15 novembro 2012

Fraternidade

"Mulheres Protestando", de Di Cavalcanti (1941)

Numa sociedade de homens e mulheres realmente livres e iguais, a fraternidade é o prato principal. Se a igualdade pressupõe uma substância que reúna as pessoas e a elas garanta um mesmo convívio em condições efetivamente paritárias, a liberdade é o estilo que se impõe por cada indivíduo e por cada comunidade. Ser livre para render homenagens à igualdade. Ser igual para fazer uso humano e inteligente da liberdade. O elixir de ações ricas e integradoras é, no fundo e na superfície, um sujeito fraterno.

Se estender a mão para oferecer palavras e gestos de solidariedade é ser fraterno, bom para o mundo que nós o sejamos.

Se olhar para o outro é admitir que nada somos sem a comunhão com o mundo, excelente, então, que lutemos para disseminar laços de irmandade, como se estivéssemos sempre numa gigantesca ciranda, de mãos dadas.

A constatação da fragilidade humana e da responsabilidade que temos uns pelos outros, a partir das escolhas que fazemos diariamente, é tempo que se abre para a fraternidade – muito mais que humanos, somos irmãos; para muito além de irmãos, somos filhos dos dias, como ensina Galeano, feitos de átomos e de infinitas histórias.

A fraternidade é pura pedagogia. Ela desonera o bem e o mal em face dos problemas do mundo. O ser fraterno entende que a fome, a exclusão e a miséria, por exemplo, são produto da atividade humana gananciosa e do estímulo à egolatria e à hipercompetitividade. Num mundo em que o mercado virou “lei natural”, a fraternidade estimula a inquietude e a rebelião: é preciso gritar contra a naturalização da injustiça. Isso é liberdade. Isso é fraternidade. Assim poderemos vislumbrar a igualdade.

A fraternidade, enfim, não é caridade nem compaixão, simplesmente. É humanismo, ou seja, a certeza de que o universo a todos pertence. Um pouco mais: ela, a fraternidade (irmã gêmea do humanismo mais radical), é imensa partilha - a única forma de exercitar a paz e o verdadeiro amor.