24 dezembro 2013

Até 2014


Que o verdadeiro bom velhinho lhes traga um Natal bem bonito e um Ano Novo de coração revolucionário - cheio de elegância, serenidade, transparência e paixão libertária!

20 dezembro 2013

Serenidade


Na infância, um dos medos de meus pais e avós era que eu saísse ao sereno e por lá me demorasse. O ar frio do crepúsculo, quase sempre acompanhado da fina e intermitente garoa paulistana, assustava os mais velhos. O sereno era sinônimo de resfriado, mal-estar, coisas evitáveis.

Agasalhar-se bem era o antídoto contra o sereno. Além do vento gelado e da chuva matreira, o sereno era o momento escuro do dia, o aviso de chegada da longa noite. Gente de juízo, àquela hora, já estava em casa, em família, sob abrigo da divina providência.

Muito tempo mais tarde, descobri um outro significado para o sereno, que, então, deixou de me preocupar e recordar tantas palavras de advertência e cuidado.

Sereno é a qualidade de quem vive desafeito a perturbações, agitações, desordens no espírito e nos movimentos da vida. Sereno é o agente da tão estimada serenidade. 

A serenidade são as vestes da paz, a transmissão da tranquilidade, o conforto da segurança, o colo leve e amoroso da sensatez.

Eu tive uma vida de serenidade. Por motivos relacionados com meu temperamento, vivi meu tempo muitíssimo bem acompanhado da mansidão – sou avesso a polêmicas, palavras desperdiçadas, conflitos desde sempre infrutíferos. Os livros foram e ainda são a matéria-prima da minha serenidade; no jogo de bola, estacava meu pé no meio de campo e dali olhava para os lados, tranquilo, à cata de pés aos quais pudesse lançar a boa pelota; no mundo, aprendi a ouvir e a escrever; gosto pouco de falar e, sei lá por que motivo, prefiro a imensidão do mar às turbulências do asfalto.

Minha serenidade é acústica. Desliguei guitarras e me livrei das batidas fortes faz um tempo. Só sei admirar quem fala à meia voz, de modo suave, encantador. Gritarias me passam completamente despercebidas.

Perdi o medo do sereno. Hoje quero mesmo é permanecer vulnerável à boa vontade e ao discernimento da experiência, que a gente só encontra lá fora, ao relento mesmo.

19 dezembro 2013

Anti-heróis


Raskólnikov, de Amy Coyle

O “anti” não é um oposicionista. Não cabe a ele ser o contrário, uma alternativa ou um adversário de atributos ao avesso. O “anti”, por excelência, é único, posto que foge a padrões, contesta fórmulas, nega que a vida seja feita de pureza e ausência de complexidade e contradição. O “anti”, portanto, seja como for, onde estiver, só pode ser contra o sistema.

Tudo a nossa volta é intensamente vivido pelo “anti”. Onde há um só “não” proferido, uma ainda que frágil reação, alguém destemidamente na contramão, lá está também um “anti”.

No “anti”, nada do que caracteriza o herói ou o vilão está presente. Ele não é clássico, embora tenha se tornado bastante cult; ele não é moderno, mesmo sendo constantemente visto pela senda underground contemporânea; ele não é virtual nem pós-moderno, uma vez que existe desde sempre, na ficção e na realidade, em toda parte, pujante e inegavelmente.

O anti-herói, o “anti” dos “antis”, não é bom nem mal; não é um coração-mole nem um desalmado; não acredita em milagres nem se deixa perder pela racionalidade petulante e excessiva. Se for mulher, é antidiva: não ama princesas, tem horror a frescuras e falsos pudores, é capaz de conquistar em nome de uma loucura cristalina, desabusada, destruidora de tabus e incendiária de velhas morais. A antidiva é mulher substantiva, alheia a idealizações e perturbações da ilusão.

