entre muros, como opção de gente que se afasta de outras gentes. Por ser um desdobramento do medo, o desejo da segurança anula o gosto da liberdade, cujo principal ingrediente é mesmo a coragem.

De minha parte, desde cedo, optei por lutar em nome da liberdade. E me sinto feliz e seguro por conta disso.

02 dezembro 2012

Esquerda

"Obrigatório virar à esquerda", fotografia de Cátia Monteiro

Um pra cá
Dois pra lá
"Pra lá", que são dois
pra mim

sempre foi à esquerda

Nunca mudei o ritmo
sempre na mesma batida
observando
anotando
criticando
melhorando
mas sempre dois
e pra lá
pra esquerda

Nova, a festa
troco a música
outras são as personagens
histórias inéditas então vêm

O som, contudo
corre solto
pulso das ruas
trilha da esquerda

22 novembro 2012

Controle Social


Somos vistos de todos os ângulos em toda parte. Nas ruas, nas fábricas, nas lojas, nas escolas, nos espaços públicos e até privados, a ordem é vigiar. Se necessário, punir.

Impossível não lembrar o pensador francês Michel Foucault (1926-1984) quando nos damos conta de que vivemos num imenso labirinto espelhado, perdidos, podendo contar apenas com nós mesmos. O problema é que, se estamos realmente perdidos, é desaconselhável o excesso incentivado de autoconfiança.

Foucault, que leu Bentham, apreciou e trabalhou bem sua ideia de panóptico. Ele acreditava que temos medo de transgredir porque não sabemos ao certo se estão nos vendo. Somos vistos, votados, comprados, malditos e até condenados, mas não sabemos quem está fazendo tudo isso.

O bom filósofo francês, autor do monumental “Vigiar e Punir”, uma crítica aberta e de enorme fôlego ao sistema prisional moderno, afirmava que vivemos em núcleos sociais muito semelhantes a presídios, hospitais e hospícios. Nesses lugares tidos por pouco nobres, vivem os diferentes, aqueles que, sendo maus, doentes e loucos, precisam ser confinados, vigiados, seguramente afastados do colorido mundo dos bons, sadios e sãos.

Os de outra cor de pele, os de outra orientação sexual, os de outra fé, os de outros princípios e valores necessitam, então, ser disciplinados, adocicados, tornados úteis.

A patrulha de combate à diferença – via de regra um aglomerado de elites que julgam fazer tudo em nome da liberdade, da moral e dos bons costumes – estigmatiza o outro como subversivo, perigoso, uma ameaça à ordem que enriquece alguns, proclama miseráveis todos os demais.

Contra a ordem, insistem os resistentes, os movimentos sociais que vez por outra incendeiam as ruas e as consciências conformistas. Foucault via na infinita genealogia de conhecimentos e saberes do mundo a chance da mudança. Os mapas da vida não estão nas festas regadas a espumante europeu, nos coquetéis de novos empreendimentos imobiliários ou nas reuniões refrigeradas dos abastados. Eles estão, estiveram e sempre estarão nas ruas do mundo.

15 novembro 2012

Fraternidade

"Mulheres Protestando", de Di Cavalcanti (1941)

Numa sociedade de homens e mulheres realmente livres e iguais, a fraternidade é o prato principal. Se a igualdade pressupõe uma substância que reúna as pessoas e a elas garanta um mesmo convívio em condições efetivamente paritárias, a liberdade é o estilo que se impõe por cada indivíduo e por cada comunidade. Ser livre para render homenagens à igualdade. Ser igual para fazer uso humano e inteligente da liberdade. O elixir de ações ricas e integradoras é, no fundo e na superfície, um sujeito fraterno.

Se estender a mão para oferecer palavras e gestos de solidariedade é ser fraterno, bom para o mundo que nós o sejamos.

Se olhar para o outro é admitir que nada somos sem a comunhão com o mundo, excelente, então, que lutemos para disseminar laços de irmandade, como se estivéssemos sempre numa gigantesca ciranda, de mãos dadas.

A constatação da fragilidade humana e da responsabilidade que temos uns pelos outros, a partir das escolhas que fazemos diariamente, é tempo que se abre para a fraternidade – muito mais que humanos, somos irmãos; para muito além de irmãos, somos filhos dos dias, como ensina Galeano, feitos de átomos e de infinitas histórias.

A fraternidade é pura pedagogia. Ela desonera o bem e o mal em face dos problemas do mundo. O ser fraterno entende que a fome, a exclusão e a miséria, por exemplo, são produto da atividade humana gananciosa e do estímulo à egolatria e à hipercompetitividade. Num mundo em que o mercado virou “lei natural”, a fraternidade estimula a inquietude e a rebelião: é preciso gritar contra a naturalização da injustiça. Isso é liberdade. Isso é fraternidade. Assim poderemos vislumbrar a igualdade.

A fraternidade, enfim, não é caridade nem compaixão, simplesmente. É humanismo, ou seja, a certeza de que o universo a todos pertence. Um pouco mais: ela, a fraternidade (irmã gêmea do humanismo mais radical), é imensa partilha - a única forma de exercitar a paz e o verdadeiro amor.

Igualdade

"Suíça", de Paul Klee (1929)

A palavra igualdade inspira nobres sentimentos. À igualdade costumamos reservar nossos melhores gestos e nossas mais preciosas palavras. Queremos para nós a igualdade. O problema é que muitas vezes negamos aos outros o direito de ser iguais a nós.
 
Mais do que uma palavra de ordem contra injustiças e destemperos daqueles que detêm o poder, a igualdade é um impulso da alma, um movimento da vida. É difícil admitir que pessoas possam não ter as mesmas oportunidades, que não sejam vistas na inteireza de sua humana dignidade, que não possam reivindicar igualdade de tratamento em situações de cruel dessemelhança, preconceito ou exclusão. A igualdade, nesse sentido – e no discurso, pelo menos -, é uma unanimidade.
 
A igualdade perde prestígio, contudo, quando cutuca privilégios, quando questiona velharias, quando aponta mazelas que dão dinheiro e status a uns poucos mundo afora.
 
Toda vez que a igualdade sugere enfrentamentos contra aqueles que enriquecem e contra as injustiças que empoderam uns e outros, ela é confrontada com a liberdade. Os privilegiados e os injustos vivem gritando que têm a liberdade de ser privilegiados e de se beneficiarem da injustiça. Dizem esses, digamos, indivíduos: “Nunca haverá igualdade onde não há liberdade.” E a igualdade, indignada, pergunta a eles: “E haverá igualdade num mundo em que a liberdade pertence a alguns poucos, como uma cara e rara relíquia?”.
 
