14 fevereiro 2012

Expressar para ser


Um dos grafites temáticos, na cidade de São Paulo, da dupla "osgemeos", sobre a Liberdade de Expressão.

Quando ministro a temática da evolução histórica dos direitos humanos - um tópico privilegiado nas discussões sobre o rico conceito de cidadania, suas práticas, obstáculos e conquistas coletivas no tempo -, quase todos os alunos concordam que, nos direitos civis inaugurais, datados do século XVIII, a liberdade de expressão é a protagonista.

Para ser cidadão, a condição de expressar-se livremente é básica. O direito de ir e vir, por exemplo, só faz sentido se for muitíssimo bem acompanhado da expressão do desejo ou do porquê de ir, ficar, não ir, mudar-se etc. A fala, o gesto, a palavra escrita, a exposição por imagens ou poemas, enfim, a expressão de ideias e vontades inaugura de fato o ser humano moderno, portador de direitos e deveres, um ser que costura sua identidade no contato com outras subjetividades e símbolos culturais. Trata-se, nesse sentido, de uma identidade sempre em movimento, que realiza encontros, que se faz e se desfaz no tempo, na História. 

Leandro Konder, num pequeno artigo intitulado "As ciências e o cientificismo", integrante do livro O marxismo na batalha das ideias (reeditado pela Expressão Popular em 2009), vai ao ponto central dessa relação entre o indivíduo e o mundo: "Os homens são seres criativos, desconcertantes, estão sempre modificando a situação existente; por isso, quando os observamos e procuramos compreendê-los, é mais fácil perceber que a realidade é, em si mesma, dinâmica e contraditória, inesgotável em sua riqueza empírica." (p. 85)

Numa realidade marcada por informações mutantes e encontros virtuais, alimentada por valores educacionais em completo desprestígio e pelo enaltecimento do dinheiro e do sucesso pessoal a qualquer custo, a questão da livre expressão - e, por extensão, da criação humana a que se refere Konder - encontra inimigos poderosos: escolas ruins, veículos de comunicação enviesados por interesses privados, exílio do hábito de ler, propagação do besteirol veloz do mundo em rede...

Diante de tudo isso, expressar o quê? Se o expressar-se tornou-se tão repetitivo, tão programado para ser igual, onde e de que maneira construir identidades? Em relação a quem verificar a autenticidade das elaborações subjetivas?

Quando todos frequentam os mesmos ambientes e partilham as mesmas ideias e concepções de vida; quando todos sabem e não sabem as mesmas coisas; quando todos se comportam de modo semelhante e se banham acriticamente nas mesmas fontes, todos são ninguém.

O século XVIII está aberto e as liberdades individuais conclamam a revitalização. para que nossa expressão seja algo de fato e substância, é inevitável que nos esforcemos por ter o que valha muitas penas expressar.