26 março 2012

Simplesmente Chico

Chico Anysio, um mestre entre os gigantes "Chicos" (1931 -2012)

Já chorei a perda de muitos "Chicos". Meu avô paterno era um Chico que dirigia ônibus, jogava sinuca e contava histórias incríveis. O Chico Julião organizou o povo nordestino e deu liga e dignidade ao sofrido sertanejo. O Chico Mendes devolveu à gente da floresta soberania e direito ao futuro... Tantos outros "Chicos" do futebol, da música, das artes e do mundo eu chorei também.

Agora eu ainda choro um Chico que era tantos outros, "Chicos" e "Não-Chicos", que a dor no peito já dá sinais de eterna permanência, aguda insistência, uma saudade de uma inteira multidão.

O cearense Anysio, um Chico bem gigante, chegou ao Rio de Janeiro bem menino, no colo de uma família grande que jamais desistiu de crescer. No Rádio, no Teatro, na TV e no Cinema, viveu sessenta e cinco anos de uma carreira ímpar, cheia de pares, mestres e aprendizes, cúmplices na heroica tarefa de fazer humor num país tão sem graça.

O Chico que era muitos - era, na verdade, todos nós - vestiu-se de duzentas e tantas maneiras diferentes para precipitar risos, ensaiar a graça da vida em labirintos às vezes escuros. Nos intervalos de cada personagem, nos intuitos de cada palavra alegre e cuidadosamente desenhada, o Chico da multidão abraçava o desejo de denunciar tudo, sabedor que era de não poder mudar nada.

Elegante e impecavelmente sofisticado, o Chico que era irmão do Zelito, pai do Bruno, amor da Malga e avô da Vitória (um amigão de todo o mundo) falava da vida e das coisas da vida lançando um olhar acalorado e absorvente sobre a realidade. Entre sorrisos, ele fazia a gente pensar, entender as tais coisas, emocionar-se com a vida.

Hoje em dia, há poucos "Chicos" fazendo graça por aí. Quer dizer, tem muita gente achando que faz graça, perfilando, na verdade, preconceito e estupidez - algo que os pós-modernos vem chamando de humor. Por essas e por outras é que a graça não é mais dos "Chicos", daqueles que, como o Henfil, um "Chico" dos desenhos, faziam um humor engajado, humano, grandioso como a esperança.

O Anysio dos tantos "Chicos" foi um gênio, um gentleman, um sujeito de talento numa selva de animais atrás de carne - o novo nome do dinheiro nos açougues do entretenimento vazio.

Por ora, e para sempre, um obrigado no plural para Chico Anysio. Ele me ensinou que até para fazer rir a inteligência é primordial!