02 fevereiro 2012

Cultura Brasileira: uma memória acadêmica

"Abaporu" (homem-que-come-gente), de Tarsila do Amaral, de 1928, um dos mais enigmáticos e sensíveis olhares sobre a diversidade da cultura brasileira.

Faz algum tempo que estou inventariando minhas atividades acadêmicas. Quinze anos depois de concluir a graduação em Ciências Sociais, uma experiência definitiva em muitos sentidos, para o bem e para o mal, sei que o caminho percorrido é extenso, e sei também que o trecho a perfazer será ainda maior, mais complexo, extenuante e, oxalá, recompensador. O fato, no entanto, é que há coisas importantes a resgatar, analisar a partir do bom distanciamento no tempo e no espaço. Descolado sete anos das aulas de “Cultura Brasileira”, que ministrei entre 2002 e 2005, para cinco diferentes turmas de Jornalismo e Publicidade & Propaganda (este último curso, reunido às turmas de Jornalismo, nas duas ofertas finais da matéria, em 2004 e 2005), percebi que era momento de registrar algumas memórias do trabalho realizado, o qual, em sua quase totalidade, me proporcionou alegrias e prazeres muito generosos e iluminantes.

Coube a mim, como primeiro professor a ministrar a disciplina, criar o programa, definir os conteúdos e elaborar o conjunto de referências bibliográficas para a aquisição de livros e periódicos pela Biblioteca da faculdade em que eu trabalhava à época. Havia somente a ementa, que versava algo sobre mitos e ritos da cultura nacional, folclore e manifestações populares, cultura de elite e cultura de massa etc. Ou seja, tudo muito trivial e esperado, no que diz respeito a uma proposta de nome “Cultura Brasileira” para cursos alheios ao mundo espiritual da Filosofia e das Ciências Sociais clássicas. Não apenas era de esperar como também era de supor que, quem fosse que assumisse a disciplina – na sequência daqueles meses de planejamento em que todos aguardam rubricas do Ministério da Educação e os números favoráveis dos concursos vestibulares -, daria a ela um tom de absoluta normalidade, destacando os diferentes conceitos de cultura, as manifestações populares, as festas tradicionais, a estrondosa musicalidade, os elementos de religiosidade, as práticas esportivas e turísticas etc. Eu, como bom benjaminiano, uma vez posto na condição de responsável pela “Cultura Brasileira”, resolvi andar na contramão do óbvio: inventei um conteúdo completamente inesperado, que se mostrou um bom sucesso, do qual muito me orgulho até hoje. De longe, de tudo que já fiz como professor, no que tange às práticas de ensino em sala de aula, essa foi a experiência mais formidável da minha vida.

No lugar de estudos descritivos da diversidade cultural brasileira, optei por elaborar um programa de “interpretações do Brasil”, reportando-me a autores que, de muitos modos, contribuíram para uma explicação do nosso país em múltiplos contextos, a saber: do econômico e social (como nação inserida numa ampla esfera de relações internacionais do trabalho e do capital) ao cultural, político e cidadão, dando ênfase a personagens silenciados pela história oficial e a estudiosos do país que raramente se veem noutras disciplinas do ensino superior fora das Ciências Sociais e da Filosofia.

Antes da tríade pioneira de consagrados intérpretes da realidade nacional – Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e caio Prado Jr. -, decidi esboçar algumas reflexões sobre Paulo Prado, com sua obra “Retrato do Brasil”, e Mário de Andrade, com “Macunaíma”, contrapostos por excelência. Na leitura de Paulo Prado, o Brasil era um país triste, fruto de uma miscigenação obtusa entre índios pervertidos, negros tristes e brancos aventureiros. O resultado, por assim dizer, não poderia mesmo ser outro. Por meio do preguiçoso e insolente Macunaíma, sem caráter nem vergonha, Mário de Andrade responde com humor a Prado. A miscigenação não é um mal ou uma herança trágica; trata-se, antes de tudo, de uma peculiaridade que nos faz únicos, cheios de possibilidades, a depender de como, culturalmente, saberemos fazer uso de nossa identidade rica e diversa. Ainda pelo prisma conservador, toquei de leve em Oliveira Vianna e sua obsessão pelo centralismo de grande fôlego contra as “insubmissas” e improváveis ordens federativas.