É falsa, de má-fé e de profunda desonestidade intelectual a separação entre igualdade e liberdade. Os liberais, frise-se de passagem, historicamente, puseram-se contra a democracia por ver nela o crescimento da participação popular na política. (Estão aí os escritos de Benjamin Constant, Tocqueville, Mosca e Schumpeter para comprovar.)
 
Hoje, num mundo em que cinicamente todos se dizem democratas, é preciso separar e destacar quem vê a liberdade como matéria-prima da luta por construção da igualdade e quem articula liberdade e desigualdade, destacando privilégios e riquezas incompatíveis com um mundo tão duro e desumano. Nessa diferença está o verdadeiro sentido da liberdade.

08 novembro 2012

Geração Y


Muito se fala da tal geração “Y”, que teria entre vinte e trinta anos, nascida, no limite, na metade dos anos 1980. Geração pós-ditadura, aos pés da queda do Muro de Berlim e dos estilhaços da União Soviética, os jovens de letra “y” são rodeados por tecnologias, inovadoras possibilidades de comunicação e, principalmente, alheios completamente às bandeiras e ao legado da juventude de 1968, aquela composta por gente que queria mudar o mundo.

Hoje, o mundo em debate é o mundo privado de cada um. Numa época de pouca ou nenhuma utopia, a regra é a felicidade profissional, o sucesso financeiro, o cerco por objetos eletrônicos e muitos bens de consumo.

A nova cultura dos computadores colocou todos em rede, integrados, conectados a velocidades cada vez maiores. De lá e de cá, surgiram análises otimistas sobre o promissor futuro de gente informada, antenada, mobilizada, crítica e consciente. Ao mesmo tempo, tudo que antes era busca e construção virou download e dispersão. Onde reinam o excesso e a facilidade, o temporário é a única certeza.

Sem livros, pouco atentos, desinteressados pelas causas comuns, os jovens de letra “y” mal reconhecem as palavras; falam por cifras e linguagem criptografada. De muitas maneiras, na medida em que só pensam em si mesmos e se negam a ocupar o mundo compartilhado da diversidade, atomizam a experiência e retribalizam a vida social. Se para os já cansados membros da geração “x” (que foram pupilos do Professor Xavier e colegas de turma do Wolverine) a questão era descobrir os mapas do mundo e os tesouros da democracia, para a geração “y” o objetivo é conquistar tudo e se esforçar nada. Bem ao contrário do que dizem “headhunters”, consultores empresariais e noviços nada rebeldes do neoliberalismo, a letra “y” não pode ser o futuro, uma vez que ela só pensa no presente e se esqueceu absolutamente do que foi decisivo no passado. Numa palavra, trata-se de uma geração sem história.

Sem ideias, sem valores para partilhar, sem um desejo que possa ser projetado no horizonte, nossos dias anseiam por um novo tempo, por gente que resista, que não aceite entregar-se à escuridão.

Nunca fomos tão carentes de dissidentes.

25 outubro 2012

Incêndios


A notícia corria solta. No bairro vizinho, mais um incêndio, mais uma terrível surpresa ao cair da tarde.

Maria vivia sozinha. Viúva, mãe de cinco filhos, todos casados, dados ao mundo de nosso Deus, dividia-se entre o passar das horas e o contar das moedas. Num charmoso pote de bolachas, insuspeito, guardava o dinheiro da humilde pensão que recebia do INSS e um pouco da ajuda igualmente modesta que recebia dos filhos. A casa, um pouco de alvenaria, muita madeira e improviso arquitetônico, era arrumada, até que bem organizada, na fronteira do difícil possível. É fato que os limites de espaço e o pobre mundo à volta impediam que seu lar pudesse aspirar a paraíso.

Além do bairro vizinho, que no momento ardia em chamas, várias outras favelas da região haviam sofrido com estranhos e temerários incêndios nos últimos meses. Semana sim, semana não, carros de bombeiros, defesa civil, viaturas policiais e câmeras de TV alteravam a pacata cena cotidiana da área. Ao longe, no horizonte, prédios altos e luxuosos brincavam com os sonhos que quase todo o mundo por ali já havia perdido.

Maria observava, sem entender muito bem, que, após cada novo e misterioso fogaréu, os prédios ficavam mais próximos do seu olhar e aumentavam em número. Aos poucos, percebeu também que os grandes espigões de concreto estavam cercando os bairros pobres da sua gente; que havia sempre mais policiais nas redondezas; que gente de terno, gravata, capacete de obra e carrões luxuosos frequentava quase todos os dias as ruas da comunidade, medindo chão, apontando matas e córregos. Maria não sabia quem eram aquelas pessoas. Sabia apenas que elas chegaram junto com o fogo – e que também aumentavam em número depois de mais um danoso e cruel incêndio.

O bairro de Maria pegou fogo pouco tempo atrás. Ela vive hoje num albergue, perdeu tudo, bens, amigos, esperança. No chão da favela em que criou os filhos estão agora caminhões, tratores, operários e muitas vigas de concreto. À entrada, um outdoor: “Lançamento, luxo total, com dois ou três quartos, duas suítes e duas vagas na garagem – o paraíso chegou para você”.

22 outubro 2012

Microcontos da Loucura - uma breve trilogia

I.
Na palavra delicada, exibida em caracteres eletrônicos, ressurgiu a possibilidade do amor inconsequente, essa forma única se de apaixonar verdadeiramente por alguém.

II.
Em minhas ideias, todas elas tomadas pela delirante ansiedade de dar a mim mesmo o mais sangrento e doloroso dos prazeres, a única coisa que importava era torcer para o tempo voar.

III.
Eu quis ver um sorriso de vontade naquele "vamos ver". Deitei-me. E controlei - segurei - o tesão.

09 outubro 2012

Ela


O que mais penso
é se ela pensa em mim.
O que mais quero
é saber se ela apanha
os sinais que
envio,
nos quais insisto,
que se tornaram
o ar que,
já faz algum tempo,
todo o tempo,
eu respiro.

Ela é jovem demais,
uma menina-mãe,
aura de anjo;
corpo inteiro,
mulher dos pés
à cabeça...
Aliás, que pés!
Os mais lindos,
com os quais
desejo, lado a lado,
caminhar,
até o fim,
com um fim,
nosso,
inteiramente nosso.

Já versei sobre
seus olhos,
sua boca,
o olhar penetrante,
o sorriso mágico.

Menina,
tão menina,
uma mulher de
paradoxos, histórias
insolúveis, atraentes,
sedutoras até perder
de vista,
as vistas,
todo o juízo.

Ela é o doce que me dá
água na boca,
no tempo,
na paixão platônica
da minha vida.

01 outubro 2012

Basorexia


A palavra que explica o que sinto quando me sento ao lado dela surgiu-me no auge do incontrole. Perto ou longe, em verdade, nítida ou sombreada, a imagem da doce morena de sorriso galático me incita ao crítico e perturbador desejo de beijá-la. Ao dormir e ao acordar, beijá-la é tudo em que penso.

