29 abril 2012

Cotas, enfim


Na semana passada, por decisão unânime, num histórico placar de dez a zero, o Supremo Tribunal Federal optou pela constitucionalidade das políticas afirmativas e das reservas de cotas para pobres e negros brasileiros nas universidades públicas, tradicional espaço de formação das elites nacionais.

As opiniões sobre as políticas de cotas, não obstante o significativo resultado na votação do STF, são divergentes; há muitas polêmicas e de todos os lados surgem pontualmente argumentos com algum grau de pertinência. 

Aos opositores mais radicais (em geral, grupos bem conservadores) resta o apelo ao discurso da igualdade natural entre os indivíduos, a qual, uma vez agredida, revela preconceitos efetivos. Nesses termos, as cotas, em vez de promoverem justiça, acirram o conflito e inferiorizam seus destinatários, que não mais se verão como capazes de alcançar lumes desejados pelo esforço pessoal e intransferível. O argumento, aparentemente razoável, esconde dos defeitos muito graves: um histórico, outro ideológico.

O fato é que a escravidão de trezentos e cinquenta anos ainda deixa suas marcas na sociedade brasileira. Além do lucro absurdo com o comércio negreiro, que acumulou metade do dinheiro que se fez pela venda de todo o ouro e de todo o pau-brasil no período colonial, a escravidão petrificou mentalidades e obstruiu canais de acesso. Uma vez "livres", os antigos escravos, seus ascendentes e decentes, libertos por leis específicas nas décadas anteriores a 1888, não tinham para onde ir. As terras já tinham donos e a mão-de-obra remunerada foi transferida às novas levas de imigrantes europeus. A favelização, a marginalidade e o estigma acompanham duramente todo esse processo. Negar os fatos daí decorrentes é tentar apagar a História, escamotear o conflito e imaginar que entre nós reinou mesmo uma democracia racial, como apregoou o sociólogo pernambucano e conservador Gilberto Freyre, em "Casa Grande & Senzala" (reparem no "e" comercial que reúne a mansão dos brancos e o celeiro dos negros, dando a ideia de união harmoniosa e cooperativa), escrito em 1933. 

Sobre a questão doutrinária e ideológica, para o bem ou para o mal, o erro ou a má-fé dos contrários às cotas é ainda mais dissimulado. Basta que fiquemos com o princípio liberal de que todos devem sempre partir dos mesmos pontos, em iguais condições de competição (numa sociedade que possui o mercado no centro de todas as relações sociais). Ora, são iguais os pontos de que partem brancos e negros, ricos e pobres, homens e mulheres, na sociedade brasileira?! A escola que uns e outros frequentaram é da mesma qualidade?! Os bens culturais a que têm ou tiveram acesso são idênticos ou mesmo similares?! E a materialidade de suas existências, possui algum grau de comparação?! As cotas existem, essencialmente, para que essas questões recebam respostas mais avançadas, abrangentes, e possam no curso do tempo desaparecer como desafio de nossa sociabilidade burguesa. Insisto: a partir de um simples cotejo liberal, as cotas podem ser apreciadas como medida para ombrear oportunidades.

Para um país tão forte e dolorosamente marcado por diferentes fabricações de desigualdade e exclusão, as cotas representam uma ducha de liberdade a esses povos cujos antepassados ergueram o país, cujos filhos ainda suam de lua a sol, de sol a lua, para tocar nossas tão difíceis estradas humanas. Como muito bem escreveu Darcy Ribeiro, em seu magnífico "O povo brasileiro", publicado em 1995, todos nós somos carne da carne e sangue do sangue dos índios, negros e mulatos, origem de nossa inegável origem latina, única e, ao mesmo tempo, plural e multicultural.

As cotas são um aceno a essa constatação, a essa ineliminável herança social.

