02 julho 2012

O pecado azul


Ela ainda não tinha nenhuma tatuagem. O corpo, longe, muito longe da escultura que tantos conhecem, era todo imperfeito nos detalhes da sua feminina perfeição. Talvez por isso eu tenha me apaixonado tão rapidamente por aquelas imagens do passado, vivas, cheias de história e pulsão.

A desinibição - a desfaçatez impressionante que ela transmite até hoje por meio de um paradoxal firme olhar - revelou-se a marca de uma jovem mulher costurada pelo tempo. No filme antigo, fotogramas de uma intimidada libido, destatuada e fora de forma, a musa marginal vestia-se de azul, resvalando no kitsch. Tudo, tudo muito artificial e performático: gemidos, caras e bocas. O amadorismo saltitante, contudo, traiu meu ceticismo. Amei-a como nunca antes. Perdi sono e ganhei sonhos com a visão de uma mulher hiper-real, recheada das incongruentes e proibidas delícias do mundo.

O nome de guerra (uma ficção que certamente inspira intranquilidades e povoa delírios compulsivos) aguça a destemperança: no ponto alto de si mesma ou na estrada insólita do próprio alvorecer, ela é musa, deusa do meu absurdo.