17 março 2012

O tempo da poesia


Graças às tecnologias hipermodernas, eles se julgavam sempre muito próximos. Via mensagens de celular, dia após dia, relatavam seus afazeres cotidianos e apimentavam os momentos que ilustrariam seus prazeres concretos. No início havia muitos encontros presenciais. Em pouco tempo, mais mensagens, menos pele, menos beijos e amores.

Havia uma mútua crença na paixão. Era verdadeiramente recíproco o desejo expresso de viver juntos, dividir a vida e o tempo. Ele era casado, pai de família, um sujeito, digamos, preso a circunstâncias. Mais velho e supostamente mais maduro, ele tinha medo, muito medo de se entregar a algo que terminasse com um doloroso protocolo de aventura, um amor de verão estendido. Ele, linda e sedutora, descompromissada e plenamente livre, voou sobre as fantasias dele, aguçou-lhe sentidos e atormentou a imaginação naufragada de um homem consumido por rotinas e responsabilidades.

Trocavam impressões a respeito do futuro com muita frequência. Falavam em decorar o apartamento do casal com cartazes históricos do cinema. Registravam na pele e no coração um sentimento tricolor de eternidade. Faziam juras de colocar sobre as mesas dos convidados de seu casamento as mensagens mais poéticas que trocavam por celular o dia inteiro. Eram perfeitos como amantes de um amanhã isolado pelo presente que não acontecia.

Ao certo, bem ao certo, é difícil dizer como tudo acabou antes mesmo de começar. Cansaço, decepção, vontade de viver algo real – tudo foi síntese da ruptura. 

Ele voltou a viver. Está reaprendendo a escrever, estudar, dedicar-se ao entendimento e à mudança do mundo. Ela caminha em busca de algo verdadeiro, nada virtual, nada poético. Definitivamente, a poesia os separou para sempre. O tempo da poesia não é o tempo do amor.