Nenhum sentimento supostamente altruísta ou pequeno-burguês move o anti-herói ou faz da antidiva a fêmea mais admirada do mundo. Vingança, desejo de justiça, vaidade, busca por reconhecimento ou expurgo do medo – nada, nada disso compõe o universo do “anti”. Não há o que provar. Não há o que repartir. Nada pode ser mais simples e, ao mesmo tempo, tão obscuro, cheio de sinuosidades e porquês.

Raskólnikov, personagem de “Crime e Castigo”, de Dostoiévski, é, para mim, o maior anti-herói da história. Antagonista de si mesmo, Raskólnikov é inclassificável, fácil de amar, mais fácil ainda de odiar. Vejo nas antidivas e antimusas de todos os tempos um par honesto para Raskólnikov. Elas o amariam até o fim - e antecipariam também esse mesmo fim por total incapacidade de amar.

11 dezembro 2013

Inexplicável


A antidiva Jynx Maze, de ascendência peruana e paixões práticas inexplicáveis

Não é só amar um verbo intransitivo, como ensinou Mário de Andrade. Há muito nesta linda, louca e breve vida que não requer complemento ou satisfação. Via de regra, o que nasce do coração e atiça os sentidos, provocando a arrogância da razão, é inteiramente inexplicável.

Quem já tentou viver de explicações sabe quanto tempo perdeu, quanta energia desperdiçou. Sou partidário confesso e impenitente de uma máxima do escritor carioca Marques Rebelo: “Ninguém convence ninguém. Quem se deixa convencer já estava convencido.”

Nesse sentido, discursos, dados e argumentos caminham na contramão de certezas que nunca se abalam e verdades que não admitem contestação. Em casos assim, inexplicável é a tacanhice, essa habilidade humana de evitar a luz, o novo, o diferente.

É possível, contudo, que nos deixemos contagiar pelo caudaloso oceano do inexplicável. Existem águas claras lá também, adornadas por manhãs ensolaradas de domingo e noites estreladas de sábado. Nos infinitos mares do inexplicável, há rotas para todos.

Para que tentar explicar a fraqueza das pernas diante do sorriso da pessoa amada? Qual a vã vantagem que teria alguém que buscasse justificativa para os desejos d’alma e as fantasias do corpo? Já houve gente desatinada que tentou mediar poesia e quantificar prosa. Em toda parte sobram os maníacos por estatísticas, que querem numerar a subjetividade, engaiolar a criatividade e normalizar a liberdade. Entre aqueles que a tudo devem explicações, o reino vitorioso é o da decepção e da frieza.

Inexplicáveis devem ser os versos e os olhares apaixonados. O inexplicável é sempre arrebatador, estimulante, completamente desestabilizador. A luta pelo mundo com que sonhamos também não se pode explicar: se é de utopias que vivemos, como dar instruções prévias aos nossos passos? O coração revolucionário é de sangue admirável, suor imponderável, amor inexplicável.

O que se explica já está feito, já está provado. O inexplicável habita a terra do amanhã, dos homens e mulheres que conclamam a novidade, tudo aquilo que, a depender do brilho incansável da vida, certamente virá – para jamais sonhar querer se explicar, é claro.

12 novembro 2013

Arena midiática


Publiquei este texto em 2008. Considero-o ainda pertinente. A discussão atual sobre violência e a cobertura da mídia dos movimentos de rua neste 2013 me fizeram recuperar esta reflexão.

Sabe-se, ao menos desde Marx, que a sociedade capitalista é uma fabulosa fábrica de mercadorias. Para onde quer que se olhe, lá estão elas, imponentes e sedutoras, ostentando promessas de prestígio, bem-estar e felicidade. Num primeiro momento, trabalho humano e “coisas” produzidas para o consumo em escala travaram lutas epopeicas, ressaltando a rebeldia e a insatisfação como emblemas do insurgir do trabalho explorado contra o capital que degrada, humilha e coisifica. Entre o homem e a “coisa”, todas as fichas eram apostadas no homem, é claro. Noutros tempos, contudo.

