01 setembro 2012

A liberdade

"Liberdade" (2003), de Isabel Alfarrobinha (óleo sobre tela)

Cecília Meireles escreveu que a liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta, é algo que ninguém explica e todo o mundo entende.

Ser livre é sentir que a liberdade foi, é e será sempre muitíssimo bem-vinda. O estado de ser livre reclama o ar do mundo, a água da vida, a terra da estrada. Mais, muito mais do que uma condição que possa ser comungada por meio de coisas, metérias, a liberdade é uma comunhão explícita de ideias. Por serem tão explícitas, as ideias livres partilham tudo, importam-se umas com as outras, protegem-se, prolongam alianças em nome do futuro.

Nesse sentido, a liberdade é responsabilidade, uma condenação, como afirmou Jean-Paul Sartre. Não cabe ao humano optar pela liberdade. Para que se faça o humano, a liberdade é a única e inadiável saída. Por ser livre, o ato humano é integralmente ligado a todos a sua volta - pelas gerações de ontem, de hoje e de amanhã será sempre responsável, eternamente lembrado, cobrado, animado.

Toda escolha é livre. Sendo humana, só pode ser livre. Contudo, é amplamente livre aquela que antevê seus desdobramentos, evita fabricar injustiças e se nega a calibrar desigualdades. Há na liberdade um fio condutor que alinha toda a espécie, conduz por caminhos nos quais cedo ou tarde os indivíduos irão se encontrar.

O atu humano que quer ser livre sozinho não consegue alcançar nem a verdadeira liberdade, nem a humanidade em sua essência. Aquele que, olhando para todos os lados, só vê a si mesmo não é humano, posto que não é livre. Antes, de maneira melancólica, realiza-se na escravidão, na falsa crença de que se basta.

Os que creem no empreender solitário, no poder da propriedade e na tinta do capital só querem um mundo livre para o mercado. Os que veem a liberdade como um exercício pleno da cidadania, mais abrangente, inclusivo e orientado por valores radicais, com ampliação e conquista progressiva de direitos, vez e voz, ainda carecem de uma autocrítica árdua em face de sua tradição já secular - e importantíssima para a humanidade.

Eu, de minha parte, livre e em comunhão com o mundo, quero ver a lua na ponte, aquele brilho que tanto me representa o verdadeiro e retumbante amor.