26 maio 2012

MICROCONTOS II



Beijo celestial

Ontem mesmo, à noite, quando me deitei, apesar da gripe terrível, fixei meus pensamentos num interminável beijo entre nós dois. Acordei com a sensação de que eu havia viajado até o céu, conhecido os anjos e, enfim, retornado melhor para a vida. Um beijo dela seria muito mais do que palavras.

Luar

Ela tem um nome encantador, embora eu esteja proibido por mim mesmo até de pensar nele. O nome dela, inviolável, é amante da Lua, o símbolo dos poetas, a chaga dos amantes. Nunca disse a ninguém que penso nela, que soletro diariamente seu nome, evitando assim ser flagrado com toda sua graça na cabeça. Já fantasiei mil coisas entre nós. Já esbocei sua sombra em poesias e a tornei protagonista de muitas viagens. Nossa, ela nem desconfia. Não faz a menor ideia que durmo e acordo com seu rosto e o segredo daquele corpo, declamado no peito de instante em instante, em minha alucinada imaginação. Tenho vivido de luares proibidos.

Desconfiança

Eu compus uma canção bem simples, com letra de sonhos. Próximo ao refrão coloquei um convite: pedi a ela que não duvidasse do meu desejo. Nas poucas ocasiões em que estive perto dela, até os versos - habituais em meu pensamento - se ausentaram. Eu tremia o tempo todo, imaginando nossos corpos juntos, frenéticos, completamente enlouquecidos. Era olhar para ela e imediatamente imaginar o Olimpo do Amor. Agora que fiz essa canção, essa simples melodia de meus calafrios, ando desconfiando que um beijo bem inocente já seria muito bom.

23 maio 2012

A sociedade de consumidores e a questão ecológica


No próximo dia 25/05, irei participar do encontro "Rio+20: desafios na construção de sociedades sustentáveis", uma iniciativa do GEAMA (Grupo de Estudos Avançados sobre o Meio Ambiente), da UEL. O evento será no Auditório Alcides Bueno da UNOPAR, Campus Piza, instituição na qual atuo profissionalmente. Abaixo, antecipo o texto que irá balizar minha intervenção - uma fala, aliás, que, muito provavelmente, irá destoar das demais. Normal, não?

Já é bem conhecida a metáfora dos líquidos criada e desenvolvida pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Na contramão dos tempos sólidos do capitalismo industrial em expansão e das políticas públicas do Estado de Bem-Estar Social (fenômenos que podem ser identificados com maior precisão nos períodos imediatamente seguintes aos duros e trágicos anos da guerra total, pós-1945), os “líquidos” vivem para se dissolver, para tomar formas imprevistas, fazer coisas jamais anunciadas, percorrer os caminhos do improviso.

Nesses termos, na moderna e líquida sociedade de consumidores vorazes e insaciáveis, é que a questão ecológica ganha novos contornos, apontando para problemas antigos e insistências renovadas. Se não é de hoje que a tal sustentabilidade dá mostras de cansaço, é extremamente atual o fato de ela ocupar um lugar destacado em nossas reflexões sobre o futuro do planeta e da humanidade.

Os “líquidos” são sujeitos que abandonaram o consumo como ocupação e o transformaram em atributo. Mais do que isso: ao transformarem tudo em mercadoria, colocando o mercado no centro da vida social, passaram a ser, a um só tempo, seres que compram e se vendem, que se posicionam no mundo exigindo aparição, ostentação, ilusão das formas. Não é novidade nenhuma afirmar que na sociedade contemporânea o reino da estética venceu a república da ética. O que é, nesse sentido, perdeu de goleada para o que parece ser.

Num mundo hipercompetitivo e realocado permanentemente ao sabor dos grandes negócios e das suntuosas transações econômicas, o meio ambiente aparece também como mercadoria, como algo a ser exposto nos supermercados da vida. É sintomático que a nova realidade dos hoje preocupados com a degradação ambiental seja intuitivamente denominada “economia verde”.

Coincidem com os novos tempos da economia ecológica a transnacionalização do capital e os investimentos agressivos do agronegócio nos países do Sul. Há poucos anos, um economista estadunidense, Lawrence Summers, afirmou ser absolutamente natural que, do ponto de vista de uma economia global racional, fossem enviadas para o terceiro mundo as produções mais tóxicas e poluentes e também as regulações de trabalho mais radicais; afinal de contas, escreveu ele, num informe interno do Banco Mundial, a vida humana naquelas paradas vele bem menos...

As cotas e a monetização para emissão do CO2, o “rascunho zero” da Rio+20 (que cunhou a expressão “economia verde” sem defini-la com precisão), as multas contra atividades predatórias ao meio ambiente, tudo isso não toca no âmago da questão: é preciso que transformemos por completo o modo de produzir e consumir que tem dado à nossa civilização (chamemo-la, imprecisamente, assim) um tom de catástrofe no tocante à sobrevivência da vida humana. Vale ressaltar que o planeta não está em risco: ele sobreviverá, como bola de fogo ou de gelo; quem não sobreviverá seremos nós.