O beijo, o toque dos lábios, o movimento do rosto, as mãos a acariciar nuca e cabelo... Pela primeira vez, o amor começa e se encerra num beijo para mim. Nada mais é necessário. Eu realmente não cotejo outra coisa: quero morrer e renascer naquele beijo.

Descubro, então, que sofro de basorexia, um despudorado impulso por beijar aquela mulher de olhos negros e gargalhada deliciosa. A boca doce, imagino, será meu veneno-remédio.

26 setembro 2012

O esperado doce beijo


Houve um esfriamento. Não sei se ela entendeu e não gostou, se ela entendeu e está com medo, se ela sequer sabe do que ando escrevendo e sentindo. O sorriso daquela mulher que tanto me perturba desapareceu. Eu continuo ao longe, separado por uma parede de vidro e uma tela no alto de uma parede, observando o doce de sua beleza, a beleza de toda a sua doçura. Hoje à noite ela está de cachecol, uma bela e charmosa medida para um frio fora de estação, em pleno tempo das flores. Bom, ela permanece minha flor, minha estação das cores. É provável que ela viva para sempre somente na minha cabeça, na fantasia que viaja a toda hora do coração ao desejo e do desejo ao coração, frenética, humana, pura expressão de felicidade. Morena, leve, de outras pessoas e de outras realidades. Apesar de admitir que ela não existe para mim, eu sigo insistindo em imaginar que, em algum lugar, de alguma breve e inesperada maneira, o beijo irá acontecer. Ah, o beijo...

20 setembro 2012

Um pedaço dela




Novamente a pequena tela vista a distância me pôs diante dela. Ontem, além de destinar a ela uma piscadela e um sorriso bem desajeitado, toquei-lhe apaixonadamente o braço, sentindo que alguma coisa em mim clamava por um pedaço dela, um simples fragmento. Um beijo, um sorriso, uma entrega, uma só. De tudo, eu queria um pedaço, um momento daquela morena de cabelos pretos, intensos, olhar suave, fragilidade cativante. As mãos para lá e para cá punham em movimento meu desejo, minhas inconfessáveis fantasias. Pena não poder ouvir a voz dela. Eu sou da turma de cá, tenho de vê-la de longe, às ocultas, querendo aquela mulher mais do que a tudo neste mundo. Terei um pedaço dela? Ouvindo “Smile”, do Pearl Jam, imaginei que com ela – ou com um simples pedacinho dela - eu poderia, enfim, renascer.

13 setembro 2012

Doçura proibida


 O que eu queria de verdade não tinha nada a ver com "aprender o que preciso aprender". Isso foi uma desculpa, uma forma que encontrei para me aproximar. Eu queria mesmo era vê-la, ficar pertinho, derreter-me diante dessa paixão que me consome, conta as horas, invade meus sonhos e fantasias. Eu queria sentir o cheiro dela, desenhar na retina os movimentos suaves de tanta delicadeza ao falar, ao piscar, ao sorrir. Ela não entendeu. Ficou com medo e se esquivou. Ainda assim, longe, fiquei diante de uma tela, cuja distância de mim a tornou tão pequena, sem voz... No delírio das loucas coisas que ando sentindo sem tréguas, fiquei lá, sonhando, querendo o impossível, viajando nos destemperos do amor anônimo e proibido.

07 setembro 2012

Sexto Round



Em meus braços
a lua sorria,
o mais brilhante e
encantador sorriso
do universo.

Enquanto o beijo
nos ensinava seus caminhos,
nós, jovens aprendizes
de um amor intenso,
pretenso,
escandaloso consenso,
fitávamos a alma um do outro -
ela, olhos da lua,
jurava ser ali seu lugar,
em braços meus;
eu, coração menino,
apenas concordava e
ampliava o aconchego.

A boca da lua,
ilustrada pelo olhar,
profundo, livre,
feminino,
injetava ânimo:
um, dois, três,
quatro, cinco,
seis rounds -
tarde, noite,
manhã seguinte,
só houve tempo
para o exercício
do amor.

Aos quarenta
descobri amar
na lua de vinte anos,
tão menina, tão viva.
O mistério, a fonte
de uma juventude
que ainda está em mim,
no peito, na raça,
na ponte em que a vi,
logo amei, a lua
devolveu a mim
a poesia perdida.

Ah, a boca da lua,
o sorriso de tanto
brilho, júbilo,
pureza...

O cheiro, o gosto
da lua, a suave camada
de pele que fez tremer
meu corpo, fluir o
desejo por minhãs mãos,
de um sujeito,
de vida, só êxtase...

Na ponte, sonhei
amar a lua.
Agora, vivo
acordado,
à espera, confiante,
a fitar a boca
do céu -
horizonte.

01 setembro 2012

A liberdade

"Liberdade" (2003), de Isabel Alfarrobinha (óleo sobre tela)

Cecília Meireles escreveu que a liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta, é algo que ninguém explica e todo o mundo entende.

Ser livre é sentir que a liberdade foi, é e será sempre muitíssimo bem-vinda. O estado de ser livre reclama o ar do mundo, a água da vida, a terra da estrada. Mais, muito mais do que uma condição que possa ser comungada por meio de coisas, metérias, a liberdade é uma comunhão explícita de ideias. Por serem tão explícitas, as ideias livres partilham tudo, importam-se umas com as outras, protegem-se, prolongam alianças em nome do futuro.

Nesse sentido, a liberdade é responsabilidade, uma condenação, como afirmou Jean-Paul Sartre. Não cabe ao humano optar pela liberdade. Para que se faça o humano, a liberdade é a única e inadiável saída. Por ser livre, o ato humano é integralmente ligado a todos a sua volta - pelas gerações de ontem, de hoje e de amanhã será sempre responsável, eternamente lembrado, cobrado, animado.

Toda escolha é livre. Sendo humana, só pode ser livre. Contudo, é amplamente livre aquela que antevê seus desdobramentos, evita fabricar injustiças e se nega a calibrar desigualdades. Há na liberdade um fio condutor que alinha toda a espécie, conduz por caminhos nos quais cedo ou tarde os indivíduos irão se encontrar.

O atu humano que quer ser livre sozinho não consegue alcançar nem a verdadeira liberdade, nem a humanidade em sua essência. Aquele que, olhando para todos os lados, só vê a si mesmo não é humano, posto que não é livre. Antes, de maneira melancólica, realiza-se na escravidão, na falsa crença de que se basta.

Os que creem no empreender solitário, no poder da propriedade e na tinta do capital só querem um mundo livre para o mercado. Os que veem a liberdade como um exercício pleno da cidadania, mais abrangente, inclusivo e orientado por valores radicais, com ampliação e conquista progressiva de direitos, vez e voz, ainda carecem de uma autocrítica árdua em face de sua tradição já secular - e importantíssima para a humanidade.

