07 maio 2012

Acentuando as palavras


Esta é a apresentação que escrevi para o meu livro de poesias, "Nas ruas do mundo", que está sendo lançado neste bonito mês de maio de 2012. Espero que todos possam e queiram ter um exemplar. Ficarei feliz de ver meus poemas ressoando por aí.

Poemas contêm em sua essência a expressão de uma determinada subjetividade. Vejo, agraciado, muita poesia nas telas expressionistas de Paul Klee, nos soberbos traços de Salvador Dalí, gênio surrealista, na película revolucionária de Eisenstein, nas histórias de vida documentadas pela lente de Eduardo Coutinho, no olhar visceral contido nos registros fotográficos de Sebastião Salgado, na filosofia elegante e crítica de Leandro Konder, nos versos cantados e imprescindíveis do compositor e intérprete mineiro Zé Geraldo...

O poeta, nesse sentido, é o acabamento de todo artista, sua injunção derradeira, sua porção de emoção, sua cobertura de precisão, busca da perfeição. Como sociólogo, a poesia alivia meus cansaços, propõe caminhos, preenche ideias, ilustra temas, cuida do coração. Diariamente embrenhado em conceitos e teorias, obras e autores, aulas e atividades acadêmicas, intelectuais, reúno na poesia a tranquilidade necessária para humanizar minhas expressões, meus gestuais, minha letra impressa, minhas peregrinações pela tela virtual do computador.

Concordo de modo pleno com a assertiva segundo a qual sem poesia não há nada no produto do trabalho humano que realmente valha a pena. Em tempos de tão vertiginosa e assustadora violência (em todas as suas múltiplas modalidades), intragável desumanização, covarde e tola destituição dos valores universais, dos preceitos de dignidade do ser, da histórica construção dos nossos direitos constituintes, intrínsecos à própria noção de pessoa, a urgência poética se faz de modo ainda mais pertinente. Nossos destemperos diante de temas como o meio ambiente, o universo do trabalho e a valorização da diversidade étnica, cultural e política são o resultado direto do ressentir da poesia, de sua ausência em nossas integrações sociais, em nossa aparentemente tão vã e certamente tão grandiosa mania de querer um mundo comum. Requerer a presença de versos e estrofes em nossas travessias, parece-me, é condição indispensável para que a vida se torne uma possibilidade, alguma alquimia da esperança.

É-me, pois, totalmente aceito o princípio de que nossos dias são como são por termos, todos nós, de algum modo, negado a aproximação do poético em nossas existências, excluído de nossos planos de vida a miragem real de nossas plêiades, de nosso patrimônio artístico e cultural, uma história de toda a humanidade.

E por crer de fato no poema como página do saber, capítulo da reflexividade, vereda sociológica, é que resolvi publicar meus esboços poéticos – chamo-os assim por considerá-los uma tentativa, uma honesta e ingênua empreitada no belo, fascinante e complexo mundo da poesia.

Os cinquenta e poucos poemas aqui publicados expressam inquietudes, indagações, impressões que coletei nos últimos cinco ou seis anos. Fruto de uma arriscada e talvez inglória tentativa de denotar coerência, traçado biográfico, insurgência de algum tipo de caráter muito pessoal (alguns resumiriam tudo isso na expressão “visão de mundo”), optei por não datar os poemas, não dispô-los sob algum critério de ordem cronológica, fabricação ou temática. Em vez disso, resolvi desorganizá-los de modo bastante fortuito, ao acaso mesmo, ofertando a quem os vá ler a chance de costurá-los como bem queira, como de fato os possa ver, respeitando todas as opiniões, permitindo uma alvorada de sentimentos que pactuem, em meus versos, novas sendas poéticas. Há, creio, em todo poeta, um desejo que transcende qualquer explicação de sua obra, qual seja: o de reproduzir mentalidades e comportamentos poéticos, provocando, assim, revoluções permanentes nas artes e nas ruas do mundo.

Não me esforcei nem um pouco para ocultar juízos de valor, quer sejam sobre o mundo dos homens (e das mulheres, é claro), quer sejam relacionados com minhas teses sobre o amor, a dor, a felicidade, a vida. Expus – e penso que o poeta sempre se expõe no mistério objetivamente indecifrável de suas palavras – preferências éticas e estéticas; provoquei ideários políticos; (des)construí repertórios supostamente legítimos e massificados; desatarraxei códigos morais, propondo outros, imagino.

Vale ainda destacar que a minha poesia provavelmente não se filia a escolas de tradicões literárias, as quais possuem código, padrões, formas clássicas e consagradas de poetizar, ver, sentir o mundo, manejar palavras, bulir ideias. Não há em meus poemas rimas propositais, número certo de sílabas, respeito a estrofes simetricamente compostas, esquemas predefinidos, sextilhas etc. Há - e é só – a contaminação, por palavras que versam o modo como vejo/sinto o mundo, de ideias e quereres, dentre os quais procuro tornar evidente e transparente o franco desejo de que este pequeno livro alimente utopias e se torne, no mínimo, um passaporte para alguns momentos de prazer e reflexão – todos poéticos, é claro. É isso.