26 dezembro 2012

Ansiedade

Ernesto Sabato (1911-2011)

para Luana

O saudoso escritor argentino Ernesto Sabato dizia que o principal incômodo no mundo moderno era o barulho. Nas ruas, nos cafés e restaurantes, até em salas de cinema e aula, o silêncio bateu asas e foi dar em paradeiro desconhecido.

Eu penso que do desaparecimento do silêncio nasceu a ansiedade que come vivas as novas gerações. Por ser maioria e por pautar o ritmo da vida cotidiana, as novas gerações contaminaram o mundo com o dissabor alucinante da ansiedade.

Há uma afobação que impede por completo que olhemos à nossa volta, pensemos sobre o que vemos ou fantasiamos. Não é a pressa que corre contra o tempo, a ligeireza de quem tem urgência de viver. Não. É o desejo sem argumentos de chegar antes, avançar pela preferencial, furar o sinal, bater porta na cara dos outros.

As urgências sem cabimento, as emergências sem urgências tornam a ansiedade um símbolo deste tempo em que cada um é a única prioridade de si mesmo. Fala-se demais. Ouve-se pouco, quase nada. As imagens, que não precisam de muita atenção, anularam a palavra escrita, que exige calma, concentração, tempo disponível. Aqui, ali e acolá, em toda parte, entre todas as pessoas, o tempo parece curto, embora ele sempre sobre para a indiferença, o desprezo e o barulho.

Ernesto Sabato dizia ter vertigem diante de tanta velocidade. Tudo corre, quando não voa; voa, quando não parece se teletransportar... As conversas são curtas, desatentas, desinteressadas. Na verdade, por conta dessa pressa que não se explica, nunca temos muito a dizer. O barulho que nasce da pressa que ocupa o lugar do silêncio produz, então, cabeças ocas, inorgânicas, como escreveu o poeta Vinicius de Moraes.

A pior parte da ansiedade, contudo, é que ela não é nada amorosa. Privilegiando a quantidade, a ansiedade não se permite a delícia de um olhar, de uma boa taça de vinho, de um toque que se prolongue ao infinito. A ansiedade, como tantos de nós, sujeitos da pressa e da urgência sem argumentos, não sabe amar.