Eu, de minha parte, livre e em comunhão com o mundo, quero ver a lua na ponte, aquele brilho que tanto me representa o verdadeiro e retumbante amor.

30 agosto 2012

O antivalor da liberdade no mundo contemporâneo


 Apresentei ontem, dia 29/08/2012, uma reflexão sobre a liberdade na encruzilhada da moderna sociedade de consumo e de proliferação do que nominei "antivalores". O evento foi na UNOPAR, insituição em que atuo, numa promoção conjunta com a Pastoral da Juventude e outras IES da cidade. Abaixo, o texto que redigi para orientar minha apresentação.


O gigante pensador italiano Antonio Gramsci (1891-1937) afirmava que uma crise se instaura quando o velho já se foi e o novo ainda não se faz presente. Esse hiato, em que os valores estão em profunda e caótica mutação, é o período de crise, o momento em que todas as possibilidades se abrem e a luta política e cultural se faz necessária e mais do que nunca urgente.

A ideia de valores anda surrada em nosso tempo. Seus imediatos parceiros, como a ética e o exercício coletivo de cidadania, andam desacreditados, desalinhados. Como em todo momento de crise, os indivíduos buscam refúgio em si mesmos, amedrontados, desconfiados de tudo e de todos. Os sentimentos fraternos se tornam um peso, um gasto de energia que poderia ser orientada para outros fins. É aí que reside o desafio dos contemporâneos: que fins são esses que precisam de toda a nossa atenção e merecem os nossos esforços mais desmedidos?!
 
A hipercompetitividade tornou as pessoas mais pragmáticas, em busca do ouro da utilidade. Para que servem as coisas, o que se ganha com tais atitudes, se é lucrativo, se oferece vantagem e benefícios imediatos, tais são as pistas que a maioria busca, quase todos desejam capturar nas ruas do mundo. De um modo bastante categórico, é possível afirmar que essas inquietações são na verdade antivalores, na medida em que não postulam partilhas e experiências que enriqueçam de forma perene e duradoura o eu e o universo. Na velocidade do “cada um por si e Deus por todos”, perde-se o essencial da convivência, ou seja, o tempo e a humildade para a autocrítica; o respeito pelo outro e o desejo dele se aproximar.
 
A ansiedade, o individualismo, a crença de que no consumo reside a felicidade verdadeira da vida, tudo isso acaba por nortear o comportamento das novas gerações. O nó mais górdio dessa experiência generalizada é que todos, os “de ontem”, os “de agora” e os “de amanhã”, uns mais, outros menos, serão contaminados pela mesma lógica. Quando o assunto são valores, é imprescindível que sejamos capazes de refletir em termos globais, no âmbito da totalidade. Não existem projetos sociais que alcancem alguns e ignorem outros – com maior ou menor intensidade, se uma prática ou uma mentalidade se transforma em valor, o tecido social todo sofre contágio, disseminando por todos os indivíduos, grupo e classes sociais uma mesma visão de mundo, um mesmo mapa de conduta.
 
Nesse sentido, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, num belíssimo livrinho chamado “Renovar a teoria crítica e reinventar a emancipação social”, publicado pela Boitempo Editorial em 2007, oferece algumas indicações de reflexão para a questão sobre nossas formas de conviver numa realidade marcada pela hegemonia neoliberal e acerca de “alternativas às alternativas” que estão dadas pelo conformismo e pela resignação. No centro do debate de Sousa Santos estão os pressupostos epistemológicos, relacionados como o que podemos e devemos conhecer, os ontológicos, acerca de como ainda podemos sonhar em nos humanizar, e os axiológicos, ligados ao conjunto de valores que devemos, no mínimo, refundar para uma vida mais decente, prudente e abrangente.
 
O conhecimento não é único nem neutro. O desafio das gerações em curso é saber usar os saberes técnicos e científicos para a edificação de valores mais inteligentes e solidários. A Internet é um caso emblemático dessa via crucis dos valores na contemporaneidade. Como toda descoberta técnico-científica, os sites de busca e as redes sociais, por exemplo, são coisas positivas, uma vez que potencializam atividades produtivas, ajudam na organização de ideias, aceleram processos comunicativos, põem em contato direto realidades que nunca se aproximariam fora do ambiente virtual. O problema está em politizar essas tecnologias, no melhor sentido que se possa atribuir à palavra política. Quais usos serão feitos dessa ferramenta? Que papel terão nas escolas e universidades, nos ambientes de trabalho, no exercício difícil da solidão de cada indivíduo?
 
Conhecer bem, portanto, é sinônimo de humanizar o que se conhece. Existem muitas formas de ser, sentir e viver, ainda que a hegemonia neoliberal do pensamento único pregue diuturnamente o contrário. Em sendo assim, é urgente que a diversidade cultural ganhe o mundo, possa existir de fato, democrática e francamente. As lutas sociais pelos direitos indígenas, negros, homoafetivos, para destacar somente alguns, são contundentes exemplares de quão rica é a experiência da vida. Ampliar o espectro da vez e da voz para mais gente significa mais humanização, mais partilha, mais reciprocidade e crescimento coletivo. Nesses termos, o que é do humano, sua ontologia, passaria a responder pelo plural e diverso, nunca jamais pelo singular e particular.
 
De repente, lembrei-me de Charles Wright Mills (1916-1962), um clássico e indispensável sociólogo estadunidense, que lançou em 1959 uma obra obrigatória, “A imaginação sociológica”. Acredito que a lembrança se tenha dado porque, afinal de contas, escreve, com muito bom humor, o autor de “Os marxistas”: assim como o sapateiro gosta de couro e o marceneiro aprecia a madeira, o sociólogo gosta mesmo é da Sociologia. E Boaventura de Sousa Santos, como exímio profissional das veredas sociológicas, propõe, para uma reinvenção dos valores do nosso coexistir, uma Sociologia das Ausências e uma Sociologia das Emergências – a primeira visa a diagnosticar o que há de errado nas formas do viver juntos; a segunda busca saídas, indicações de caminhada rumo a uma sociedade melhor, de gente efetivamente livre e igual.
 
