30 dezembro 2012

Coração do mundo II


Era só um pedaço de mim
que se perdeu,
do todo, de tudo,
daquela longa
caminhada.

Por anos,
um tempo maior que o necessário,
o pedaço voou solitário,
sem desconfiar
que ele era mais
do que o próprio tempo,
menos do que um castigo,
superior à dor do coração.

Tricolor, um cavaleiro de paz,
vigor e esperança,
encontrou seu tudo,
aquele todo,
no sorriso gigantesco
da lua,
que viu na ponte,
dançando,
menina,
a exalar paixão,
contagiar o mundo
de um coração-menino.

Agora
seu itinerário é a calmaria,
cabelos mágicos,
que se deliciam sobre o peito a amar,
dão sombra de proteção ao olhar,
que se fixa,
abraça,
faz um amor monumental.

O coração do mundo
tem seu sol
e também sua lua,
na passagem,
no caminho inevitável da vida,
por onde passam
aqueles
que souberam
perder
para
mais tarde
ganhar.
E, esplendidamente,
amar.

26 dezembro 2012

Ansiedade

Ernesto Sabato (1911-2011)

para Luana

O saudoso escritor argentino Ernesto Sabato dizia que o principal incômodo no mundo moderno era o barulho. Nas ruas, nos cafés e restaurantes, até em salas de cinema e aula, o silêncio bateu asas e foi dar em paradeiro desconhecido.

Eu penso que do desaparecimento do silêncio nasceu a ansiedade que come vivas as novas gerações. Por ser maioria e por pautar o ritmo da vida cotidiana, as novas gerações contaminaram o mundo com o dissabor alucinante da ansiedade.

Há uma afobação que impede por completo que olhemos à nossa volta, pensemos sobre o que vemos ou fantasiamos. Não é a pressa que corre contra o tempo, a ligeireza de quem tem urgência de viver. Não. É o desejo sem argumentos de chegar antes, avançar pela preferencial, furar o sinal, bater porta na cara dos outros.

As urgências sem cabimento, as emergências sem urgências tornam a ansiedade um símbolo deste tempo em que cada um é a única prioridade de si mesmo. Fala-se demais. Ouve-se pouco, quase nada. As imagens, que não precisam de muita atenção, anularam a palavra escrita, que exige calma, concentração, tempo disponível. Aqui, ali e acolá, em toda parte, entre todas as pessoas, o tempo parece curto, embora ele sempre sobre para a indiferença, o desprezo e o barulho.

Ernesto Sabato dizia ter vertigem diante de tanta velocidade. Tudo corre, quando não voa; voa, quando não parece se teletransportar... As conversas são curtas, desatentas, desinteressadas. Na verdade, por conta dessa pressa que não se explica, nunca temos muito a dizer. O barulho que nasce da pressa que ocupa o lugar do silêncio produz, então, cabeças ocas, inorgânicas, como escreveu o poeta Vinicius de Moraes.

A pior parte da ansiedade, contudo, é que ela não é nada amorosa. Privilegiando a quantidade, a ansiedade não se permite a delícia de um olhar, de uma boa taça de vinho, de um toque que se prolongue ao infinito. A ansiedade, como tantos de nós, sujeitos da pressa e da urgência sem argumentos, não sabe amar. 

11 dezembro 2012

Coração do mundo


Eu sonho sobrevoar o mar,
o mar que há em mim,
avistá-lo, tentar decifrá-lo,
anunciá-lo ao porvir.

No mar do mundo,
com as mãos que para sempre
serão tricolores,
antecipo a viagem da esperança -
ela vive em mim,
num interminável itinerário,
entre os meus sentidos
e os gritos do povo.

Atravessando nevoeiros,
pressinto a força que me move,
uma implacável disputa entre gigantes,
siameses,
que vivem no peito,
na coragem que ousa,
forja,
partilha um olhar solidário,
um coração do mundo.

No geral e
no particular,
eu só sei ser assim,
a fim,
o velho menino
de sonhos novos -
e eternos, na vitalidade
de seu longo tempo.

Liberdade X Segurança

"Flâneur" (Warren Haasnoot Studios)

Em 2010, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, radicado há décadas num refúgio urbano em Londres, na Inglaterra, recebeu em sua casa uma equipe brasileira de TV. Desse encontro nasceu uma entrevista inteligente e bastante provocativa.

A conversa que foi ao ar pela TV brasileira foi editada e tem quase meia hora. Bauman versa um pouco de tudo: o caráter líquido das novas relações sociais; o drama de vidas que se desperdiçam numa cultura exclusivamente voltada para o consumo; a difícil arte da felicidade num mundo que torna tudo tão temporário, fragmentado e descartável; e muito outros temas instigantes.

Lá pelas tantas do excelente bate-papo, Bauman é perguntado sobre o status da liberdade na sociedade contemporânea. De pronto, Bauman apresenta um tenso desafio que não escapa a nenhum de nós: todos queremos muita liberdade e muita segurança. O problema, afirma o sociólogo, é que quanto mais se tem uma, menos se pode esperar da outra.

Ao desejar e reivindicar a liberdade, cada um de nós se posiciona em lugar de absoluta vulnerabilidade. O mundo não tem sido um lugar tranquilo. A constatação disso amedronta e afugenta: muros crescem e se eletrificam, praças são abandonadas, a rua deixa de ser palco e passa a ser lugar de rápidas e assustadas passagens (impossível não pensar na crise do flâneur, o caminhante das detidas e preguiçosas observações da vida, imortalizado pela letra bela e crítica de Walter Benjamin em suas leituras de Charles Baudelaire). Disso tudo vem a perda da liberdade e a necessidade irremediável de segurança.

A conquista da liberdade pressupõe a tomada das ruas, o cerco ao medo, o enfrentamento daquilo que assusta e põe para correr. Não há na História – se há, nunca soube – exemplo de liberdade que não tenha sido construído no encontro das diferenças em espaço público e aberto, muitas vezes sobre os escombros de barricadas. Do mesmo modo – salvo terrível e imperdoável engano meu – a segurança brota entre muros, como opção de gente que se afasta de outras gentes. Por ser um desdobramento do medo, o desejo da segurança anula o gosto da liberdade, cujo principal ingrediente é mesmo a coragem.

De minha parte, desde cedo, optei por lutar em nome da liberdade. E me sinto feliz e seguro por conta disso.

02 dezembro 2012

Esquerda

"Obrigatório virar à esquerda", fotografia de Cátia Monteiro

Um pra cá
Dois pra lá
"Pra lá", que são dois
pra mim

sempre foi à esquerda

Nunca mudei o ritmo
sempre na mesma batida
observando
anotando
criticando
melhorando
mas sempre dois
e pra lá
pra esquerda

Nova, a festa
troco a música
outras são as personagens
histórias inéditas então vêm

O som, contudo
corre solto
pulso das ruas
trilha da esquerda