26 setembro 2012

O esperado doce beijo


Houve um esfriamento. Não sei se ela entendeu e não gostou, se ela entendeu e está com medo, se ela sequer sabe do que ando escrevendo e sentindo. O sorriso daquela mulher que tanto me perturba desapareceu. Eu continuo ao longe, separado por uma parede de vidro e uma tela no alto de uma parede, observando o doce de sua beleza, a beleza de toda a sua doçura. Hoje à noite ela está de cachecol, uma bela e charmosa medida para um frio fora de estação, em pleno tempo das flores. Bom, ela permanece minha flor, minha estação das cores. É provável que ela viva para sempre somente na minha cabeça, na fantasia que viaja a toda hora do coração ao desejo e do desejo ao coração, frenética, humana, pura expressão de felicidade. Morena, leve, de outras pessoas e de outras realidades. Apesar de admitir que ela não existe para mim, eu sigo insistindo em imaginar que, em algum lugar, de alguma breve e inesperada maneira, o beijo irá acontecer. Ah, o beijo...

20 setembro 2012

Um pedaço dela




Novamente a pequena tela vista a distância me pôs diante dela. Ontem, além de destinar a ela uma piscadela e um sorriso bem desajeitado, toquei-lhe apaixonadamente o braço, sentindo que alguma coisa em mim clamava por um pedaço dela, um simples fragmento. Um beijo, um sorriso, uma entrega, uma só. De tudo, eu queria um pedaço, um momento daquela morena de cabelos pretos, intensos, olhar suave, fragilidade cativante. As mãos para lá e para cá punham em movimento meu desejo, minhas inconfessáveis fantasias. Pena não poder ouvir a voz dela. Eu sou da turma de cá, tenho de vê-la de longe, às ocultas, querendo aquela mulher mais do que a tudo neste mundo. Terei um pedaço dela? Ouvindo “Smile”, do Pearl Jam, imaginei que com ela – ou com um simples pedacinho dela - eu poderia, enfim, renascer.

13 setembro 2012

Doçura proibida


 O que eu queria de verdade não tinha nada a ver com "aprender o que preciso aprender". Isso foi uma desculpa, uma forma que encontrei para me aproximar. Eu queria mesmo era vê-la, ficar pertinho, derreter-me diante dessa paixão que me consome, conta as horas, invade meus sonhos e fantasias. Eu queria sentir o cheiro dela, desenhar na retina os movimentos suaves de tanta delicadeza ao falar, ao piscar, ao sorrir. Ela não entendeu. Ficou com medo e se esquivou. Ainda assim, longe, fiquei diante de uma tela, cuja distância de mim a tornou tão pequena, sem voz... No delírio das loucas coisas que ando sentindo sem tréguas, fiquei lá, sonhando, querendo o impossível, viajando nos destemperos do amor anônimo e proibido.

07 setembro 2012

Sexto Round



Em meus braços
a lua sorria,
o mais brilhante e
encantador sorriso
do universo.

Enquanto o beijo
nos ensinava seus caminhos,
nós, jovens aprendizes
de um amor intenso,
pretenso,
escandaloso consenso,
fitávamos a alma um do outro -
ela, olhos da lua,
jurava ser ali seu lugar,
em braços meus;
eu, coração menino,
apenas concordava e
ampliava o aconchego.

A boca da lua,
ilustrada pelo olhar,
profundo, livre,
feminino,
injetava ânimo:
um, dois, três,
quatro, cinco,
seis rounds -
tarde, noite,
manhã seguinte,
só houve tempo
para o exercício
do amor.

Aos quarenta
descobri amar
na lua de vinte anos,
tão menina, tão viva.
O mistério, a fonte
de uma juventude
que ainda está em mim,
no peito, na raça,
na ponte em que a vi,
logo amei, a lua
devolveu a mim
a poesia perdida.

Ah, a boca da lua,
o sorriso de tanto
brilho, júbilo,
pureza...

O cheiro, o gosto
da lua, a suave camada
de pele que fez tremer
meu corpo, fluir o
desejo por minhãs mãos,
de um sujeito,
de vida, só êxtase...

Na ponte, sonhei
amar a lua.
Agora, vivo
acordado,
à espera, confiante,
a fitar a boca
do céu -
horizonte.

01 setembro 2012

A liberdade

"Liberdade" (2003), de Isabel Alfarrobinha (óleo sobre tela)

Cecília Meireles escreveu que a liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta, é algo que ninguém explica e todo o mundo entende.

Ser livre é sentir que a liberdade foi, é e será sempre muitíssimo bem-vinda. O estado de ser livre reclama o ar do mundo, a água da vida, a terra da estrada. Mais, muito mais do que uma condição que possa ser comungada por meio de coisas, metérias, a liberdade é uma comunhão explícita de ideias. Por serem tão explícitas, as ideias livres partilham tudo, importam-se umas com as outras, protegem-se, prolongam alianças em nome do futuro.

Nesse sentido, a liberdade é responsabilidade, uma condenação, como afirmou Jean-Paul Sartre. Não cabe ao humano optar pela liberdade. Para que se faça o humano, a liberdade é a única e inadiável saída. Por ser livre, o ato humano é integralmente ligado a todos a sua volta - pelas gerações de ontem, de hoje e de amanhã será sempre responsável, eternamente lembrado, cobrado, animado.

Toda escolha é livre. Sendo humana, só pode ser livre. Contudo, é amplamente livre aquela que antevê seus desdobramentos, evita fabricar injustiças e se nega a calibrar desigualdades. Há na liberdade um fio condutor que alinha toda a espécie, conduz por caminhos nos quais cedo ou tarde os indivíduos irão se encontrar.

O atu humano que quer ser livre sozinho não consegue alcançar nem a verdadeira liberdade, nem a humanidade em sua essência. Aquele que, olhando para todos os lados, só vê a si mesmo não é humano, posto que não é livre. Antes, de maneira melancólica, realiza-se na escravidão, na falsa crença de que se basta.

Os que creem no empreender solitário, no poder da propriedade e na tinta do capital só querem um mundo livre para o mercado. Os que veem a liberdade como um exercício pleno da cidadania, mais abrangente, inclusivo e orientado por valores radicais, com ampliação e conquista progressiva de direitos, vez e voz, ainda carecem de uma autocrítica árdua em face de sua tradição já secular - e importantíssima para a humanidade.

Eu, de minha parte, livre e em comunhão com o mundo, quero ver a lua na ponte, aquele brilho que tanto me representa o verdadeiro e retumbante amor.