A Sociologia das Ausências quer encontrar o não existente, aquilo que foi ocultado na dinâmica da vida social e da luta política e cultural. Tudo que foi censurado, invalidado e exilado precisa vir à tona para explicar o que foi feito dos silenciados, dos vencidos, dos cooptados e arrependidos. Hoje, na era do discurso de via única, parece que há verdades inquestionáveis, práticas e impressões categóricas. Essa monocultura, como muito bem a define Sousa Santos, estabelece o elitismo do saber científico e técnico como regra; o tempo como algo linear, inevitavelmente em ritmo de progresso e futuro; a naturalização das diferenças e desigualdades sociais; a universalização de padrões de vida e de perspectivas; os critérios de produtividade e eficiência por tabelas e planilhas eletrônicas ávidas por números. Trocando em miúdos: ou se pensa pelos cânones oficiais, ou não se pensa; ou se faz o que se pede de cima para baixo, ou mais prudente será não fazer; ou se culpa o pobre pela pobreza, ou se está equivocado na análise; ou se dissemina isso como valor absoluto, ou se corre o risco de alguém resistir, encarar o bom combate, fazer naufragar os desejos de domínio do atual “deus mercado”, o mais despótico e cruel dos entes divinizados pelo capital e pelo egoísmo dos fascistas - esses que se escondem atrás de discursos leves e negam conduzir ações bárbaras e medievais no trato com o ser humano. 

Parceiro do diagnóstico das ausências, que se movem no campo das experiências sociais, está o trabalho das emergências, que se articulam em torno das expectativas sociais. Nesse sentido, o conceito que dirige a Sociologia das Emergências é o “ainda-não”, costurado por Ernst Bloch (1885-1977), em sua exuberante obra “O princípio esperança”. O “ainda-não” existe como latência, como possibilidade; é o modo como o futuro se inscreve no presente. O “ainda-não”, do ponto de vista subjetivo, é a consciência emancipatória (uma vez que antecipatória) que permite planejar, sonhar, enfrentar o objetivo, o imponderado. Do ponto de vista objetivo, ele é capacidade (potência) e possibilidade (potencialidade). A possibilidade, por não ter todos os seus elementos reconhecidos, gera incertezas e produz certa escuridão. Como possibilidade, no entanto, o “ainda-não” se revela uma chance, tanto de utopia e salvação quanto de catástrofe e perdição.
 
Quais as chances reais de que o “ainda-não” se preste a opções mais generosas de futuro?
 
Os remédios para o mal do antivalor do egoísmo, do consumismo, da ansiedade e da falta de repertório cultural para uma vida decente e ética, como, de resto, para uma vida simplesmente melhor, passam pela criação de horizontes mais iluminados, mais inclusivos, menos competitivos. Num mundo orientado pela competição e pela pouca solidariedade, tornamo-nos pouco cooperativos, quase nada fraternos. É possível e desejável acreditar que numa realidade em que os valores gerais estimulem a cooperação e a verdadeira empatia, tornemo-nos, digamos, humanos de fato. Mais do que uma opção, o enfrentamento corajoso do mundo dos antivalores é a nossa única e última saída. É isso.

18 agosto 2012

Na ponte, a flor


Uma flor de amor existe
dentro e fora dos
jardins.

Nas ruas e nos
caminhos
vividos,
flores perfumam
os sonhos e adoçam
os dias.

Lembrei, então, que
vi na lua uma linda
flor, uma inesquecível
ponte.

Ao desenhar em minhas
ideias o sorriso
daquela flor
(sim, flores sorriem),
permiti que um
imenso jardim ilustrasse
meu dia, colorisse
minhas horas, reinventasse
meu tempo.

Uma flor na lua, uma ponte
linda, florida,
deslumbrante.

21 julho 2012

Sob a chuva

A atriz Marjorie Estiano, fotografada por Autumn Sonnichsen, 
em ensaio para a Revista Trip


Em meio aos mundos
d'água, dou passos
leves e evito
molhar os sonhos.

Andar sob a chuva é
um itinerário entre
o pensamento que quer
e a reflexão sobre o que se quis
um dia, todo dia,
pelos dias...

A boca seca é
o paradoxo das sensações
e a negação do alívio.

Engulo sem querer
tido tipo de profanação,
da recusa da mulher
mais bonita do mundo aos
desejos que insistem em
me castigar.

Andar sob a chuva
é não esquecer que
um amor novo explode
todo dia no meu peito -
um amor que só vê, sente e quer a Lua.

14 julho 2012

Uma lua na ponte


Nunca esquecerei aquele olhar. Já escrevi tanta coisa sobre ele, direta ou indiretamente. Ele me pegou em cheio numa manhã sem graça, uma segunda-feira das mais desestimulantes e menos promissoras.

A dona do olhar, do raio distráido que me tirou do meu mundo de pensamentos e vastas tentativas de conjecturas, é menina jovem, linda, perfeita. Os olhos, matéria-prima de toda aquela viva sedução, são só um detalhe que completa lábios, pele que faz suspirar, paixão que inspira devaneios, desejos inconfessáveis.

Para além do olhar, do rosto preenchido por delicados e especiais itens do divino, nada sei dela. Lembro apenas o comportamento sereno, o silêncio marcante, o andar que paralisava meu coração: as batidas dentro do peito cessavam, estupefatas por assistir a um anjo flutuar diante de mim, rabiscando versos em minha imaginação.

Hoje, longe dela, sem vê-la, sem poder admirá-la à paisana, escondido atrás da verdade que existe só em meu corpo, nos instantes delirantes da solidão máxima, sinto-a como uma lua, esse objeto diante do qual poetas contemplam palavras e expressões d'alma. A lua é o rosto dela que me visita todas as noites.

Caminhando, da janela do meu apartamento, dirigindo o carro, vivo em busca da lua perfeita. Não sei por que, mas o sorriso dela me promete surgir na luz do luar, na beleza que torna os ceús estrelados magia e pulsão por mais, muito mais vida e paixão.

A lua daquele olhar - da promessa do sorriso decisivo - é também uma passagem, por meio da qual encontro a mim mesmo, meus mistérios, minha incompletude. Ao desenhar seu rosto na lua, construo pontes, elos entre o que sou e o que insisto sonhar ser. Ela é minha lua sobre a ponte, a vontade que aproxima distâncias e ama diferenças. Lua. Na ponte.

11 julho 2012

Por que me mantenho à esquerda

Acredito muito na força das grandes ideias. Ao mesmo tempo, desconfio de dissabores repentinos, arrependimentos ao pôr-do-sol. Nesse sentido, sou adepto da autocrítica como emblema da coerência de propósitos.

O filósofo Emile Auguste Chartier (1868-1951) escreveu que, ao se defrontar com alguém que negasse a dicotomia “esquerda/direita”, observava bem a pessoa e logo percebia que ela nunca era de esquerda. É certo que motivos para a negação não devem faltar.

Estar ao lado daqueles a quem foi negado provar o gosto das frutas (os “de baixo”, como ensinou Florestan Fernandes) é tarefa árdua e ajuda a acumular derrotas. Muito mais fácil é olhar para o mundo e propor que tudo permaneça como é e está, dedilhando pequenas alterações, culpando o miserável pela miséria e o trabalhador pelas injustiças da vida. É simples e bastante dissimulado gritar por aí que tudo depende de cada um e que toda força coletiva é sempre autoritária e endemoninhada.

