14 junho 2012

A estrada das estrelas


Sem que eu soubesse bem por que, lembrei-me do tal sentimento oceânico do qual escreveu Freud. O único indício do rememorar era um vazio colossal no peito. O cotidiano não fazia mais nenhum sentido, Os dias passavam em meio a dores insuportáveis: acordar, trabalhar, pagar contas, cronometrar o tempo - uma espera angustiante e sempre inútil ao se revelar por suas inclusivas tragédias de infelicidade e distopias.

Sair de casa, ir aos mesmos lugares, ouvir e dizer as mesmas coisas para, invariavelmente, as mesmas pessoas, tudo estava contribuindo para que o absurdo se alargasse em mim, aprofundando incertezas e reiterando que um basta precisava ser confeccionado.

Faltava-me o quê? A morte ou a coragem? Qual delas deixaria a iminência e se tornaria manifesta, um algo-pelo-ser eminente? O que eu era de fato, ingênuo, mal-agradecido ou simplesmente um tolo? O que ou quem eu havia me tornado?

Diariamente, de olhos bem abertos ou muito fechados, eu me entregava a contentamentos fúteis. Em minha solidão, tornava companheiras imagens sem cor, sem vida, desconhecidas. O prazer era um vulto no labirinto da memória, essa última empobrecida, judiada pelo tempo infiel. Eu me saciava de instantes, compulsivamente. E como toda compulsão (vício?), a vontade retornava, segundos depois, mais intensa, ainda mais cruel. 

Chorar tornara-se uma rotina. Toda vez que eu era obrigado a me encontrar, falar sobre mim para mim mesmo, as lágrimas compunham o enredo, ocupavam o cenário, protagonizavam o melancólico espetáculo da solidão.

Não havia mesmo com quem conversar. ideias, valores, quereres, nada estava em lugar algum. Eu percebi que minha utopia era encontrar um pouco da minha diferença na igualdade pela qual lutava, em nome de todos, para todos. Não fossem os livros, o vazio teria se transformado numa entidade carnívora, num ceifador da fé: carne e espírito se renderiam ao improvável, àquilo que, por ser previsto e ao mesmo tempo temido, alguns chamam de fim.

Fora de mim, tudo mudava a toda hora. Ânimos e certezas pediram trégua: estavam cansados do trailer da barbárie. A estupidez, que tem o dinheiro como todas as pontas de sua rosa-dos-ventos, aniquilava sonhos, despedaçava futuros. Passivo e completamente alijado das andanças do mundo que me rodeava, vi o filme completo da barbárie, a qual, cínica, acenava sorridente para os novos inimigos. Gritar ou morrer, eis minha questão. De um dilema de Hamlet, vi-me, enfim, na promessa de Guevara. 

A escolha tem de ser feita.

É provável que os pretéritos ditem alguns passos do amanhã. Não sairei ileso disso tudo. Haverá marcas, existirão aqueles passados todos de que falava Marx. O cérebro vivo, para não se tornar uma vítima fácil dos pesadelos de ontem, necessitará revolucionar o agora, para si e em si.

O medo de minha própria história, eu não poderei tê-lo. Ou confio no que tenho sido, ou declaro de uma vez por todas nunca ter sido. A estrada das estrelas existe, apesar de o seu mapa nunca ter sido visto. Talvez seja hora de ir à cata do mundo - de um lugar que possa fazer brilharem as estrelas da vida. A estrada estará logo abaixo da luz.