19 janeiro 2012

Um jardim que era meu

 
 João Gabriel, uma alma de pescador na praia de Barra Velha/SC. Nos mares da vida, o pequeno vai aprendendo a viver.

Depois que me "carioquei", de modo tardio, vale ressaltar, nunca mais consegui imaginar praias mais belas que as do Rio de Janeiro. Do Leme ao Pontal, passando pelas orlas agitadas e espreitando também as águas calmas do oeste da cidade, está todo o mar de que necessito. Outras praias, somente a título de curiosidade ou por motivos de força bem maior. 

Neste verão de 2012, férias escolares do meu pequeno João Gabriel e minhas férias profissionais integradas e cumpliciadas, resolvi, enfim, visitar os mares de Santa Catarina, conhecer a casa de praia do Professor Leonardo Prota e da Professora Lesi Corrêa, padrinhos do João. Após alguns anos de insistência da parte deles e prorrogadas promessas minhas, botei a família no carro, acalantei a fé e enfiei o pé na estrada. Destino: Piçarras. Percursos complementares: Florianópolis e outros mares catarinenses.

O passeio foi de domingo a domingo. Chegamos num final de tarde, no dia 08.01.12 e regressamos na segunda-feira 16.01.12. A viagem de carro é um dado à parte, um excelente capítulo extra no meio do livro. Os grandes viajantes sempre vaticinaram que tudo começa no planejamento: na arrumação das malas, nas compras específicas antes da partida, nas anotações no velho caderninho etnográfico. Pesquisar mapas, fazer roteiros, imaginar situações, partilhar alegrias... A viagem é um desenho imaginário que, aos poucos, ganha passos, contornos reais, experiência de vida. No retorno ao cotidiano, a memória se encarrega de filtrar as férias, destacar os momentos, dedicar ao tempo eterno o que ficará como lembrança, como algo "para sempre" daqueles instantes.

Em Piçarras, por conta das fortes chuvas de uns dois anos atrás, a encosta está bastante agredida. Os muros de contenção da orla marítima, o calçadão das praias, tudo está em lenta reconstrução. As águas, contudo, são quentes, aprazíveis para relaxantes mergulhos e banhos. O movimento, em um janeiro de tantas chuvas, era tranquilo, sem qualquer tumulto ou indispor. O Balneário de Penha, cidade colada a Piçarras (onde fica o famoso Beto Carreiro World), possui várias pequenas praiinhas (acredite: o diminutivo de "praia" é mesmo com dois "is"), sendo que a breve visita que fizemos à de São Miguel foi muito oportuna, uma vez que nos deu a visão de uma mar retirado, quase particular, com ares de cultura de pesca, recanto de almas em busca de paz e sossego.

No sentido contrário às praias de Penha, saindo pelo retorno ao Paraná, está a cidade vizinha de Barra Velha, que mantém uma bela estátua de Iemanjá no espaço das pedras praianas. Depositei aos pés da Rainha do Mar alguns pedidos típicos àqueles que desejamos aos orixás (amores, mundos e fundos). Minha devoção a Iemanjá tem um quê de magia e paixão: além de colecionador de mares (minha vida, como escreveu Drummond, está escrita num mar), Iemanjá tem no catolicismo correspondência com Nossa Senhora da Glória, padroeira do Fluminense, o meu eterno e tricolor amor. De mares e de campos, sempre dou muitos vivas a Iemanjá.

Sob os olhos de Iemanjá: proteção revalidada

Visitei também o município de Nova Trento, onde está localizado o santuário de Santa Paulina, primeira santidade brasileira reconhecida pelo Vaticano. Debaixo de muita chuva percorremos a serra de Santa Catarina, deslocando-nos do mar às montanhas, bebendo café colonial, suco de uva, consumindo ar puro e inebriando o espírito com o cheiro de terra molhada. O santuário é um lugar de paz, que inspira, mexe mesmo com os seus visitadores. No meio do caminho, Brusque e muitas placas para entradas para diversas cidades, acirraram curiosidades e muito bate-papo no interior do veículo. 

A capital do estado, Florianópolis, mereceu um dia todo de atenção. É bela a chamada ilha de Floripa. Avistei do mirante a cidade (de onde a perspectiva é sempre a mais avançada e abrangente, segundo o sociólogo Michael Löwy), caminhei "sobre as águas" da Lagoa da Conceição e perdi-me nas gélidas ondas da Praia da Joaquina. No almoço, a famosa sequência de camarões, acompanhada por uma cerveja estupidamente gelada: por vários minutos, senti-me no jardim das delícias, num mundo que fosse inteiramente meu, no melhor que possa haver na vida e no universo. Num outro dia, visitei outras praias que agora fazem parte da minha coleção particular: Balneário Camboriú, Navegantes e as flores da bela Itajaí, sedutora cidade portuária dos catarinenses. 

João e eu, andando sobre as águas da Lagoa da Conceição, em Florianópolis.

Numa viagem, contudo, o melhor são sempre as pessoas. As lições de sabedora e filosofia do Dr. Leonardo Prota, a hospitalidade generosa da Professora Lesi Corrêa, as tiradas inteligentes do Professor Nardir, a sopa noturna de Sueli e as piadas inenarráveis do garoto Paulinho, moradores, como nós, do verão na casa dos Prota. O passeio em família, o João pulando ondas, catando conchinhas, chupando sorvete, correndo pelas areias da praia... Férias que não sejam no Rio somente em casos extraordinários - e essa semana de descanso em Santa Catarina foi algo efetivamente dos mais extraordinários!

O curioso, logo na primeira noite em Piçarras, foi o sonho que tive. Nunca me lembro dos meus sonhos, mas daquele recordei tudinho, brinquei com ele durante o café-da-manhã (protagonizado por um queijo serrano inesquecível), ri à vontade com meus delírios revolucionários que se reproduzem até durante o sono alimentado pelo terno barulhinho do mar. No tal sonho eu estava preso com Robespierre, em plena Revolução Francesa. Eu era um jacobino dos mais idealistas. Recebi de Robespierre um pedido que me deixou atônito: eu deveria manter a chama acesa. 

Agora, com mais calma, dias depois da bela viagem, descobri o inevitável: a honrosa companhia dos jacobinos, ainda que em sonho, existiu para me lembrar dos meus jardins, todos eles de flores que insistem em perfumar as caminhadas da vida. O ano absorverá as lições dessas flores e desse sonho.