25 abril 2012

O cansaço


Não consigo fazer mais nada. As horas passam, o relógio avança sobre mim, me intimidando, me ameaçando com a fúria dos ponteiros. Fico a me perguntar o que está a acontecer. De onde veio tanta imobilidade, tanto desejo de furar o tempo? Contaminado pela obrigação, a paixão foi se esvaziando, esvaziando... Aquilo que me moveu no universo dos sonhos, permitiu-me acreditar no depois, hoje corrói os dias, dilacera a alma, estampa no meu peito a dor da angústia, da certeza de que tudo não passou da maior de todas as ilusões.

Os livros me chamam e, paradoxalmente, me afastam. Com quem partilhar descobertas? Em que ambiente aprofundar o debate em torno das grandes ideias? Escrever orientando as palavras para quais paisagens? Quem está interessado, meu Deus? Quem?!

Os grandes filmes já não encantam ninguém (as imagens viraram vinhetas, curtos clipes). A reflexão discursiva, o ouvir, o dizer, tudo perdeu substância. Não se lê mais a realidade: os livros, pêndulos da vida, vivem às moscas. E aqueles que ganham a luz dos olhares resvalam na mediocridade, no mais do mesmo, ou seja, do nada, para nada, ninguém. Meus livros, discos e filmes, tudo aquilo que defini como construtores de minha identidade, tornaram-me obsoleto. Não acompanho tendências - repudio os movimentos tendenciosos, os quais carregam a arrogância da efemeridade. Sou o resultado da prática das obsolescências: tornei-me inútil num tempo de inutilidades. Consagrei-me superfície numa época adoradora das superfluidades. Eu duro um instante, um breve instante, e me apago na escuridão da memória. Obsolescência planejada.

A paralisia se alastrou pela consciência. Pela primeira vez na vida examino seriamente desistir de tudo. Não posso insistir em ganhar a vida e perdê-la na mesma estrada. A conta não bate: ganho ou perco a vida? Qual o saldo no fim de cada dia? A forte dúvida do que fazer para seguir em frente é menos tortuosa do que seguir em frente. Não há com o que lutar. Quais as armas? Como resistir? Pior: em nome de quê?!

Os mesmos arranjos culturais desse desprazer têm criado um reacionarismo assombroso. Vejo gente muito jovem gritar afeiçoadamente a Frente Nacional (os ultraconservadores) dos franceses: intolerância, agressividade, nenhum compromisso com o equilíbrio, com o conhecimento. A culpa é dos outros - eles são sempre inocentes, sempre muitíssimo bem-intencionados. As vítimas da História agora são os algozes do presente. Inversão de valores, cegueira ideológica.

Detesto o verbo cansar; acho-o demasiado dramático, Mas eu estou cansado, muito cansado. Cansado daqueles que não se cansam, injuriado em face daqueles que dizem ser o cansaço algo inútil. Estou decepcionado com o tempo, com as promessas que os ventos trazem. Minha velha advertência me pegou em cheio: se perder a utopia, perderá a vida, eu sempre disse. Minha vida está viajando aceleradamente diante dos meus sentidos. A razão, por sua vez, está no exílio.

Vou enviar uma proposta ao divino, fazer uma prece aos céus. Vou cogitar manhãs de sol e uma existência nova. Não obstante cansado, ainda tenho alguma força para me surpreender. Vou continuar caminhando, sem parar. Quem sabe eu atravesse o mar?