Há essências que o universo das aparências mercadológicas não contempla: o conhecimento, a afetividade que humaniza, a arte desinteressada, o amor incondicional... Nas cercanias do dinheiro, tudo isso é valor de troca, banalidades que impedem a acumulação de bens, posses e status distintivo.

Nasci, cresci e pretendo morrer à esquerda por julgar sinceramente que a vida pode ser muito mais, que os sonhos precisam se arriscar pela contramão. À esquerda, vejo-me em paz para lutar pela liberdade e questioná-la em suas adulteradas modalidades mercantis e exclusivistas. À esquerda, assisto ao ideal da igualdade como indiscutível, inegociável, e à força da soberania popular como protagonista da verdadeira felicidade.

À esquerda, sinto e sei que o coração bate em sua morada certa, acolhedora, com olhos e alma transparentes. À esquerda não há por que se vender – o que está por vir (o futuro que certamente podemos influenciar) não tem nem terá preço. Insisto ser assim porque levo no peito essa coragem de desdizer quem se acomoda no dado, tido, irrefletido. A teimosia que me move deu vida também a todos que nunca tiveram medo nem vergonha de erguer bandeiras reveladas como justas, ainda que negadas e combatidas duramente pelos injustos.

Caminhando pela esquerda, vejo a vida acenar com cores de paz e amorosa convivência para o amanhã que terá em si a memória de todas as lutas, todas as utopias de sangue e esperança.

Sem ódios nem apelos ao outro mundo (aquele que existe na cabeça e nos desejos de quem só vê neste aqui pecado, erro e discórdia como itens da natureza e da inevitabilidade), quero viver e forjar o tempo daqueles que virão, dar-lhes pistas, abraços, mapas para a festa. Mantenho-me à esquerda porque meu povo é a humanidade e minha pátria, o planeta inteiro.

02 julho 2012

O pecado azul


Ela ainda não tinha nenhuma tatuagem. O corpo, longe, muito longe da escultura que tantos conhecem, era todo imperfeito nos detalhes da sua feminina perfeição. Talvez por isso eu tenha me apaixonado tão rapidamente por aquelas imagens do passado, vivas, cheias de história e pulsão.

A desinibição - a desfaçatez impressionante que ela transmite até hoje por meio de um paradoxal firme olhar - revelou-se a marca de uma jovem mulher costurada pelo tempo. No filme antigo, fotogramas de uma intimidada libido, destatuada e fora de forma, a musa marginal vestia-se de azul, resvalando no kitsch. Tudo, tudo muito artificial e performático: gemidos, caras e bocas. O amadorismo saltitante, contudo, traiu meu ceticismo. Amei-a como nunca antes. Perdi sono e ganhei sonhos com a visão de uma mulher hiper-real, recheada das incongruentes e proibidas delícias do mundo.

O nome de guerra (uma ficção que certamente inspira intranquilidades e povoa delírios compulsivos) aguça a destemperança: no ponto alto de si mesma ou na estrada insólita do próprio alvorecer, ela é musa, deusa do meu absurdo.

28 junho 2012

Marighellianas


Livre iniciativa,
fluxos do grande capital,
ficção,
o dinheiro como centro do mundo,
o mundo como refém do dinheiro (de alguns).

Propriedade privada,
todo poder aos
mercados e bolsas,
aos epígonos e odes de
gestão, foco, clientes...

As tabelas e os
números, as
frequências e os dados.

Nada humano,
nenhum ser.

A orquestra toca uma
só canção: a da acumulação,
fácil e sem obstáculos,
pueril, uma estratégia de
gente infante, infame:
maldita ostentação.

Além do horizonte
(já se cantou tanto),
dentro do peito e no
sonho que não se cansa,
há vida, há muito mais.

Marighella corre em
nossa direção: não tenhamos
nunca tempo para
ter medo.
Nunca (Sempre ao nunca!).

18 junho 2012

As estrelas do mar


A insistência vem
da crença intensa
no ser que
está no mundo e faz
o chão que
pisa e
fortifica.

Os olhos limpos nascem
como a fruta que
se vê bela,
desejada e
deslumbrante,
o doce enigma da vida.

Entre lágrimas surge
a pergunta inquietante
e muitas vezes paralisante,
aquela que interpela
o mundo de ontem,
fracassado como lugar do humano.

Imagens são pré-conceitos,
ilusões que se disfarçam
na nossa pressa,
no pouco afinco de
rejeitar o profundo.

Minha luta é por
conceitos robustos que
ampliem e somem,
costurem convergências,
aceitem e desejem
mudar,
mudarem-se,
conjugar,
conjugarem-se.

A estrada é a das
estrelas, iluminada pela diversidade,
o mundo inteiro por que
passa a esperança e
o sorriso da vida
- as estrelas que guiam nosso olhar
pelo amanhã,
sinônimo do mar.

14 junho 2012

A estrada das estrelas


Sem que eu soubesse bem por que, lembrei-me do tal sentimento oceânico do qual escreveu Freud. O único indício do rememorar era um vazio colossal no peito. O cotidiano não fazia mais nenhum sentido, Os dias passavam em meio a dores insuportáveis: acordar, trabalhar, pagar contas, cronometrar o tempo - uma espera angustiante e sempre inútil ao se revelar por suas inclusivas tragédias de infelicidade e distopias.

Sair de casa, ir aos mesmos lugares, ouvir e dizer as mesmas coisas para, invariavelmente, as mesmas pessoas, tudo estava contribuindo para que o absurdo se alargasse em mim, aprofundando incertezas e reiterando que um basta precisava ser confeccionado.

Faltava-me o quê? A morte ou a coragem? Qual delas deixaria a iminência e se tornaria manifesta, um algo-pelo-ser eminente? O que eu era de fato, ingênuo, mal-agradecido ou simplesmente um tolo? O que ou quem eu havia me tornado?

Diariamente, de olhos bem abertos ou muito fechados, eu me entregava a contentamentos fúteis. Em minha solidão, tornava companheiras imagens sem cor, sem vida, desconhecidas. O prazer era um vulto no labirinto da memória, essa última empobrecida, judiada pelo tempo infiel. Eu me saciava de instantes, compulsivamente. E como toda compulsão (vício?), a vontade retornava, segundos depois, mais intensa, ainda mais cruel. 

Chorar tornara-se uma rotina. Toda vez que eu era obrigado a me encontrar, falar sobre mim para mim mesmo, as lágrimas compunham o enredo, ocupavam o cenário, protagonizavam o melancólico espetáculo da solidão.