Líquidos e inconstantes, reiteramos uma sociedade eminentemente quantitativa, que valoriza índices e estatísticas; endossa volumes e se regozija de tabelas, gráficos, tendências crescentes. A transição para uma realidade realmente qualitativa deve subordinar a economia ao meio ambiente e condenar ao esquecimento dois protagonistas deste nosso tempo: o produtivismo mercantil e o tipo humano burguês. 

O primeiro dos personagens incita à produção ilimitada, trabalha de modo objetivo a lógica “produzir, ganhar, comprar, descartar”, uma cadeia, frise-se, cíclica. O segundo personagem, muito mais do que o membro de uma classe social, é uma mentalidade, um tipo de pensar/agir que resume a vida às coisas, às posses, à competição de tudo contra todos e de todos contra tudo, vislumbrando uma “carreira de sucesso” e a certeza de que cada um deve cuidar exclusivamente de seus próprios problemas, “vencendo na vida”. Ao destacar o individualismo solipsista, o tipo humano burguês abre mão de suas responsabilidades cidadãs, de seu inexorável vínculo com todas as vidas e o destino do mundo. Numa palavra: transforma-se numa ilha de solidão e num monstro de potencialidades criminosas e cruéis.

Uma alternativa social efetiva à “economia verde”, a qual não rompe com o modelo destrutivo de produção e consumo incessante de mercadorias e serviços, pessoas e ideias, factoides e farsas, passa necessariamente por uma reorientação dos usos e das concepções da tecnologia, pela busca por fontes  renováveis e limpas de energia, pela democratização dos meios de comunicação e os acessos a eles, pelo combate à ostentação, ao desperdício, ao acumulativismo e à alienação.

Nessa imprescindível transição, algumas perguntas devem acompanhar nossos passos: como e para quem “distribuir”? Como articular a questão ambiental à redução da jornada de trabalho (sem prejuízos salariais, é óbvio), ao uso inteligente dos transportes coletivos, à universalização da saúde pública e ao deslindamento das nocivas consequências de um mundo em que o mercado de trocas é o centro da vida?

O sociólogo brasileiro Michael Löwy, inspirado pela leitura do “Princípio Esperança”, de Ernst Bloch, proclama um conjunto renovado de seis éticas para uma nova civilização, desmercantilizada, estruturada nas relações humanas e pautada nos interesses de todos os povos. Juntam-se numa unidade dialética a ética social (novas estruturas e novas formas de produzir e consumir), a igualitária (padrões de existência que equilibrem interesses humanos e necessidade de desenvolvimento com responsabilidade e integridade ecológica), a democrática (ampliação dos canais de comunicação e valorização de todas as vozes), a radical (proposição de uma educação para a vida que negue as aparências e vá às profundidades dos fenômenos), a responsável (articulação entre o presente e o futuro) e a esperança (a utopia que precisa renascer no guiar dos passos humanos).

Diante de relações sociais cada vez mais velozes e fugazes, incrementadas pelo imediatismo e pelos doces sabores instantaneístas dos objetos de consumo, não é nem será fácil propor condutas éticas que perscrutem longos prazos, esperas angustiantes, lutas contínuas. Ao mesmo tempo, quando a questão ambiental passa ao largo dos interesses do grande capital e dos governos do mundo central, a ecologia não apenas deixa de ser prioridade, como muitas vezes  - no limite - passa a ser uma rentável moeda de troca. É contra a desmotivação cidadã e a inculpabilidade das grandes estruturas de mercado e da política globalizada e hegemonicamente conservadora que devem se voltar todos os que ainda creem no futuro, são defensores da maré alta, isto é, da esperança. É isso.

20 maio 2012

MICROCONTOS



LÁBIOS
Havia um beijo lá, um sinal, que eu nunca mais vi nem senti. Ainda procuro aqueles lábios da morena jambo, a mais bonita mulher do mundo.

AQUELE INSTANTE
Eu não estava lá nem a via fazia muito, muito tempo. Não faço ideia das circunstâncias nas quais aquela foto foi tirada. Sei, entretanto, que as curvas - o desenho do mundo que desatinou meus pensamentos e desejos - estão todas lá, devidamente retratadas. Eu queria apenas poder tocar levemente aquele instante.

SILÊNCIO
Ela nunca disse uma palavra concreta. Olhares cheios de duplas, triplas interrogações. Intenções, nada. Às vezes sentia que devia insistir. Outras tantas vezes (a maioria delas) sentia medo. A simples ideia de um não me mutilava lenta e cruelmente. Ela nunca se insinuou, nunca disse uma besteirinha que fosse... Fiquei no meu canto - e ela, no dela. Nosso amor, um amor do nunca, permanece em silêncio.

07 maio 2012

Acentuando as palavras


Esta é a apresentação que escrevi para o meu livro de poesias, "Nas ruas do mundo", que está sendo lançado neste bonito mês de maio de 2012. Espero que todos possam e queiram ter um exemplar. Ficarei feliz de ver meus poemas ressoando por aí.

