23 maio 2012

A sociedade de consumidores e a questão ecológica


No próximo dia 25/05, irei participar do encontro "Rio+20: desafios na construção de sociedades sustentáveis", uma iniciativa do GEAMA (Grupo de Estudos Avançados sobre o Meio Ambiente), da UEL. O evento será no Auditório Alcides Bueno da UNOPAR, Campus Piza, instituição na qual atuo profissionalmente. Abaixo, antecipo o texto que irá balizar minha intervenção - uma fala, aliás, que, muito provavelmente, irá destoar das demais. Normal, não?

Já é bem conhecida a metáfora dos líquidos criada e desenvolvida pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Na contramão dos tempos sólidos do capitalismo industrial em expansão e das políticas públicas do Estado de Bem-Estar Social (fenômenos que podem ser identificados com maior precisão nos períodos imediatamente seguintes aos duros e trágicos anos da guerra total, pós-1945), os “líquidos” vivem para se dissolver, para tomar formas imprevistas, fazer coisas jamais anunciadas, percorrer os caminhos do improviso.

Nesses termos, na moderna e líquida sociedade de consumidores vorazes e insaciáveis, é que a questão ecológica ganha novos contornos, apontando para problemas antigos e insistências renovadas. Se não é de hoje que a tal sustentabilidade dá mostras de cansaço, é extremamente atual o fato de ela ocupar um lugar destacado em nossas reflexões sobre o futuro do planeta e da humanidade.

Os “líquidos” são sujeitos que abandonaram o consumo como ocupação e o transformaram em atributo. Mais do que isso: ao transformarem tudo em mercadoria, colocando o mercado no centro da vida social, passaram a ser, a um só tempo, seres que compram e se vendem, que se posicionam no mundo exigindo aparição, ostentação, ilusão das formas. Não é novidade nenhuma afirmar que na sociedade contemporânea o reino da estética venceu a república da ética. O que é, nesse sentido, perdeu de goleada para o que parece ser.

Num mundo hipercompetitivo e realocado permanentemente ao sabor dos grandes negócios e das suntuosas transações econômicas, o meio ambiente aparece também como mercadoria, como algo a ser exposto nos supermercados da vida. É sintomático que a nova realidade dos hoje preocupados com a degradação ambiental seja intuitivamente denominada “economia verde”.

Coincidem com os novos tempos da economia ecológica a transnacionalização do capital e os investimentos agressivos do agronegócio nos países do Sul. Há poucos anos, um economista estadunidense, Lawrence Summers, afirmou ser absolutamente natural que, do ponto de vista de uma economia global racional, fossem enviadas para o terceiro mundo as produções mais tóxicas e poluentes e também as regulações de trabalho mais radicais; afinal de contas, escreveu ele, num informe interno do Banco Mundial, a vida humana naquelas paradas vele bem menos...

As cotas e a monetização para emissão do CO2, o “rascunho zero” da Rio+20 (que cunhou a expressão “economia verde” sem defini-la com precisão), as multas contra atividades predatórias ao meio ambiente, tudo isso não toca no âmago da questão: é preciso que transformemos por completo o modo de produzir e consumir que tem dado à nossa civilização (chamemo-la, imprecisamente, assim) um tom de catástrofe no tocante à sobrevivência da vida humana. Vale ressaltar que o planeta não está em risco: ele sobreviverá, como bola de fogo ou de gelo; quem não sobreviverá seremos nós.

Líquidos e inconstantes, reiteramos uma sociedade eminentemente quantitativa, que valoriza índices e estatísticas; endossa volumes e se regozija de tabelas, gráficos, tendências crescentes. A transição para uma realidade realmente qualitativa deve subordinar a economia ao meio ambiente e condenar ao esquecimento dois protagonistas deste nosso tempo: o produtivismo mercantil e o tipo humano burguês. 

O primeiro dos personagens incita à produção ilimitada, trabalha de modo objetivo a lógica “produzir, ganhar, comprar, descartar”, uma cadeia, frise-se, cíclica. O segundo personagem, muito mais do que o membro de uma classe social, é uma mentalidade, um tipo de pensar/agir que resume a vida às coisas, às posses, à competição de tudo contra todos e de todos contra tudo, vislumbrando uma “carreira de sucesso” e a certeza de que cada um deve cuidar exclusivamente de seus próprios problemas, “vencendo na vida”. Ao destacar o individualismo solipsista, o tipo humano burguês abre mão de suas responsabilidades cidadãs, de seu inexorável vínculo com todas as vidas e o destino do mundo. Numa palavra: transforma-se numa ilha de solidão e num monstro de potencialidades criminosas e cruéis.

Uma alternativa social efetiva à “economia verde”, a qual não rompe com o modelo destrutivo de produção e consumo incessante de mercadorias e serviços, pessoas e ideias, factoides e farsas, passa necessariamente por uma reorientação dos usos e das concepções da tecnologia, pela busca por fontes  renováveis e limpas de energia, pela democratização dos meios de comunicação e os acessos a eles, pelo combate à ostentação, ao desperdício, ao acumulativismo e à alienação.

Nessa imprescindível transição, algumas perguntas devem acompanhar nossos passos: como e para quem “distribuir”? Como articular a questão ambiental à redução da jornada de trabalho (sem prejuízos salariais, é óbvio), ao uso inteligente dos transportes coletivos, à universalização da saúde pública e ao deslindamento das nocivas consequências de um mundo em que o mercado de trocas é o centro da vida?

O sociólogo brasileiro Michael Löwy, inspirado pela leitura do “Princípio Esperança”, de Ernst Bloch, proclama um conjunto renovado de seis éticas para uma nova civilização, desmercantilizada, estruturada nas relações humanas e pautada nos interesses de todos os povos. Juntam-se numa unidade dialética a ética social (novas estruturas e novas formas de produzir e consumir), a igualitária (padrões de existência que equilibrem interesses humanos e necessidade de desenvolvimento com responsabilidade e integridade ecológica), a democrática (ampliação dos canais de comunicação e valorização de todas as vozes), a radical (proposição de uma educação para a vida que negue as aparências e vá às profundidades dos fenômenos), a responsável (articulação entre o presente e o futuro) e a esperança (a utopia que precisa renascer no guiar dos passos humanos).

Diante de relações sociais cada vez mais velozes e fugazes, incrementadas pelo imediatismo e pelos doces sabores instantaneístas dos objetos de consumo, não é nem será fácil propor condutas éticas que perscrutem longos prazos, esperas angustiantes, lutas contínuas. Ao mesmo tempo, quando a questão ambiental passa ao largo dos interesses do grande capital e dos governos do mundo central, a ecologia não apenas deixa de ser prioridade, como muitas vezes  - no limite - passa a ser uma rentável moeda de troca. É contra a desmotivação cidadã e a inculpabilidade das grandes estruturas de mercado e da política globalizada e hegemonicamente conservadora que devem se voltar todos os que ainda creem no futuro, são defensores da maré alta, isto é, da esperança. É isso.