Não havia mesmo com quem conversar. ideias, valores, quereres, nada estava em lugar algum. Eu percebi que minha utopia era encontrar um pouco da minha diferença na igualdade pela qual lutava, em nome de todos, para todos. Não fossem os livros, o vazio teria se transformado numa entidade carnívora, num ceifador da fé: carne e espírito se renderiam ao improvável, àquilo que, por ser previsto e ao mesmo tempo temido, alguns chamam de fim.

Fora de mim, tudo mudava a toda hora. Ânimos e certezas pediram trégua: estavam cansados do trailer da barbárie. A estupidez, que tem o dinheiro como todas as pontas de sua rosa-dos-ventos, aniquilava sonhos, despedaçava futuros. Passivo e completamente alijado das andanças do mundo que me rodeava, vi o filme completo da barbárie, a qual, cínica, acenava sorridente para os novos inimigos. Gritar ou morrer, eis minha questão. De um dilema de Hamlet, vi-me, enfim, na promessa de Guevara. 

A escolha tem de ser feita.

É provável que os pretéritos ditem alguns passos do amanhã. Não sairei ileso disso tudo. Haverá marcas, existirão aqueles passados todos de que falava Marx. O cérebro vivo, para não se tornar uma vítima fácil dos pesadelos de ontem, necessitará revolucionar o agora, para si e em si.

O medo de minha própria história, eu não poderei tê-lo. Ou confio no que tenho sido, ou declaro de uma vez por todas nunca ter sido. A estrada das estrelas existe, apesar de o seu mapa nunca ter sido visto. Talvez seja hora de ir à cata do mundo - de um lugar que possa fazer brilharem as estrelas da vida. A estrada estará logo abaixo da luz. 

09 junho 2012

Adeus (O último microconto)


Foram dois abraços antes da despedida certeira. Em cada um dos abraços pude sentir-lhe o cheiro de vida e paixão; pude sonhar (apenas sonhar) com o doce propósito de um amor que, mesmo sendo pura fantasia, fará parte de mim para sempre. Quando partiu, fiquei a reparar em seu andar, no movimento sedutor e provocante das pernas, dos detalhes daquilo que nem ouso descrever. Tudo nela me desperta inquietudes, no mínimo, desconcertantes. Adeus, morena linda. Levo você entre as coisas que não foram, mas ainda assim fazem de mim o que sou e o que virei a ser.

03 junho 2012

Vontades...



I

Só hoje reparei como ela é bela. Em minha distração cotidiana, deixo que as mais lindas experiências se percam atrás de sombras e pequenos, inúteis desafios. O sorriso, a possível timidez, as curvas da estrada de Santos... Ah, Marco, aprenda a olhar melhor à sua volta: o melhor do mundo pode estar a um sorriso de distância.

II

Vivo desejando muito pouco. Não quero casos nem descasos. Espero um pouco de alegria, um amor meio descontínuo, uma fuga da realidade - um lugar onde eu possa encontrar o sabor da utopia. E eu vi isso naquela morena, a mulher mais bonita do mundo, versão 2.0. Há nela a marquinha que me faz transbordar do equilíbrio, virar meu coração ao avesso. A marquinha, sol e luar, me faz contornar imaginariamente cada pedaço daquele céu. Sim, a morena é puro paraíso em forma de amor impossível.

III

O caminho do mar, quando vejo a morena mais bonita do mundo passar, fica mais próximo dos sonhos e dos meus pés.

IV

A morena mais bonita do mundo andou em meus sonhos esta madrugada. Trouxe um álbum do Pearl Jam. Fizemos amor ao som de "Come Back". Quando acordei, estávamos na praia, brincando na areia, sorrindo para a vida.

V

Havia um instante poético naquele olhar matreiro. Ela olhava para mim e, quando eu retribuía a vista, o sorriso eufórico desconversava. O jeito de menina sapeca comandava meu desejo. Peguei-lhe a mão, atravessamos a rua e cantamos "Alive", do Pearl Jam. Sem sabermos, a vida nos imortalizou: dali em diante estaríamos sempre juntos, eu e a morena mais bonita do mundo.

26 maio 2012

MICROCONTOS II



Beijo celestial

Ontem mesmo, à noite, quando me deitei, apesar da gripe terrível, fixei meus pensamentos num interminável beijo entre nós dois. Acordei com a sensação de que eu havia viajado até o céu, conhecido os anjos e, enfim, retornado melhor para a vida. Um beijo dela seria muito mais do que palavras.

Luar

Ela tem um nome encantador, embora eu esteja proibido por mim mesmo até de pensar nele. O nome dela, inviolável, é amante da Lua, o símbolo dos poetas, a chaga dos amantes. Nunca disse a ninguém que penso nela, que soletro diariamente seu nome, evitando assim ser flagrado com toda sua graça na cabeça. Já fantasiei mil coisas entre nós. Já esbocei sua sombra em poesias e a tornei protagonista de muitas viagens. Nossa, ela nem desconfia. Não faz a menor ideia que durmo e acordo com seu rosto e o segredo daquele corpo, declamado no peito de instante em instante, em minha alucinada imaginação. Tenho vivido de luares proibidos.

Desconfiança

Eu compus uma canção bem simples, com letra de sonhos. Próximo ao refrão coloquei um convite: pedi a ela que não duvidasse do meu desejo. Nas poucas ocasiões em que estive perto dela, até os versos - habituais em meu pensamento - se ausentaram. Eu tremia o tempo todo, imaginando nossos corpos juntos, frenéticos, completamente enlouquecidos. Era olhar para ela e imediatamente imaginar o Olimpo do Amor. Agora que fiz essa canção, essa simples melodia de meus calafrios, ando desconfiando que um beijo bem inocente já seria muito bom.

23 maio 2012

A sociedade de consumidores e a questão ecológica


No próximo dia 25/05, irei participar do encontro "Rio+20: desafios na construção de sociedades sustentáveis", uma iniciativa do GEAMA (Grupo de Estudos Avançados sobre o Meio Ambiente), da UEL. O evento será no Auditório Alcides Bueno da UNOPAR, Campus Piza, instituição na qual atuo profissionalmente. Abaixo, antecipo o texto que irá balizar minha intervenção - uma fala, aliás, que, muito provavelmente, irá destoar das demais. Normal, não?

Já é bem conhecida a metáfora dos líquidos criada e desenvolvida pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Na contramão dos tempos sólidos do capitalismo industrial em expansão e das políticas públicas do Estado de Bem-Estar Social (fenômenos que podem ser identificados com maior precisão nos períodos imediatamente seguintes aos duros e trágicos anos da guerra total, pós-1945), os “líquidos” vivem para se dissolver, para tomar formas imprevistas, fazer coisas jamais anunciadas, percorrer os caminhos do improviso.

Nesses termos, na moderna e líquida sociedade de consumidores vorazes e insaciáveis, é que a questão ecológica ganha novos contornos, apontando para problemas antigos e insistências renovadas. Se não é de hoje que a tal sustentabilidade dá mostras de cansaço, é extremamente atual o fato de ela ocupar um lugar destacado em nossas reflexões sobre o futuro do planeta e da humanidade.

