30 agosto 2012

O antivalor da liberdade no mundo contemporâneo


 Apresentei ontem, dia 29/08/2012, uma reflexão sobre a liberdade na encruzilhada da moderna sociedade de consumo e de proliferação do que nominei "antivalores". O evento foi na UNOPAR, insituição em que atuo, numa promoção conjunta com a Pastoral da Juventude e outras IES da cidade. Abaixo, o texto que redigi para orientar minha apresentação.


O gigante pensador italiano Antonio Gramsci (1891-1937) afirmava que uma crise se instaura quando o velho já se foi e o novo ainda não se faz presente. Esse hiato, em que os valores estão em profunda e caótica mutação, é o período de crise, o momento em que todas as possibilidades se abrem e a luta política e cultural se faz necessária e mais do que nunca urgente.

A ideia de valores anda surrada em nosso tempo. Seus imediatos parceiros, como a ética e o exercício coletivo de cidadania, andam desacreditados, desalinhados. Como em todo momento de crise, os indivíduos buscam refúgio em si mesmos, amedrontados, desconfiados de tudo e de todos. Os sentimentos fraternos se tornam um peso, um gasto de energia que poderia ser orientada para outros fins. É aí que reside o desafio dos contemporâneos: que fins são esses que precisam de toda a nossa atenção e merecem os nossos esforços mais desmedidos?!
 
A hipercompetitividade tornou as pessoas mais pragmáticas, em busca do ouro da utilidade. Para que servem as coisas, o que se ganha com tais atitudes, se é lucrativo, se oferece vantagem e benefícios imediatos, tais são as pistas que a maioria busca, quase todos desejam capturar nas ruas do mundo. De um modo bastante categórico, é possível afirmar que essas inquietações são na verdade antivalores, na medida em que não postulam partilhas e experiências que enriqueçam de forma perene e duradoura o eu e o universo. Na velocidade do “cada um por si e Deus por todos”, perde-se o essencial da convivência, ou seja, o tempo e a humildade para a autocrítica; o respeito pelo outro e o desejo dele se aproximar.
 
A ansiedade, o individualismo, a crença de que no consumo reside a felicidade verdadeira da vida, tudo isso acaba por nortear o comportamento das novas gerações. O nó mais górdio dessa experiência generalizada é que todos, os “de ontem”, os “de agora” e os “de amanhã”, uns mais, outros menos, serão contaminados pela mesma lógica. Quando o assunto são valores, é imprescindível que sejamos capazes de refletir em termos globais, no âmbito da totalidade. Não existem projetos sociais que alcancem alguns e ignorem outros – com maior ou menor intensidade, se uma prática ou uma mentalidade se transforma em valor, o tecido social todo sofre contágio, disseminando por todos os indivíduos, grupo e classes sociais uma mesma visão de mundo, um mesmo mapa de conduta.
 
Nesse sentido, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, num belíssimo livrinho chamado “Renovar a teoria crítica e reinventar a emancipação social”, publicado pela Boitempo Editorial em 2007, oferece algumas indicações de reflexão para a questão sobre nossas formas de conviver numa realidade marcada pela hegemonia neoliberal e acerca de “alternativas às alternativas” que estão dadas pelo conformismo e pela resignação. No centro do debate de Sousa Santos estão os pressupostos epistemológicos, relacionados como o que podemos e devemos conhecer, os ontológicos, acerca de como ainda podemos sonhar em nos humanizar, e os axiológicos, ligados ao conjunto de valores que devemos, no mínimo, refundar para uma vida mais decente, prudente e abrangente.
 
O conhecimento não é único nem neutro. O desafio das gerações em curso é saber usar os saberes técnicos e científicos para a edificação de valores mais inteligentes e solidários. A Internet é um caso emblemático dessa via crucis dos valores na contemporaneidade. Como toda descoberta técnico-científica, os sites de busca e as redes sociais, por exemplo, são coisas positivas, uma vez que potencializam atividades produtivas, ajudam na organização de ideias, aceleram processos comunicativos, põem em contato direto realidades que nunca se aproximariam fora do ambiente virtual. O problema está em politizar essas tecnologias, no melhor sentido que se possa atribuir à palavra política. Quais usos serão feitos dessa ferramenta? Que papel terão nas escolas e universidades, nos ambientes de trabalho, no exercício difícil da solidão de cada indivíduo?
 
Conhecer bem, portanto, é sinônimo de humanizar o que se conhece. Existem muitas formas de ser, sentir e viver, ainda que a hegemonia neoliberal do pensamento único pregue diuturnamente o contrário. Em sendo assim, é urgente que a diversidade cultural ganhe o mundo, possa existir de fato, democrática e francamente. As lutas sociais pelos direitos indígenas, negros, homoafetivos, para destacar somente alguns, são contundentes exemplares de quão rica é a experiência da vida. Ampliar o espectro da vez e da voz para mais gente significa mais humanização, mais partilha, mais reciprocidade e crescimento coletivo. Nesses termos, o que é do humano, sua ontologia, passaria a responder pelo plural e diverso, nunca jamais pelo singular e particular.
 