25 abril 2012

O cansaço


Não consigo fazer mais nada. As horas passam, o relógio avança sobre mim, me intimidando, me ameaçando com a fúria dos ponteiros. Fico a me perguntar o que está a acontecer. De onde veio tanta imobilidade, tanto desejo de furar o tempo? Contaminado pela obrigação, a paixão foi se esvaziando, esvaziando... Aquilo que me moveu no universo dos sonhos, permitiu-me acreditar no depois, hoje corrói os dias, dilacera a alma, estampa no meu peito a dor da angústia, da certeza de que tudo não passou da maior de todas as ilusões.

Os livros me chamam e, paradoxalmente, me afastam. Com quem partilhar descobertas? Em que ambiente aprofundar o debate em torno das grandes ideias? Escrever orientando as palavras para quais paisagens? Quem está interessado, meu Deus? Quem?!

Os grandes filmes já não encantam ninguém (as imagens viraram vinhetas, curtos clipes). A reflexão discursiva, o ouvir, o dizer, tudo perdeu substância. Não se lê mais a realidade: os livros, pêndulos da vida, vivem às moscas. E aqueles que ganham a luz dos olhares resvalam na mediocridade, no mais do mesmo, ou seja, do nada, para nada, ninguém. Meus livros, discos e filmes, tudo aquilo que defini como construtores de minha identidade, tornaram-me obsoleto. Não acompanho tendências - repudio os movimentos tendenciosos, os quais carregam a arrogância da efemeridade. Sou o resultado da prática das obsolescências: tornei-me inútil num tempo de inutilidades. Consagrei-me superfície numa época adoradora das superfluidades. Eu duro um instante, um breve instante, e me apago na escuridão da memória. Obsolescência planejada.

A paralisia se alastrou pela consciência. Pela primeira vez na vida examino seriamente desistir de tudo. Não posso insistir em ganhar a vida e perdê-la na mesma estrada. A conta não bate: ganho ou perco a vida? Qual o saldo no fim de cada dia? A forte dúvida do que fazer para seguir em frente é menos tortuosa do que seguir em frente. Não há com o que lutar. Quais as armas? Como resistir? Pior: em nome de quê?!

Os mesmos arranjos culturais desse desprazer têm criado um reacionarismo assombroso. Vejo gente muito jovem gritar afeiçoadamente a Frente Nacional (os ultraconservadores) dos franceses: intolerância, agressividade, nenhum compromisso com o equilíbrio, com o conhecimento. A culpa é dos outros - eles são sempre inocentes, sempre muitíssimo bem-intencionados. As vítimas da História agora são os algozes do presente. Inversão de valores, cegueira ideológica.

Detesto o verbo cansar; acho-o demasiado dramático, Mas eu estou cansado, muito cansado. Cansado daqueles que não se cansam, injuriado em face daqueles que dizem ser o cansaço algo inútil. Estou decepcionado com o tempo, com as promessas que os ventos trazem. Minha velha advertência me pegou em cheio: se perder a utopia, perderá a vida, eu sempre disse. Minha vida está viajando aceleradamente diante dos meus sentidos. A razão, por sua vez, está no exílio.

Vou enviar uma proposta ao divino, fazer uma prece aos céus. Vou cogitar manhãs de sol e uma existência nova. Não obstante cansado, ainda tenho alguma força para me surpreender. Vou continuar caminhando, sem parar. Quem sabe eu atravesse o mar?

04 abril 2012

A palavra, meu eterno amor


Vira e mexe, percebo que sou mesmo um apaixonado por imagens. A arte fotográfica e a beleza da cinematografia reforçam essa paixão diariamente. Devo ser honesto, como de praxe, e confessar: um bom texto recheado de imagens penetrantes fica ainda melhor. O mistério, contudo, é descobrir se textos fabulosos tornam imagens algo que deslumbra ou, inversamente, imagens atraentes dignificam a palavra escrita, transformando-a em sedutora e inevitavelmente muito atraente.