Ao lado da Semana de 1922, que tratei como evento simultâneo à fundação do PCB (Partido Comunista do Brasil) e da obra máxima de Lima Barreto, “Triste fim de Policarpo Quaresma”, destaquei as vidas de Astrojildo Pereira e Octávio Brandão, duas personalidades comunistas imprescindíveis para entender as dinâmicas do Brasil na década de 20’. Em algumas turmas, duas, eu acho, houve seminários sobre “São Bernardo”, de Graciliano Ramos, um retrato miniaturizado das relações sociais brasileiras. Sem exagero, é possível apresentar a Fazenda São Bernardo e todos os seus personagens como a mais interessante projeção literária de nossa realidade política, econômica e cultural. Uma obra substantiva e obrigatória para sempre!

Depois de todo esse preâmbulo, que consumia quase dois meses de trabalho (a disciplina possuía um único encontro semanal de cento e cinquenta minutos, com intervalo de vinte minutos após a segunda terça parte), eu, enfim, discutia as interpretações clássicas do Brasil como nação, como cultura com lugar próprio no mundo. Em Gilberto Freyre, além da temática da “democracia racial”, falsa a todo o custo, frise-se, eu apreciava trabalhar as relações humanas entre a casa grande e a senzala, entre os sobrados e os mucambos. Não obstante atravessadas por fortes e quase insuperáveis atividades de poder e dominação, Freyre enxergava nessas relações a dialética de nosso bom desenvolvimento como cultura livre, sem amarras nem, digamos – correndo o risco de descontextualização -, “luta de classes”. Para o autor dos engenhos pernambucanos, a leitura mais correta do Brasil era a de uma nação sem empecilhos para a paz e a união entre as diferentes etnias, sem conflitos nem rancores. Apesar de clara conotação conservadora, com reminiscências positivistas e até darwinistas, a obra de Freyre é inaugural da Sociologia Brasileira e necessita ser encarada com afinco, respeito e muita admiração, uma vez que, de um modo ou de outro, ajudou a inspirar mentalidades antirracistas no curso do século XX.

De 1936, três anos depois da publicação de “Casa Grande & Senzala”, de Freyre, “Raízes do Brasil”, do historiador Sérgio Buarque de Holanda, ainda é uma das mais importantes e atuais referências para entender o Brasil. Nas aulas, eu insistia no mal-entendido que é a democracia brasileira, contaminada até os cabelos pelo elitismo de nossos dirigentes fazendeiros; redobrava a atenção para a questão de nossa cordialidade, desafeita a regras e normas universais, meritocráticas; não descansava na defesa da postulação segundo a qual pesa demais no mundo urbano a nossa herança rural, marcada pelo arbítrio, pela violência e pelo ataque incessante contra os mais pobres. Sérgio Buarque, no mínimo, oferece pistas intrigantes para uma reflexão cuidadosa sobre nosso “atraso” cultural como nação moderna (que se quer moderna, talvez). No último capítulo, por exemplo, disserta sobre como nos faz falta uma organização social capaz de organizar o país de baixo para cima, fugindo à velha “via prussiana” (expressão leniniana) de mudar tudo da cúpula para a base, autoritariamente. Entre os alunos, sempre pude verificar, Sérgio Buarque se enraizava muitíssimo bem, tornando-se, é provável, o autor mais popular da disciplina. Eu adorava isso.

Caio Prado Jr. chega, em 1942, para revolucionar os olhares sobre a formação cultural do país. Com “Formação do Brasil Contemporâneo”, uma obra magistral sobre o período colonial em terras tupiniquins, Caio Prado Jr. reflete sobre a apatia do brasileiro e a completa ausência de uma vida sociocultural durante a hegemonia portuguesa entre nós. Além de ser a primeira leitura efetivamente marxista do Brasil, a obra de Caio Prado Jr. intensifica o debate sobre o papel periférico que o país sempre ocupou nas relações internacionais. Como agroexportador (açúcar, café, borracha), o Brasil serviu de base para o desenvolvimento industrial dos centros capitalistas na Europa e na América do Norte. Nesses termos, afirma que o país sempre esteve à volta com os dilemas do capitalismo de ponta, negando um passado feudal. Nesse ponto, divergiu da análise de outro autor definitivo da cultura brasileira, Nelson Werneck Sodré, que imputava ao nosso país uma agonizante transição pelo Antigo Regime, descolada do capitalismo central e das supostas benesses da modernidade. Polemizar em sala de aula se o Brasil um dia foi ou não feudal, se foi ou não desde sempre uma nação no jogo dos interesses capitalistas, ocupando um papel periférico e absolutamente coadjuvante, colocava em lados opostos dois gênios da inteligência brasileira, dividia opiniões entre o alunado, enriquecia o desejo de melhor compreender o Brasil. Particularmente, amava esse momento da disciplina.

