03 março 2012

Minicontos

Uma decisão indiscutível


Ela havia decidido morrer com muita classe. À meia-noite, numa tumultuada avenida da cidade, foi em busca de um amor que trouxesse consigo todos os perigos do mundo. Encontrou sem dificuldades o que procurava. Logo cedo, o noticiário informava que uma jovem de família tradicional, moça linda, estudante universitária, fora encontrada morta numa cama de hotel barato, no centro sujo e nervoso da metrópole. No intenso vazio dos olhos da vítima, a polícia alimentava como principal suspeito o vazio existencial.


Direita, volver


A conversão foi radical. Sem que amigos ou parentes pudessem compreender ao certo, a jovem professora resolveu alterar seu modo de interpretar o mundo e nele viver. Das aulas de filosofia, até então conhecidas pela densidade crítica e pela elegância expositiva, sobrou muito pouco, subsistindo apenas queixas e paranoias, um esquisito e indecifrável sentimento anticomunista.

Em poucos anos, a memória foi ficando fraca. A memória coletiva, é claro. Nos corredores da escola, por onde a professora caminhou por toda uma vida, nenhum sinal, nenhuma lembrança. De um ou de outro, normalmente dos funcionários de longuíssima data, ouvia-se algo a respeito de uma mulher que havia enlouquecido e sumido em meio às tempestades da própria angústia e do insuportável arrependimento.