Tempos andantes, o humano foi convertido em trabalhador “livre”, em produtor de um sem número de mercadorias de todos os tipos e tamanhos, até efetivamente transformar-se numa delas. No início, no trovão esperado da modernidade, a mais nobre e essencial. Hoje, na chuva ácida da aridez pós-moderna, aquele que se vê obrigado a vender-se como força produtiva efetiva-se como graxa, lubrificante de um sistema que despedaça e desperdiça, sufoca e aniquila. É certo que essa é a própria essência do tempo do capital, mas, de todos os modos, ele nunca se revelou tão impiedoso como em nossos dias.

Com a ampliação da sociedade de consumo – propiciada por conquistas salariais e liberação do tempo de trabalho para o de lazer -, a mídia, portadora das imagens que forçam desejos e sufocam saberes, insistiu que trasladassem à condição de mercadorias também os instantes de repouso e entretenimento das pessoas. Aliada à destituição crescente dos espaços públicos e dos históricos lugares coletivos da política, da arte, do debate em prol do comum, a grande imprensa empresarial passou a exibir a degradação humana como uma das tantas mercadorias de altíssimo potencial lucrativo. E tem, com isso, reinventado suas receitas.

A toda a hora, em todos os veículos possíveis, multiplicam-se os espetáculos da barbárie: bandidos e mocinhos, ídolos e tietes, pessoas do bem e do mal ocupam as galerias da diversão fácil, do grotesco, da pífia “cobertura midiática” da criminalidade e da violência, da corrupção, do esfacelamento público e institucional, moral e social.

Nas publicações e programações da mídia burguesa, da assim chamada imprensa empresarial, a violência – que deveria ser analisada como sintoma da crescente mercantilização da vida e do mundo – surge como desvio de caráter, sinal de covardia, safadeza, maldade, estigmatizando os mais pobres e tornando inviáveis e invisíveis os quereres dos sujeitos das classes subalternas. Não raro, para muito além da factível criminalização dos movimentos sociais e das urgências populares, a mídia burguesa banaliza o mal, misturando e tornando indistintos criminosos, corpos decapitados, policiais romanescos, picolés, promoções do vestuário feminino, vagas de vestibular e aparelhos de telefonia móvel... É o mercado pujante da lógica publicitária nefasta, que se ergue sobre a precarização das almas, da desfiliação absoluta da condição humana.

E lembrar, dia a dia, que costumo ouvir de profissionais (?) dessa arena medieval que a mídia burguesa emancipa consciências e liberta a humanidade. Nosso tempo, enfim.

02 novembro 2013

Lou Reed


Lou Reed (1942-2013)

Era tarde de domingo. Eu estava ao computador reunindo imagens e preparando uma aula para a segunda-feira. Um link de internet afirmava que o cantor Lou Reed falecera em Nova Iorque, aos setenta e um anos de idade.

Lou Reed era do mesmo ano do meu pai. Ambos já se foram. Com eles, a poesia da minha vida parte também, empobrecida, esgotada. Ainda inconsolado com a morte da voz serena e do dedilhar suave de Lou Reed, escrevi meu último poema, que intitulei oportunamente de “Últimos versos”.

Publiquei a derradeira poesia no meu blog e na mais famosa das redes sociais – e jurei que não mais escreveria versos, coisa que fiz incansavelmente desde os meus doze ou treze anos de idade.

Cansei. Cansei mesmo. O mundo anda pouco poético, quase nada inspirador. A sensibilidade que costumava existir ali e acolá bateu asas e se perdeu de vista. Sem Lou Reed, sinto-me sem parceiro. É minha hora de parar, preciso admitir.

Lou Reed, sendo discreto, influenciou tudo que se fez no campo da boa música nos últimos quarenta anos. Desde o imortal e incomparável álbum de estreia do Velvet Underground, em 1967, e do insuperável “Transformer”, de 1972, Lou Reed é uma escola pela qual passam ídolos e ícones do folk, do blues, do pop, do rock e de toda espécie de experimentalismo musical. 

