14 julho 2012

Uma lua na ponte


Nunca esquecerei aquele olhar. Já escrevi tanta coisa sobre ele, direta ou indiretamente. Ele me pegou em cheio numa manhã sem graça, uma segunda-feira das mais desestimulantes e menos promissoras.

A dona do olhar, do raio distráido que me tirou do meu mundo de pensamentos e vastas tentativas de conjecturas, é menina jovem, linda, perfeita. Os olhos, matéria-prima de toda aquela viva sedução, são só um detalhe que completa lábios, pele que faz suspirar, paixão que inspira devaneios, desejos inconfessáveis.

Para além do olhar, do rosto preenchido por delicados e especiais itens do divino, nada sei dela. Lembro apenas o comportamento sereno, o silêncio marcante, o andar que paralisava meu coração: as batidas dentro do peito cessavam, estupefatas por assistir a um anjo flutuar diante de mim, rabiscando versos em minha imaginação.

Hoje, longe dela, sem vê-la, sem poder admirá-la à paisana, escondido atrás da verdade que existe só em meu corpo, nos instantes delirantes da solidão máxima, sinto-a como uma lua, esse objeto diante do qual poetas contemplam palavras e expressões d'alma. A lua é o rosto dela que me visita todas as noites.

Caminhando, da janela do meu apartamento, dirigindo o carro, vivo em busca da lua perfeita. Não sei por que, mas o sorriso dela me promete surgir na luz do luar, na beleza que torna os ceús estrelados magia e pulsão por mais, muito mais vida e paixão.

A lua daquele olhar - da promessa do sorriso decisivo - é também uma passagem, por meio da qual encontro a mim mesmo, meus mistérios, minha incompletude. Ao desenhar seu rosto na lua, construo pontes, elos entre o que sou e o que insisto sonhar ser. Ela é minha lua sobre a ponte, a vontade que aproxima distâncias e ama diferenças. Lua. Na ponte.