21 julho 2012

Sob a chuva

A atriz Marjorie Estiano, fotografada por Autumn Sonnichsen, 
em ensaio para a Revista Trip


Em meio aos mundos
d'água, dou passos
leves e evito
molhar os sonhos.

Andar sob a chuva é
um itinerário entre
o pensamento que quer
e a reflexão sobre o que se quis
um dia, todo dia,
pelos dias...

A boca seca é
o paradoxo das sensações
e a negação do alívio.

Engulo sem querer
tido tipo de profanação,
da recusa da mulher
mais bonita do mundo aos
desejos que insistem em
me castigar.

Andar sob a chuva
é não esquecer que
um amor novo explode
todo dia no meu peito -
um amor que só vê, sente e quer a Lua.

14 julho 2012

Uma lua na ponte


Nunca esquecerei aquele olhar. Já escrevi tanta coisa sobre ele, direta ou indiretamente. Ele me pegou em cheio numa manhã sem graça, uma segunda-feira das mais desestimulantes e menos promissoras.

A dona do olhar, do raio distráido que me tirou do meu mundo de pensamentos e vastas tentativas de conjecturas, é menina jovem, linda, perfeita. Os olhos, matéria-prima de toda aquela viva sedução, são só um detalhe que completa lábios, pele que faz suspirar, paixão que inspira devaneios, desejos inconfessáveis.

Para além do olhar, do rosto preenchido por delicados e especiais itens do divino, nada sei dela. Lembro apenas o comportamento sereno, o silêncio marcante, o andar que paralisava meu coração: as batidas dentro do peito cessavam, estupefatas por assistir a um anjo flutuar diante de mim, rabiscando versos em minha imaginação.

Hoje, longe dela, sem vê-la, sem poder admirá-la à paisana, escondido atrás da verdade que existe só em meu corpo, nos instantes delirantes da solidão máxima, sinto-a como uma lua, esse objeto diante do qual poetas contemplam palavras e expressões d'alma. A lua é o rosto dela que me visita todas as noites.

Caminhando, da janela do meu apartamento, dirigindo o carro, vivo em busca da lua perfeita. Não sei por que, mas o sorriso dela me promete surgir na luz do luar, na beleza que torna os ceús estrelados magia e pulsão por mais, muito mais vida e paixão.

A lua daquele olhar - da promessa do sorriso decisivo - é também uma passagem, por meio da qual encontro a mim mesmo, meus mistérios, minha incompletude. Ao desenhar seu rosto na lua, construo pontes, elos entre o que sou e o que insisto sonhar ser. Ela é minha lua sobre a ponte, a vontade que aproxima distâncias e ama diferenças. Lua. Na ponte.

11 julho 2012

Por que me mantenho à esquerda

Acredito muito na força das grandes ideias. Ao mesmo tempo, desconfio de dissabores repentinos, arrependimentos ao pôr-do-sol. Nesse sentido, sou adepto da autocrítica como emblema da coerência de propósitos.

O filósofo Emile Auguste Chartier (1868-1951) escreveu que, ao se defrontar com alguém que negasse a dicotomia “esquerda/direita”, observava bem a pessoa e logo percebia que ela nunca era de esquerda. É certo que motivos para a negação não devem faltar.

Estar ao lado daqueles a quem foi negado provar o gosto das frutas (os “de baixo”, como ensinou Florestan Fernandes) é tarefa árdua e ajuda a acumular derrotas. Muito mais fácil é olhar para o mundo e propor que tudo permaneça como é e está, dedilhando pequenas alterações, culpando o miserável pela miséria e o trabalhador pelas injustiças da vida. É simples e bastante dissimulado gritar por aí que tudo depende de cada um e que toda força coletiva é sempre autoritária e endemoninhada.

Há essências que o universo das aparências mercadológicas não contempla: o conhecimento, a afetividade que humaniza, a arte desinteressada, o amor incondicional... Nas cercanias do dinheiro, tudo isso é valor de troca, banalidades que impedem a acumulação de bens, posses e status distintivo.

Nasci, cresci e pretendo morrer à esquerda por julgar sinceramente que a vida pode ser muito mais, que os sonhos precisam se arriscar pela contramão. À esquerda, vejo-me em paz para lutar pela liberdade e questioná-la em suas adulteradas modalidades mercantis e exclusivistas. À esquerda, assisto ao ideal da igualdade como indiscutível, inegociável, e à força da soberania popular como protagonista da verdadeira felicidade.

À esquerda, sinto e sei que o coração bate em sua morada certa, acolhedora, com olhos e alma transparentes. À esquerda não há por que se vender – o que está por vir (o futuro que certamente podemos influenciar) não tem nem terá preço. Insisto ser assim porque levo no peito essa coragem de desdizer quem se acomoda no dado, tido, irrefletido. A teimosia que me move deu vida também a todos que nunca tiveram medo nem vergonha de erguer bandeiras reveladas como justas, ainda que negadas e combatidas duramente pelos injustos.

Caminhando pela esquerda, vejo a vida acenar com cores de paz e amorosa convivência para o amanhã que terá em si a memória de todas as lutas, todas as utopias de sangue e esperança.

Sem ódios nem apelos ao outro mundo (aquele que existe na cabeça e nos desejos de quem só vê neste aqui pecado, erro e discórdia como itens da natureza e da inevitabilidade), quero viver e forjar o tempo daqueles que virão, dar-lhes pistas, abraços, mapas para a festa. Mantenho-me à esquerda porque meu povo é a humanidade e minha pátria, o planeta inteiro.

02 julho 2012

O pecado azul


Ela ainda não tinha nenhuma tatuagem. O corpo, longe, muito longe da escultura que tantos conhecem, era todo imperfeito nos detalhes da sua feminina perfeição. Talvez por isso eu tenha me apaixonado tão rapidamente por aquelas imagens do passado, vivas, cheias de história e pulsão.

A desinibição - a desfaçatez impressionante que ela transmite até hoje por meio de um paradoxal firme olhar - revelou-se a marca de uma jovem mulher costurada pelo tempo. No filme antigo, fotogramas de uma intimidada libido, destatuada e fora de forma, a musa marginal vestia-se de azul, resvalando no kitsch. Tudo, tudo muito artificial e performático: gemidos, caras e bocas. O amadorismo saltitante, contudo, traiu meu ceticismo. Amei-a como nunca antes. Perdi sono e ganhei sonhos com a visão de uma mulher hiper-real, recheada das incongruentes e proibidas delícias do mundo.

O nome de guerra (uma ficção que certamente inspira intranquilidades e povoa delírios compulsivos) aguça a destemperança: no ponto alto de si mesma ou na estrada insólita do próprio alvorecer, ela é musa, deusa do meu absurdo.