25 outubro 2012

Incêndios


A notícia corria solta. No bairro vizinho, mais um incêndio, mais uma terrível surpresa ao cair da tarde.

Maria vivia sozinha. Viúva, mãe de cinco filhos, todos casados, dados ao mundo de nosso Deus, dividia-se entre o passar das horas e o contar das moedas. Num charmoso pote de bolachas, insuspeito, guardava o dinheiro da humilde pensão que recebia do INSS e um pouco da ajuda igualmente modesta que recebia dos filhos. A casa, um pouco de alvenaria, muita madeira e improviso arquitetônico, era arrumada, até que bem organizada, na fronteira do difícil possível. É fato que os limites de espaço e o pobre mundo à volta impediam que seu lar pudesse aspirar a paraíso.

Além do bairro vizinho, que no momento ardia em chamas, várias outras favelas da região haviam sofrido com estranhos e temerários incêndios nos últimos meses. Semana sim, semana não, carros de bombeiros, defesa civil, viaturas policiais e câmeras de TV alteravam a pacata cena cotidiana da área. Ao longe, no horizonte, prédios altos e luxuosos brincavam com os sonhos que quase todo o mundo por ali já havia perdido.

Maria observava, sem entender muito bem, que, após cada novo e misterioso fogaréu, os prédios ficavam mais próximos do seu olhar e aumentavam em número. Aos poucos, percebeu também que os grandes espigões de concreto estavam cercando os bairros pobres da sua gente; que havia sempre mais policiais nas redondezas; que gente de terno, gravata, capacete de obra e carrões luxuosos frequentava quase todos os dias as ruas da comunidade, medindo chão, apontando matas e córregos. Maria não sabia quem eram aquelas pessoas. Sabia apenas que elas chegaram junto com o fogo – e que também aumentavam em número depois de mais um danoso e cruel incêndio.

O bairro de Maria pegou fogo pouco tempo atrás. Ela vive hoje num albergue, perdeu tudo, bens, amigos, esperança. No chão da favela em que criou os filhos estão agora caminhões, tratores, operários e muitas vigas de concreto. À entrada, um outdoor: “Lançamento, luxo total, com dois ou três quartos, duas suítes e duas vagas na garagem – o paraíso chegou para você”.

22 outubro 2012

Microcontos da Loucura - uma breve trilogia

I.
Na palavra delicada, exibida em caracteres eletrônicos, ressurgiu a possibilidade do amor inconsequente, essa forma única se de apaixonar verdadeiramente por alguém.

II.
Em minhas ideias, todas elas tomadas pela delirante ansiedade de dar a mim mesmo o mais sangrento e doloroso dos prazeres, a única coisa que importava era torcer para o tempo voar.

III.
Eu quis ver um sorriso de vontade naquele "vamos ver". Deitei-me. E controlei - segurei - o tesão.

09 outubro 2012

Ela


O que mais penso
é se ela pensa em mim.
O que mais quero
é saber se ela apanha
os sinais que
envio,
nos quais insisto,
que se tornaram
o ar que,
já faz algum tempo,
todo o tempo,
eu respiro.

Ela é jovem demais,
uma menina-mãe,
aura de anjo;
corpo inteiro,
mulher dos pés
à cabeça...
Aliás, que pés!
Os mais lindos,
com os quais
desejo, lado a lado,
caminhar,
até o fim,
com um fim,
nosso,
inteiramente nosso.

Já versei sobre
seus olhos,
sua boca,
o olhar penetrante,
o sorriso mágico.

Menina,
tão menina,
uma mulher de
paradoxos, histórias
insolúveis, atraentes,
sedutoras até perder
de vista,
as vistas,
todo o juízo.

Ela é o doce que me dá
água na boca,
no tempo,
na paixão platônica
da minha vida.

01 outubro 2012

Basorexia


A palavra que explica o que sinto quando me sento ao lado dela surgiu-me no auge do incontrole. Perto ou longe, em verdade, nítida ou sombreada, a imagem da doce morena de sorriso galático me incita ao crítico e perturbador desejo de beijá-la. Ao dormir e ao acordar, beijá-la é tudo em que penso.

O beijo, o toque dos lábios, o movimento do rosto, as mãos a acariciar nuca e cabelo... Pela primeira vez, o amor começa e se encerra num beijo para mim. Nada mais é necessário. Eu realmente não cotejo outra coisa: quero morrer e renascer naquele beijo.

Descubro, então, que sofro de basorexia, um despudorado impulso por beijar aquela mulher de olhos negros e gargalhada deliciosa. A boca doce, imagino, será meu veneno-remédio.