28 junho 2012

Marighellianas


Livre iniciativa,
fluxos do grande capital,
ficção,
o dinheiro como centro do mundo,
o mundo como refém do dinheiro (de alguns).

Propriedade privada,
todo poder aos
mercados e bolsas,
aos epígonos e odes de
gestão, foco, clientes...

As tabelas e os
números, as
frequências e os dados.

Nada humano,
nenhum ser.

A orquestra toca uma
só canção: a da acumulação,
fácil e sem obstáculos,
pueril, uma estratégia de
gente infante, infame:
maldita ostentação.

Além do horizonte
(já se cantou tanto),
dentro do peito e no
sonho que não se cansa,
há vida, há muito mais.

Marighella corre em
nossa direção: não tenhamos
nunca tempo para
ter medo.
Nunca (Sempre ao nunca!).

18 junho 2012

As estrelas do mar


A insistência vem
da crença intensa
no ser que
está no mundo e faz
o chão que
pisa e
fortifica.

Os olhos limpos nascem
como a fruta que
se vê bela,
desejada e
deslumbrante,
o doce enigma da vida.

Entre lágrimas surge
a pergunta inquietante
e muitas vezes paralisante,
aquela que interpela
o mundo de ontem,
fracassado como lugar do humano.

Imagens são pré-conceitos,
ilusões que se disfarçam
na nossa pressa,
no pouco afinco de
rejeitar o profundo.

Minha luta é por
conceitos robustos que
ampliem e somem,
costurem convergências,
aceitem e desejem
mudar,
mudarem-se,
conjugar,
conjugarem-se.

A estrada é a das
estrelas, iluminada pela diversidade,
o mundo inteiro por que
passa a esperança e
o sorriso da vida
- as estrelas que guiam nosso olhar
pelo amanhã,
sinônimo do mar.

14 junho 2012

A estrada das estrelas


Sem que eu soubesse bem por que, lembrei-me do tal sentimento oceânico do qual escreveu Freud. O único indício do rememorar era um vazio colossal no peito. O cotidiano não fazia mais nenhum sentido, Os dias passavam em meio a dores insuportáveis: acordar, trabalhar, pagar contas, cronometrar o tempo - uma espera angustiante e sempre inútil ao se revelar por suas inclusivas tragédias de infelicidade e distopias.

Sair de casa, ir aos mesmos lugares, ouvir e dizer as mesmas coisas para, invariavelmente, as mesmas pessoas, tudo estava contribuindo para que o absurdo se alargasse em mim, aprofundando incertezas e reiterando que um basta precisava ser confeccionado.

Faltava-me o quê? A morte ou a coragem? Qual delas deixaria a iminência e se tornaria manifesta, um algo-pelo-ser eminente? O que eu era de fato, ingênuo, mal-agradecido ou simplesmente um tolo? O que ou quem eu havia me tornado?

Diariamente, de olhos bem abertos ou muito fechados, eu me entregava a contentamentos fúteis. Em minha solidão, tornava companheiras imagens sem cor, sem vida, desconhecidas. O prazer era um vulto no labirinto da memória, essa última empobrecida, judiada pelo tempo infiel. Eu me saciava de instantes, compulsivamente. E como toda compulsão (vício?), a vontade retornava, segundos depois, mais intensa, ainda mais cruel. 

Chorar tornara-se uma rotina. Toda vez que eu era obrigado a me encontrar, falar sobre mim para mim mesmo, as lágrimas compunham o enredo, ocupavam o cenário, protagonizavam o melancólico espetáculo da solidão.

Não havia mesmo com quem conversar. ideias, valores, quereres, nada estava em lugar algum. Eu percebi que minha utopia era encontrar um pouco da minha diferença na igualdade pela qual lutava, em nome de todos, para todos. Não fossem os livros, o vazio teria se transformado numa entidade carnívora, num ceifador da fé: carne e espírito se renderiam ao improvável, àquilo que, por ser previsto e ao mesmo tempo temido, alguns chamam de fim.

Fora de mim, tudo mudava a toda hora. Ânimos e certezas pediram trégua: estavam cansados do trailer da barbárie. A estupidez, que tem o dinheiro como todas as pontas de sua rosa-dos-ventos, aniquilava sonhos, despedaçava futuros. Passivo e completamente alijado das andanças do mundo que me rodeava, vi o filme completo da barbárie, a qual, cínica, acenava sorridente para os novos inimigos. Gritar ou morrer, eis minha questão. De um dilema de Hamlet, vi-me, enfim, na promessa de Guevara. 

A escolha tem de ser feita.

É provável que os pretéritos ditem alguns passos do amanhã. Não sairei ileso disso tudo. Haverá marcas, existirão aqueles passados todos de que falava Marx. O cérebro vivo, para não se tornar uma vítima fácil dos pesadelos de ontem, necessitará revolucionar o agora, para si e em si.

O medo de minha própria história, eu não poderei tê-lo. Ou confio no que tenho sido, ou declaro de uma vez por todas nunca ter sido. A estrada das estrelas existe, apesar de o seu mapa nunca ter sido visto. Talvez seja hora de ir à cata do mundo - de um lugar que possa fazer brilharem as estrelas da vida. A estrada estará logo abaixo da luz. 

09 junho 2012

Adeus (O último microconto)


Foram dois abraços antes da despedida certeira. Em cada um dos abraços pude sentir-lhe o cheiro de vida e paixão; pude sonhar (apenas sonhar) com o doce propósito de um amor que, mesmo sendo pura fantasia, fará parte de mim para sempre. Quando partiu, fiquei a reparar em seu andar, no movimento sedutor e provocante das pernas, dos detalhes daquilo que nem ouso descrever. Tudo nela me desperta inquietudes, no mínimo, desconcertantes. Adeus, morena linda. Levo você entre as coisas que não foram, mas ainda assim fazem de mim o que sou e o que virei a ser.

03 junho 2012

Vontades...



I

Só hoje reparei como ela é bela. Em minha distração cotidiana, deixo que as mais lindas experiências se percam atrás de sombras e pequenos, inúteis desafios. O sorriso, a possível timidez, as curvas da estrada de Santos... Ah, Marco, aprenda a olhar melhor à sua volta: o melhor do mundo pode estar a um sorriso de distância.

II

Vivo desejando muito pouco. Não quero casos nem descasos. Espero um pouco de alegria, um amor meio descontínuo, uma fuga da realidade - um lugar onde eu possa encontrar o sabor da utopia. E eu vi isso naquela morena, a mulher mais bonita do mundo, versão 2.0. Há nela a marquinha que me faz transbordar do equilíbrio, virar meu coração ao avesso. A marquinha, sol e luar, me faz contornar imaginariamente cada pedaço daquele céu. Sim, a morena é puro paraíso em forma de amor impossível.

III

O caminho do mar, quando vejo a morena mais bonita do mundo passar, fica mais próximo dos sonhos e dos meus pés.

IV

A morena mais bonita do mundo andou em meus sonhos esta madrugada. Trouxe um álbum do Pearl Jam. Fizemos amor ao som de "Come Back". Quando acordei, estávamos na praia, brincando na areia, sorrindo para a vida.

V

Havia um instante poético naquele olhar matreiro. Ela olhava para mim e, quando eu retribuía a vista, o sorriso eufórico desconversava. O jeito de menina sapeca comandava meu desejo. Peguei-lhe a mão, atravessamos a rua e cantamos "Alive", do Pearl Jam. Sem sabermos, a vida nos imortalizou: dali em diante estaríamos sempre juntos, eu e a morena mais bonita do mundo.