04 abril 2012

A palavra, meu eterno amor


Vira e mexe, percebo que sou mesmo um apaixonado por imagens. A arte fotográfica e a beleza da cinematografia reforçam essa paixão diariamente. Devo ser honesto, como de praxe, e confessar: um bom texto recheado de imagens penetrantes fica ainda melhor. O mistério, contudo, é descobrir se textos fabulosos tornam imagens algo que deslumbra ou, inversamente, imagens atraentes dignificam a palavra escrita, transformando-a em sedutora e inevitavelmente muito atraente.

O mistério vem insistindo há muito tempo em minha vida. Aprendi a gostar de ler ainda muito menino (a ler, simplesmente, aprendi cedo demais). As palavras eram desenhos na minha imaginação. Cada letra do alfabeto era um pedaço de um quebra-cabeça infinito, cheio de possibilidades. As imagens que aquelas pecinhas poderiam montar eram uma vastidão: gente, paisagens, bichos, super-heróis, tudo surgia nas minhas ideias através do olhar que eu lançava, surpreso e animado, sobre as retas e curvas de cada letra. Era como se eu estivesse a toda hora tentando descobrir que imagens formavam as nuvens do céu, a mais criança de todas as brincadeiras da imaginação.

Crescendo, afeiçoei-me aos gibis, ao extraordinário mundo das histórias em quadrinhos. Li e curti quase tudo, da Turma da Mônica e dos personagens de Walt Disney (passando por Bolinha e Luluzinha, é claro) aos undergounds traços do Angeli, do Glauco e do Laerte. De sobra (e quanta sobra, meu Deus!), os heróis da Marvel e da DC compuseram meu imaginário e até hoje dizem respeito a muitas impressões que tenho da vida e do mundo. O fato é que, fosse o Cascão, fosse o Peninha, fosse Rê Bordosa, fossem os Piratas do Tietê, depois que conheci a letra escrita, nunca mais me imaginei sem ler. Dos quadrinhos aos livros, numa travessia rápida e, digamos, "natural", o tempo esteve em meu favor. Como filho dos dias, vivo a declarar amor às palavras. Antes, na condição de leitor voraz; agora, inveteradamente, como aprendiz de poeta e escritor. Imaginar-me sem escrever um único dia é um exercício que minhas ideias não conseguem alcançar.

Se não me falha a memória (e ela vive me traindo e deixando à deriva), comecei a escrever poemas, rabiscar inocentes versos, na árdua trama da pré-adolescência. Na cidade de São Paulo, onde vivi e caminhei até os dezoito anos, lembro que passava horas noite adentro escrevendo poesia no escadão da Rua Girassol, na Vila Madalena. Eram expressões de amor, rock e solidão: palavras tímidas e pouco substantivas de alguém que aprenderia a se comunicar desde cedo por escrito. Muito mais observador do que falador, tímido talvez por convicção, a palavra grafada - a que se lê e a que se desenha - tornou possível que eu me ligasse ao mundo.

Na escola e mais tarde na universidade, eu era bem melhor escrevendo do que falando. Misteriosamente, como professor, tornei-me um orador incansável (bom, o adjetivo incansável é pura força de expressão, uma vez que ando bem desanimado de buscar educar num mundo tão deseducado, de tentar partilhar saberes num mundo que optou pela obscuridade...). Acredito que tudo que li e escrevi, de alguma maneira, preencheu espaços em minha ideias e rompeu as fronteiras do meu silêncio e da minha convicta vergonha.

Hoje, de muitos modos, falo com as pessoas, escrevo novos mundos e interpreto velhas realidades também pela palavra sonora. (A febre tem sido tamanha que mantenho uma coluna eletrônica diária na Rádio CBN Londrina há mais de um ano.) Gosto de ouvir tanto declamações poéticas quanto compassos musicais. Talvez por isso tenha me curvado diante da necessidade de falar, convencer os outros a ouvir algo de meus pensamentos.

Pensar por escrito e me expressar pelo movimento dançante das canetas, esses pequenos utensílios que se tornaram um dos meus maiores fetiches, ainda são minhas diletas atividades. E eu juro de pés juntos: tudo que eu digito ao computador passa antes pela forma manuscrita, meu artesanato intelectual. 

Enternece-me a solidão do leitor; instiga-me o isolamento do escritor. Isolar-me para escrever após sentir-me só num mundo povoado por palavras é e sempre será a escolha que fiz para dar sentido à vida. Um sentido bem maior que eu.