Os “líquidos” são sujeitos que abandonaram o consumo como ocupação e o transformaram em atributo. Mais do que isso: ao transformarem tudo em mercadoria, colocando o mercado no centro da vida social, passaram a ser, a um só tempo, seres que compram e se vendem, que se posicionam no mundo exigindo aparição, ostentação, ilusão das formas. Não é novidade nenhuma afirmar que na sociedade contemporânea o reino da estética venceu a república da ética. O que é, nesse sentido, perdeu de goleada para o que parece ser.

Num mundo hipercompetitivo e realocado permanentemente ao sabor dos grandes negócios e das suntuosas transações econômicas, o meio ambiente aparece também como mercadoria, como algo a ser exposto nos supermercados da vida. É sintomático que a nova realidade dos hoje preocupados com a degradação ambiental seja intuitivamente denominada “economia verde”.

Coincidem com os novos tempos da economia ecológica a transnacionalização do capital e os investimentos agressivos do agronegócio nos países do Sul. Há poucos anos, um economista estadunidense, Lawrence Summers, afirmou ser absolutamente natural que, do ponto de vista de uma economia global racional, fossem enviadas para o terceiro mundo as produções mais tóxicas e poluentes e também as regulações de trabalho mais radicais; afinal de contas, escreveu ele, num informe interno do Banco Mundial, a vida humana naquelas paradas vele bem menos...

As cotas e a monetização para emissão do CO2, o “rascunho zero” da Rio+20 (que cunhou a expressão “economia verde” sem defini-la com precisão), as multas contra atividades predatórias ao meio ambiente, tudo isso não toca no âmago da questão: é preciso que transformemos por completo o modo de produzir e consumir que tem dado à nossa civilização (chamemo-la, imprecisamente, assim) um tom de catástrofe no tocante à sobrevivência da vida humana. Vale ressaltar que o planeta não está em risco: ele sobreviverá, como bola de fogo ou de gelo; quem não sobreviverá seremos nós.

Líquidos e inconstantes, reiteramos uma sociedade eminentemente quantitativa, que valoriza índices e estatísticas; endossa volumes e se regozija de tabelas, gráficos, tendências crescentes. A transição para uma realidade realmente qualitativa deve subordinar a economia ao meio ambiente e condenar ao esquecimento dois protagonistas deste nosso tempo: o produtivismo mercantil e o tipo humano burguês. 

O primeiro dos personagens incita à produção ilimitada, trabalha de modo objetivo a lógica “produzir, ganhar, comprar, descartar”, uma cadeia, frise-se, cíclica. O segundo personagem, muito mais do que o membro de uma classe social, é uma mentalidade, um tipo de pensar/agir que resume a vida às coisas, às posses, à competição de tudo contra todos e de todos contra tudo, vislumbrando uma “carreira de sucesso” e a certeza de que cada um deve cuidar exclusivamente de seus próprios problemas, “vencendo na vida”. Ao destacar o individualismo solipsista, o tipo humano burguês abre mão de suas responsabilidades cidadãs, de seu inexorável vínculo com todas as vidas e o destino do mundo. Numa palavra: transforma-se numa ilha de solidão e num monstro de potencialidades criminosas e cruéis.

Uma alternativa social efetiva à “economia verde”, a qual não rompe com o modelo destrutivo de produção e consumo incessante de mercadorias e serviços, pessoas e ideias, factoides e farsas, passa necessariamente por uma reorientação dos usos e das concepções da tecnologia, pela busca por fontes  renováveis e limpas de energia, pela democratização dos meios de comunicação e os acessos a eles, pelo combate à ostentação, ao desperdício, ao acumulativismo e à alienação.

Nessa imprescindível transição, algumas perguntas devem acompanhar nossos passos: como e para quem “distribuir”? Como articular a questão ambiental à redução da jornada de trabalho (sem prejuízos salariais, é óbvio), ao uso inteligente dos transportes coletivos, à universalização da saúde pública e ao deslindamento das nocivas consequências de um mundo em que o mercado de trocas é o centro da vida?

O sociólogo brasileiro Michael Löwy, inspirado pela leitura do “Princípio Esperança”, de Ernst Bloch, proclama um conjunto renovado de seis éticas para uma nova civilização, desmercantilizada, estruturada nas relações humanas e pautada nos interesses de todos os povos. Juntam-se numa unidade dialética a ética social (novas estruturas e novas formas de produzir e consumir), a igualitária (padrões de existência que equilibrem interesses humanos e necessidade de desenvolvimento com responsabilidade e integridade ecológica), a democrática (ampliação dos canais de comunicação e valorização de todas as vozes), a radical (proposição de uma educação para a vida que negue as aparências e vá às profundidades dos fenômenos), a responsável (articulação entre o presente e o futuro) e a esperança (a utopia que precisa renascer no guiar dos passos humanos).

Diante de relações sociais cada vez mais velozes e fugazes, incrementadas pelo imediatismo e pelos doces sabores instantaneístas dos objetos de consumo, não é nem será fácil propor condutas éticas que perscrutem longos prazos, esperas angustiantes, lutas contínuas. Ao mesmo tempo, quando a questão ambiental passa ao largo dos interesses do grande capital e dos governos do mundo central, a ecologia não apenas deixa de ser prioridade, como muitas vezes  - no limite - passa a ser uma rentável moeda de troca. É contra a desmotivação cidadã e a inculpabilidade das grandes estruturas de mercado e da política globalizada e hegemonicamente conservadora que devem se voltar todos os que ainda creem no futuro, são defensores da maré alta, isto é, da esperança. É isso.

20 maio 2012

MICROCONTOS



LÁBIOS
Havia um beijo lá, um sinal, que eu nunca mais vi nem senti. Ainda procuro aqueles lábios da morena jambo, a mais bonita mulher do mundo.

AQUELE INSTANTE
Eu não estava lá nem a via fazia muito, muito tempo. Não faço ideia das circunstâncias nas quais aquela foto foi tirada. Sei, entretanto, que as curvas - o desenho do mundo que desatinou meus pensamentos e desejos - estão todas lá, devidamente retratadas. Eu queria apenas poder tocar levemente aquele instante.

SILÊNCIO
Ela nunca disse uma palavra concreta. Olhares cheios de duplas, triplas interrogações. Intenções, nada. Às vezes sentia que devia insistir. Outras tantas vezes (a maioria delas) sentia medo. A simples ideia de um não me mutilava lenta e cruelmente. Ela nunca se insinuou, nunca disse uma besteirinha que fosse... Fiquei no meu canto - e ela, no dela. Nosso amor, um amor do nunca, permanece em silêncio.