Sem alardes nem gritarias autopromocionais, Lou Reed era, então, a referência das referências, o grande capitão da música de qualidade do século XX. Nascido alternativo, Lou Reed era o arquiteto da crítica inteligente, dos versos de palavras inquietas. Só há uma personagem na obra de Lou Reed: o ser humano.

Em 2011, Lou Reed se juntou ao Metallica e lançou o surpreendente “Lulu”, um álbum que conflita temperança e fúria, produzindo uma síntese que só se entende tentando ouvir, sentir e decifrar.

Sou agora um ex-poeta. Sem Lou Reed não me sinto livre para versar. Vou me dedicar somente às crônicas, com as quais farei do breve tempo a matéria-prima de minha solitária saudade de Lou Reed, cuja ausência marca, para mim, o fim da poesia.

29 outubro 2013

Relógio de pulso


Eu vivo mal sem meu relógio de pulso. Toda vez que saio de casa sem ele, sinto-me nu, meio constrangido, com o senso de orientação claramente abalado.

Usar relógio é um hábito – e como tal responde a uma tradição. Para mim, é impossível resgatar a imagem do meu pai ou dos meus avós (homens tão diferentes entre si) sem lembrar seus imponentes relógios de pulso. Meu pai, por acaso, usava no braço direito – dizia não saber por quê; apenas que se sentia melhor daquela maneira.

Baratos ou caros, digitais ou de frágeis ponteiros, com números simples, romanos ou cheios de nove horas, os relógios de pulso são dignos por seu estilo, por aquilo que representam em todas as histórias em que aparecem, das mais particulares às mais universais.

Se é verdade que sua única função é indicar o instante do tempo que não para, é também verdade (talvez mais ainda) que os resultados do seu tão modesto ofício fazem dele um grande parceiro.

Há relógios em torres urbanas, vizinhos a igrejas, no meio de praças, em painéis de veículos, na cozinha das casas, nos dispositivos móveis e eletrônicos, em tudo que é lugar e coisa. Mas só o relógio de pulso empresta charme e permite um olhar mais discreto, de soslaio, daquele que previne tanto do falatório inútil quanto do atraso para o encontro definitivo da paixão.

Os relógios de pulso são a persistência do afeto e da memória: eles são o presente de quem amamos e nos trazem a lembrança daqueles que já partiram. No pulso, o relógio é uma longa história.

Mais do que uma promessa de sucesso, o relógio de pulso é a valorização daquilo que é e a crítica sutil e resistente contra aquilo que precisa repetir que será. Indiferente a modismos, o relógio de pulso é um objeto de valor.

Num mundo tão entregue a utilitarismos que arrotam praticidade e rápidas vantagens, o relógio é a certeza da calmaria. Ainda que seus ponteiros não parem de trabalhar, eles lá estão para nos lembrar dos momentos de prazer, descanso e amor. Para isso, ele não precisa destruir nada – basta que continue sendo para nós o que ele sempre foi.

28 outubro 2013

Últimos versos


Já fiz versos errados
múltiplos e até infelizes
apressados, impensados
imperdoáveis deslizes

Musas falsas de última hora
frêmitos tardios
espírito em busca da desforra
beco escuro, sentidos vazios

Hoje sei que o poema certo
no traço, no laço, eu faço
nada de agruras no deserto
somente do meu mundo um pedaço

O amor maior é canto
uma viagem pelo que ainda há em nós
um humano encontro de pranto
entre incontáveis contras e prós

22 outubro 2013

Integridade


O histórico comunista pernambucano Gregório Bezerra (1900-1983), cuja vida foi sinônimo incontestável de integridade, ou seja, de resistência, decência, coragem e coerência.

Os bons dicionários da língua portuguesa registram que a expressão integridade está relacionada com a ideia de inteireza e com o contrário de incompletude. Há mais significados para essa palavra tão rica – íntegro é o sujeito de retidão de caráter e de honestidade a toda prova. Numa síntese meio arbitrária (como toda síntese, aliás), pode-se afirmar que integridade tem tudo a ver com decência e firmeza.

