10 março 2012

Minicontos II

Sem síntese


Enquanto caminhava, sem conhecimento dos sinais que o orientavam, alternava o olhar entre o chão e o infinito. Queria cultuar dúvidas – exigência da dialética do ver o mundo e do viver a vida – e, a um só tempo, contemplar a verdade nas relações humanas, confundindo-as com os fenômenos da natureza. (Sabe-se nos bons círculos que até o conhecimento das ciências naturais é socialmente elaborado e difundido.)

De intenções positivas, da cabeça aos pés, era cheio. Vivia sob o manto aristotélico, como se Nicolau de Cusa, Galileu Galilei e Giordano Bruno não tivessem vivido tudo o que de fato viveram; como se a subjetividade não houvesse trazido de volta a imaginação platônica ao mundo.

Abriu a porta que dava para a sacada do apartamento. Luzes e movimento humano da esperada noite de sexta-feira fizeram-no pensar sobre escolhas e perspectivas futuras. Atônito e sem qualquer síntese no horizonte, fechou a porta e voltou a recolher-se em si mesmo. A imanência aristotélica falou-lhe bem mais alto ao coração, embora ele insistisse na razão pura e simples.


À moda antiga


A bengala era a parceira de dias às vezes intermináveis. Perto dos quarenta anos, bem perto mesmo, tinha alguma dificuldade para aceitar o reinante discurso de que se aproximava da melhor idade para pensar, escrever, viver. Desconfiava dessas falas, julgava-as amistosas, amigas, mas falsas, destituídas de abrangência. Sabia que o melhor ponto de vista era aquele obtido do alto do mirante – e sabia ainda mais que seus interlocutores, como praxe de uma vida apenas sensorial, não frequentavam mirantes.

Foi do alto de um mirante, que visitou ainda na casa dos vinte anos, quando a brisa do mundo lhe soprava esperança e otimismo, que conheceu Amanda. Mulher formidável, linda, com um quê indispensável de melancolia e medo no olhar, a jovem inspirava seus escritos. Fez um blog, publicou poesia e prosa aos montes: era um escriba incorrigível. 

Amanda nunca soube do seu amor; nunca soube por que usava bengala. A exuberante Amanda era só referência, uma musa à moda antiga, presente na imaginação de quem escrevia livros e textos que nunca alcançariam qualquer êxito.