15 novembro 2012

Igualdade

"Suíça", de Paul Klee (1929)

A palavra igualdade inspira nobres sentimentos. À igualdade costumamos reservar nossos melhores gestos e nossas mais preciosas palavras. Queremos para nós a igualdade. O problema é que muitas vezes negamos aos outros o direito de ser iguais a nós.
 
Mais do que uma palavra de ordem contra injustiças e destemperos daqueles que detêm o poder, a igualdade é um impulso da alma, um movimento da vida. É difícil admitir que pessoas possam não ter as mesmas oportunidades, que não sejam vistas na inteireza de sua humana dignidade, que não possam reivindicar igualdade de tratamento em situações de cruel dessemelhança, preconceito ou exclusão. A igualdade, nesse sentido – e no discurso, pelo menos -, é uma unanimidade.
 
A igualdade perde prestígio, contudo, quando cutuca privilégios, quando questiona velharias, quando aponta mazelas que dão dinheiro e status a uns poucos mundo afora.
 
Toda vez que a igualdade sugere enfrentamentos contra aqueles que enriquecem e contra as injustiças que empoderam uns e outros, ela é confrontada com a liberdade. Os privilegiados e os injustos vivem gritando que têm a liberdade de ser privilegiados e de se beneficiarem da injustiça. Dizem esses, digamos, indivíduos: “Nunca haverá igualdade onde não há liberdade.” E a igualdade, indignada, pergunta a eles: “E haverá igualdade num mundo em que a liberdade pertence a alguns poucos, como uma cara e rara relíquia?”.
 
É falsa, de má-fé e de profunda desonestidade intelectual a separação entre igualdade e liberdade. Os liberais, frise-se de passagem, historicamente, puseram-se contra a democracia por ver nela o crescimento da participação popular na política. (Estão aí os escritos de Benjamin Constant, Tocqueville, Mosca e Schumpeter para comprovar.)
 
Hoje, num mundo em que cinicamente todos se dizem democratas, é preciso separar e destacar quem vê a liberdade como matéria-prima da luta por construção da igualdade e quem articula liberdade e desigualdade, destacando privilégios e riquezas incompatíveis com um mundo tão duro e desumano. Nessa diferença está o verdadeiro sentido da liberdade.