O mistério vem insistindo há muito tempo em minha vida. Aprendi a gostar de ler ainda muito menino (a ler, simplesmente, aprendi cedo demais). As palavras eram desenhos na minha imaginação. Cada letra do alfabeto era um pedaço de um quebra-cabeça infinito, cheio de possibilidades. As imagens que aquelas pecinhas poderiam montar eram uma vastidão: gente, paisagens, bichos, super-heróis, tudo surgia nas minhas ideias através do olhar que eu lançava, surpreso e animado, sobre as retas e curvas de cada letra. Era como se eu estivesse a toda hora tentando descobrir que imagens formavam as nuvens do céu, a mais criança de todas as brincadeiras da imaginação.

Crescendo, afeiçoei-me aos gibis, ao extraordinário mundo das histórias em quadrinhos. Li e curti quase tudo, da Turma da Mônica e dos personagens de Walt Disney (passando por Bolinha e Luluzinha, é claro) aos undergounds traços do Angeli, do Glauco e do Laerte. De sobra (e quanta sobra, meu Deus!), os heróis da Marvel e da DC compuseram meu imaginário e até hoje dizem respeito a muitas impressões que tenho da vida e do mundo. O fato é que, fosse o Cascão, fosse o Peninha, fosse Rê Bordosa, fossem os Piratas do Tietê, depois que conheci a letra escrita, nunca mais me imaginei sem ler. Dos quadrinhos aos livros, numa travessia rápida e, digamos, "natural", o tempo esteve em meu favor. Como filho dos dias, vivo a declarar amor às palavras. Antes, na condição de leitor voraz; agora, inveteradamente, como aprendiz de poeta e escritor. Imaginar-me sem escrever um único dia é um exercício que minhas ideias não conseguem alcançar.

Se não me falha a memória (e ela vive me traindo e deixando à deriva), comecei a escrever poemas, rabiscar inocentes versos, na árdua trama da pré-adolescência. Na cidade de São Paulo, onde vivi e caminhei até os dezoito anos, lembro que passava horas noite adentro escrevendo poesia no escadão da Rua Girassol, na Vila Madalena. Eram expressões de amor, rock e solidão: palavras tímidas e pouco substantivas de alguém que aprenderia a se comunicar desde cedo por escrito. Muito mais observador do que falador, tímido talvez por convicção, a palavra grafada - a que se lê e a que se desenha - tornou possível que eu me ligasse ao mundo.

Na escola e mais tarde na universidade, eu era bem melhor escrevendo do que falando. Misteriosamente, como professor, tornei-me um orador incansável (bom, o adjetivo incansável é pura força de expressão, uma vez que ando bem desanimado de buscar educar num mundo tão deseducado, de tentar partilhar saberes num mundo que optou pela obscuridade...). Acredito que tudo que li e escrevi, de alguma maneira, preencheu espaços em minha ideias e rompeu as fronteiras do meu silêncio e da minha convicta vergonha.

Hoje, de muitos modos, falo com as pessoas, escrevo novos mundos e interpreto velhas realidades também pela palavra sonora. (A febre tem sido tamanha que mantenho uma coluna eletrônica diária na Rádio CBN Londrina há mais de um ano.) Gosto de ouvir tanto declamações poéticas quanto compassos musicais. Talvez por isso tenha me curvado diante da necessidade de falar, convencer os outros a ouvir algo de meus pensamentos.

Pensar por escrito e me expressar pelo movimento dançante das canetas, esses pequenos utensílios que se tornaram um dos meus maiores fetiches, ainda são minhas diletas atividades. E eu juro de pés juntos: tudo que eu digito ao computador passa antes pela forma manuscrita, meu artesanato intelectual. 

Enternece-me a solidão do leitor; instiga-me o isolamento do escritor. Isolar-me para escrever após sentir-me só num mundo povoado por palavras é e sempre será a escolha que fiz para dar sentido à vida. Um sentido bem maior que eu.