De modo análogo, a disciplina seguia com Florestan Fernandes e sua “A revolução burguesa no Brasil”. O intuito maior era discutir as particularidades de nossa inserção no mundo burguês, urbano e industrial, pelo prisma político. Desinteressada de rupturas, nossa histórica política é de conciliações, amálgamas, sujeição do novo ao velho, como tão bem abordava mestre Florestan. Essa rica matéria-prima para o debate favorecia analogias interessantes com a política de nosso tempo e com as dificuldades que o país tem de avançar, fazer reformas profundas, alterar seu cenário político e amadurecer culturalmente nos trâmites dos ideais modernos (liberdade, igualdade e fraternidade). Ao ter de reservar espaço para o que foi, o que é nunca deixa de ser, inviabilizado o tempo futuro. Até hoje leio assim, com essa premissa em mente, a obra do genial Florestan Fernandes, patrono da Sociologia Brasileira.

Em algumas edições da disciplina de “Cultura Brasileira” arrisquei trabalhar Carlos Drummond de Andrade e Otto Maria Carpeaux, além de Antonio Candido. Deste último, lembro como era rica a abordagem de “Os parceiros do Rio Bonito”, obra que fala um pouco da formação e da pulsante vida caipira no interior paulista, no tocante à simplicidade de nossas formas, ao brilhantismo de nossos conteúdos, todos dinamizados pelo crivo da criatividade e da invenção cultural em nome da sobrevivência. Ao ter de sobreviver sob o risco permanente da extinção física, dada a miserabilidade e dado o abandono por parte das classes dominantes econômica e politicamente, o brasileiro se fez de modo ousado e original, promovendo o despertar de uma cultura que não possui nada paralelo no mundo contemporâneo. 

A disciplina se encerrava com “O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil”, do antropólogo Darcy Ribeiro, livro publicado em 1995. Ao dividir o país em cinco macrorregiões, todas elas frutos do intercambiar de nossas três matizes originárias, o índio, o negro e o branco, em diferentes doses de combinação, Darcy Ribeiro ressaltava a unidade na diversidade. Crioulos, caboclos, caipiras, sertanejos e gaúchos, não obstante o oceano de diferenças culturais que regem seus encontros e desencontros, colaboram de igual modo na edificação de um país unificado e irmanado numa visão de grande civilização da era do amanhã. Para Darcy Ribeiro, depois dos gregos e dos romanos, nunca houve tanta riqueza cultural como a que existe no Brasil da colônia ao império, das diferentes fases da república ao tempo presente, uma incógnita em construção sem descanso. Darcy não se esqueceu de definir nossa trágica herança de violência contra os mais pobres e de rechaçar a democracia entre as muitas etnias que nos compõem. É da certeza dessas marcas que nascerá uma grande nação – jamais de sua negação ou tentativa de falseamento.

Os alunos aproveitavam o clima final trazido pelo texto de Darcy Ribeiro e construíam seminários em que se podiam degustar, ao final das apresentações de cada um dos cinco brasis, pratos típicos de cada região do país. Todo final de semestre, broas, tapiocas, doces em compota e muitas outras delícias de nossas culinárias regionais invadiam corredores e despertavam a curiosidade alheia. Era difícil – e ainda é –, para muitos “acadêmicos”, entender o conhecimento como algo a celebrar, partilhar com alegria e fome de viver. Mas esse é o lado deveras insignificante dessa experiência que carrego em meu coração como uma das mais belas de minha vida docente.

Sei que a matéria continuou a ser oferecida por alguns semestres depois que a deixei, ao final do primeiro semestre de 2005. Menos de dois anos mais tarde, foi extinta; provavelmente, por não ser “útil” nem “prática” para o mercado dos pragmatismos e das obsolescências. Bom, o fato mesmo é que a última turma com a qual trabalhei “Cultura Brasileira” foi das menos entusiasmadas e gratificantes que tive até hoje, o inverso das três primeiras. Acredito que eu tenha exaurido minhas energias, me decepcionado um pouco além da conta. De qualquer modo, a disciplina passou a ser tratada, até o decreto de sua pena de morte, como rezava sua ementa, ou seja, como um estudo empírico da diversidade cultural brasileira. Não sei se ficou bom ou não. Só sei que aquela que eu construí para mim e para muitos ex-alunos, hoje grandes profissionais que me encontram nas ruas do mundo, é inesquecível. É isso.