11 dezembro 2012

Liberdade X Segurança

"Flâneur" (Warren Haasnoot Studios)

Em 2010, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, radicado há décadas num refúgio urbano em Londres, na Inglaterra, recebeu em sua casa uma equipe brasileira de TV. Desse encontro nasceu uma entrevista inteligente e bastante provocativa.

A conversa que foi ao ar pela TV brasileira foi editada e tem quase meia hora. Bauman versa um pouco de tudo: o caráter líquido das novas relações sociais; o drama de vidas que se desperdiçam numa cultura exclusivamente voltada para o consumo; a difícil arte da felicidade num mundo que torna tudo tão temporário, fragmentado e descartável; e muito outros temas instigantes.

Lá pelas tantas do excelente bate-papo, Bauman é perguntado sobre o status da liberdade na sociedade contemporânea. De pronto, Bauman apresenta um tenso desafio que não escapa a nenhum de nós: todos queremos muita liberdade e muita segurança. O problema, afirma o sociólogo, é que quanto mais se tem uma, menos se pode esperar da outra.

Ao desejar e reivindicar a liberdade, cada um de nós se posiciona em lugar de absoluta vulnerabilidade. O mundo não tem sido um lugar tranquilo. A constatação disso amedronta e afugenta: muros crescem e se eletrificam, praças são abandonadas, a rua deixa de ser palco e passa a ser lugar de rápidas e assustadas passagens (impossível não pensar na crise do flâneur, o caminhante das detidas e preguiçosas observações da vida, imortalizado pela letra bela e crítica de Walter Benjamin em suas leituras de Charles Baudelaire). Disso tudo vem a perda da liberdade e a necessidade irremediável de segurança.

A conquista da liberdade pressupõe a tomada das ruas, o cerco ao medo, o enfrentamento daquilo que assusta e põe para correr. Não há na História – se há, nunca soube – exemplo de liberdade que não tenha sido construído no encontro das diferenças em espaço público e aberto, muitas vezes sobre os escombros de barricadas. Do mesmo modo – salvo terrível e imperdoável engano meu – a segurança brota entre muros, como opção de gente que se afasta de outras gentes. Por ser um desdobramento do medo, o desejo da segurança anula o gosto da liberdade, cujo principal ingrediente é mesmo a coragem.

De minha parte, desde cedo, optei por lutar em nome da liberdade. E me sinto feliz e seguro por conta disso.