De repente, lembrei-me de Charles Wright Mills (1916-1962), um clássico e indispensável sociólogo estadunidense, que lançou em 1959 uma obra obrigatória, “A imaginação sociológica”. Acredito que a lembrança se tenha dado porque, afinal de contas, escreve, com muito bom humor, o autor de “Os marxistas”: assim como o sapateiro gosta de couro e o marceneiro aprecia a madeira, o sociólogo gosta mesmo é da Sociologia. E Boaventura de Sousa Santos, como exímio profissional das veredas sociológicas, propõe, para uma reinvenção dos valores do nosso coexistir, uma Sociologia das Ausências e uma Sociologia das Emergências – a primeira visa a diagnosticar o que há de errado nas formas do viver juntos; a segunda busca saídas, indicações de caminhada rumo a uma sociedade melhor, de gente efetivamente livre e igual.
 
A Sociologia das Ausências quer encontrar o não existente, aquilo que foi ocultado na dinâmica da vida social e da luta política e cultural. Tudo que foi censurado, invalidado e exilado precisa vir à tona para explicar o que foi feito dos silenciados, dos vencidos, dos cooptados e arrependidos. Hoje, na era do discurso de via única, parece que há verdades inquestionáveis, práticas e impressões categóricas. Essa monocultura, como muito bem a define Sousa Santos, estabelece o elitismo do saber científico e técnico como regra; o tempo como algo linear, inevitavelmente em ritmo de progresso e futuro; a naturalização das diferenças e desigualdades sociais; a universalização de padrões de vida e de perspectivas; os critérios de produtividade e eficiência por tabelas e planilhas eletrônicas ávidas por números. Trocando em miúdos: ou se pensa pelos cânones oficiais, ou não se pensa; ou se faz o que se pede de cima para baixo, ou mais prudente será não fazer; ou se culpa o pobre pela pobreza, ou se está equivocado na análise; ou se dissemina isso como valor absoluto, ou se corre o risco de alguém resistir, encarar o bom combate, fazer naufragar os desejos de domínio do atual “deus mercado”, o mais despótico e cruel dos entes divinizados pelo capital e pelo egoísmo dos fascistas - esses que se escondem atrás de discursos leves e negam conduzir ações bárbaras e medievais no trato com o ser humano. 

Parceiro do diagnóstico das ausências, que se movem no campo das experiências sociais, está o trabalho das emergências, que se articulam em torno das expectativas sociais. Nesse sentido, o conceito que dirige a Sociologia das Emergências é o “ainda-não”, costurado por Ernst Bloch (1885-1977), em sua exuberante obra “O princípio esperança”. O “ainda-não” existe como latência, como possibilidade; é o modo como o futuro se inscreve no presente. O “ainda-não”, do ponto de vista subjetivo, é a consciência emancipatória (uma vez que antecipatória) que permite planejar, sonhar, enfrentar o objetivo, o imponderado. Do ponto de vista objetivo, ele é capacidade (potência) e possibilidade (potencialidade). A possibilidade, por não ter todos os seus elementos reconhecidos, gera incertezas e produz certa escuridão. Como possibilidade, no entanto, o “ainda-não” se revela uma chance, tanto de utopia e salvação quanto de catástrofe e perdição.
 
Quais as chances reais de que o “ainda-não” se preste a opções mais generosas de futuro?
 
Os remédios para o mal do antivalor do egoísmo, do consumismo, da ansiedade e da falta de repertório cultural para uma vida decente e ética, como, de resto, para uma vida simplesmente melhor, passam pela criação de horizontes mais iluminados, mais inclusivos, menos competitivos. Num mundo orientado pela competição e pela pouca solidariedade, tornamo-nos pouco cooperativos, quase nada fraternos. É possível e desejável acreditar que numa realidade em que os valores gerais estimulem a cooperação e a verdadeira empatia, tornemo-nos, digamos, humanos de fato. Mais do que uma opção, o enfrentamento corajoso do mundo dos antivalores é a nossa única e última saída. É isso.

18 agosto 2012

Na ponte, a flor


Uma flor de amor existe
dentro e fora dos
jardins.

Nas ruas e nos
caminhos
vividos,
flores perfumam
os sonhos e adoçam
os dias.

Lembrei, então, que
vi na lua uma linda
flor, uma inesquecível
ponte.

Ao desenhar em minhas
ideias o sorriso
daquela flor
(sim, flores sorriem),
permiti que um
imenso jardim ilustrasse
meu dia, colorisse
minhas horas, reinventasse
meu tempo.

Uma flor na lua, uma ponte
linda, florida,
deslumbrante.