Poemas contêm em sua essência a expressão de uma determinada subjetividade. Vejo, agraciado, muita poesia nas telas expressionistas de Paul Klee, nos soberbos traços de Salvador Dalí, gênio surrealista, na película revolucionária de Eisenstein, nas histórias de vida documentadas pela lente de Eduardo Coutinho, no olhar visceral contido nos registros fotográficos de Sebastião Salgado, na filosofia elegante e crítica de Leandro Konder, nos versos cantados e imprescindíveis do compositor e intérprete mineiro Zé Geraldo...

O poeta, nesse sentido, é o acabamento de todo artista, sua injunção derradeira, sua porção de emoção, sua cobertura de precisão, busca da perfeição. Como sociólogo, a poesia alivia meus cansaços, propõe caminhos, preenche ideias, ilustra temas, cuida do coração. Diariamente embrenhado em conceitos e teorias, obras e autores, aulas e atividades acadêmicas, intelectuais, reúno na poesia a tranquilidade necessária para humanizar minhas expressões, meus gestuais, minha letra impressa, minhas peregrinações pela tela virtual do computador.

Concordo de modo pleno com a assertiva segundo a qual sem poesia não há nada no produto do trabalho humano que realmente valha a pena. Em tempos de tão vertiginosa e assustadora violência (em todas as suas múltiplas modalidades), intragável desumanização, covarde e tola destituição dos valores universais, dos preceitos de dignidade do ser, da histórica construção dos nossos direitos constituintes, intrínsecos à própria noção de pessoa, a urgência poética se faz de modo ainda mais pertinente. Nossos destemperos diante de temas como o meio ambiente, o universo do trabalho e a valorização da diversidade étnica, cultural e política são o resultado direto do ressentir da poesia, de sua ausência em nossas integrações sociais, em nossa aparentemente tão vã e certamente tão grandiosa mania de querer um mundo comum. Requerer a presença de versos e estrofes em nossas travessias, parece-me, é condição indispensável para que a vida se torne uma possibilidade, alguma alquimia da esperança.

É-me, pois, totalmente aceito o princípio de que nossos dias são como são por termos, todos nós, de algum modo, negado a aproximação do poético em nossas existências, excluído de nossos planos de vida a miragem real de nossas plêiades, de nosso patrimônio artístico e cultural, uma história de toda a humanidade.

E por crer de fato no poema como página do saber, capítulo da reflexividade, vereda sociológica, é que resolvi publicar meus esboços poéticos – chamo-os assim por considerá-los uma tentativa, uma honesta e ingênua empreitada no belo, fascinante e complexo mundo da poesia.

Os cinquenta e poucos poemas aqui publicados expressam inquietudes, indagações, impressões que coletei nos últimos cinco ou seis anos. Fruto de uma arriscada e talvez inglória tentativa de denotar coerência, traçado biográfico, insurgência de algum tipo de caráter muito pessoal (alguns resumiriam tudo isso na expressão “visão de mundo”), optei por não datar os poemas, não dispô-los sob algum critério de ordem cronológica, fabricação ou temática. Em vez disso, resolvi desorganizá-los de modo bastante fortuito, ao acaso mesmo, ofertando a quem os vá ler a chance de costurá-los como bem queira, como de fato os possa ver, respeitando todas as opiniões, permitindo uma alvorada de sentimentos que pactuem, em meus versos, novas sendas poéticas. Há, creio, em todo poeta, um desejo que transcende qualquer explicação de sua obra, qual seja: o de reproduzir mentalidades e comportamentos poéticos, provocando, assim, revoluções permanentes nas artes e nas ruas do mundo.

Não me esforcei nem um pouco para ocultar juízos de valor, quer sejam sobre o mundo dos homens (e das mulheres, é claro), quer sejam relacionados com minhas teses sobre o amor, a dor, a felicidade, a vida. Expus – e penso que o poeta sempre se expõe no mistério objetivamente indecifrável de suas palavras – preferências éticas e estéticas; provoquei ideários políticos; (des)construí repertórios supostamente legítimos e massificados; desatarraxei códigos morais, propondo outros, imagino.

Vale ainda destacar que a minha poesia provavelmente não se filia a escolas de tradicões literárias, as quais possuem código, padrões, formas clássicas e consagradas de poetizar, ver, sentir o mundo, manejar palavras, bulir ideias. Não há em meus poemas rimas propositais, número certo de sílabas, respeito a estrofes simetricamente compostas, esquemas predefinidos, sextilhas etc. Há - e é só – a contaminação, por palavras que versam o modo como vejo/sinto o mundo, de ideias e quereres, dentre os quais procuro tornar evidente e transparente o franco desejo de que este pequeno livro alimente utopias e se torne, no mínimo, um passaporte para alguns momentos de prazer e reflexão – todos poéticos, é claro. É isso.