13 fevereiro 2012

A imagem


A personalidade de Luiz Carlos Prestes é controversa e captura críticas positivas e negativas. O papel que o líder comunista desempenhou na História da esquerda brasileira é visto por muitos prismas e percorre caminhos sinuosos. Da Coluna Prestes ao apoio à candidatura Vargas em 1950, passando pela Intentona de 1935 e pelos muitos anos em que esteve encarcerado e incomunicável durante o Estado Novo, Prestes é personagem central de rupturas e continuidades na vida política nacional. É nesses e em muitos outros episódios públicos que deve figurar o seu pensamento e a sua vida. Aprisionar um dos criadores do velho PCB ao tempo midiático das imagens fáceis e banalizadoras é um equívoco que serve apenas ao ideal conservador de desconstruir ideias, legados e efervescências culturais críticas e rebeldes. Celebrizar ícones históricos e transformá-los em mercadorias dóceis e rentáveis são práticas de completo desserviço ao  dinâmico e difícil hiato, de responsabilidade de todos, situado entre o passado e o futuro.

Li dias atrás um artigo de Anita Leocádia Prestes, filha de Luiz Carlos Prestes e Olga Benário, nascida num hospital de um campo de concentração da Alemanha nazista, que me chamou a atenção para a temática dos abusos e dos obtusos usos da imagem na sociedade contemporânea. Na ânsia de tornar atrativas as informações e notícias sobre a História e seus personagens, a veiculação de imagens tende, fortuita e imperiosamente, a mitificar ou desmitificar episódios determinados pelo pensar e pela ação humana no tempo. 

Anita, que é professora de História no ensino superior do Rio de Janeiro, refere-se no artigo a uma revista (que nem figura entre as decepcionantes publicações semanais ou mensais da grande imprensa) que estampa seu pai, numa praia, em trajes de banho, na capa. A promessa da revista é destacar, na chamada matéria de capa, a riqueza do acervo pessoal de Prestes, em cujas anotações e em meio a documentos, fotografias e reflexões encontram-se grandes pistas para uma acurada e surpreendente interpretação do Brasil.

O que há, então, na severa crítica que Anita Leocádia Prestes faz à revista - ou à sua capa, em particular?

Com o frequente uso de imagens que retratam a vida privada de grandes personagens da História (e também autoridades públicas, artistas e intelectuais), a mídia, segundo a historiadora Anita, procura desviar do mundo o verdadeiro legado dessas pessoas, misturando público e privado, dando ares de banalidade a mentes privilegiadas, a sujeitos de práticas memoráveis e decisivas. Numa palavra, a cadeira de praia, a sunga ou o guarda-sol de Prestes deve ser tanto ou mais interessante e digno de nota e ênfase do que suas ideias, seus escritos, sua identidade como protagonista do século XX no país.

A filha do mais conhecido comunista brasileiro tem razão. Numa época de personalidades vazias, prioridades estranhas e indiferença política generalizada, as imagens querem somente entreter e varrer para debaixo do tapete a consciência daqueles que almejam alguma substância para a vida. O cabelo, o decote, o biquíni, a sandália, o telefone celular, o notebook, o tablet, o automóvel, os móveis planejados, o apartamento de luxo  roubam a cena, tornam nossa visão das coisas reféns de cores, perspectivas, tamanhos, concessão de prestígio e status.

Um mundo sem imagens é impossível e indesejado. Elaborar uma realidade em que as figuras ilustrem grandes ideias e preserve o lado particular de cada um, entretanto, é gigantesco desafio que pode e deve ser todos.