Por ser firme, o íntegro é aquele que não sofreu ataques ou, se sofreu, mantém-se intacto, sem arranhões. Penso que seja nesse sentido que se dê o valor de resistência de toda integridade - sua decência está em nunca se abalar, jamais abrir mão de seu lugar de direito na difícil e tumultuada batalha das ideias.

A riqueza da palavra integridade está também nas digressões inteligentes que ela incentiva. Se íntegro é aquele que se revela completo, mais íntegro ainda é aquele que escancara toda a sua humanidade. Sendo humano, entretanto, o íntegro só pode ser incompleto, maravilhosamente imperfeito.

Na imperfeição elabora-se a integridade daqueles que sempre têm muito a aprender. Como aprendizes da vida, os íntegros se fazem acompanhar de ternura e muita humildade. Quanto brilho numa só palavra! A integridade é expressão de valores múltiplos e alardeadamente desejados: incompleto, posto que aberto aos ensinamentos do mundo; honesto, inabalavelmente justo em seus propósitos; forte, exemplo incontestável de resistência e coerência.

Maculada pelo relativismo absoluto e pela instantaneidade dos privilégios concedidos em nome do status e do poder do dinheiro, a realidade contemporânea é bastante avessa aos termos que conferem toda a fortuna da palavra integridade. Muito mais do que um ser admirável, o íntegro tende a ser visto como um romântico, um fracassado iminente. Por tudo isso, cresce diariamente o tom destemido de sua coragem. A integridade precisa ser forte – seu elemento vital é mesmo a resistência.

O bom senso que a ética garante é a matéria-prima da integridade nos tempos que correm. Perder ou ganhar, essa não é a questão. Para quem conhece o verdadeiro valor da integridade (o da coragem que nunca cessa), tudo que importa é fazer bem todo o bem que nesta vida houver.

17 outubro 2013

A censura


A censura é das coisas mais antigas e resistentes do Brasil. Suas curvas perigosas e cores sangrentas marcaram o silêncio e a violência da escravidão.

Na delimitação da propriedade rural no país, a censura impediu que quem de fato trabalhasse pudesse viver como senhor na terra. Ao mesmo tempo, quilombos e territórios negros livres foram impedidos de existir, de exercitar autonomia, de olhar para o céu como brilho da criação. Entre nós, brasileiros, a censura sempre foi branca e proprietária, não só da terra e das bolsas de dinheiro, mas também da força e da desmedida capacidade de provocar medo e disseminar o horror.

No Império, a censura calou vozes rebeldes em todos os cantos do país, sufocando movimentos populares, perseguindo líderes revolucionários, atemorizando os corações que batiam no ritmo dançante da liberdade. Aplaudindo o comércio inglês, fazendo o serviço sujo imposto pelo capitalismo central, os enigmas imperiais destruíram seu povo, os povos vizinhos e uma dose bem expressiva da latinidade que insiste viver a trancos e barrancos em nós, sujeitos da América do Sul.

A censura, que sempre andou armada no Brasil, fechou jornais, impediu canções, rasgou livros e queimou muita poesia – que o digam os heróis anarquistas do início do século XX, seus periódicos artesanais, sua ácida e corajosa crítica social sob a tempestade da grosseria e do poder concentrado dos contos de réis.

A censura também se republicanizou. Hoje ela emana dos três poderes, cria muitos outros paralelos e intensifica monopólios de ideias e veiculação de informações. A censura tem codinomes, uma vez que ela está proibida de se assumir como tal: vive alegre e faceira em associações privadas de negócios e imprensa, gerindo mentiras e falsificando a inteligência. Agora, a censura acusa a quem a quer combater de censores, posto que ela se farta dos frutos da enganação e da suposta liberdade que dizem existir na arrogância, na ofensa e no desestímulo à soberana popular.

A grande tática da censura é dizer que censura de verdade é o que querem seus inimigos.

A unanimidade


Nelson Rodrigues (1912-1980), um dramaturgo como poucos, um conservador de qualidades em franca extinção, dizia que toda unanimidade é burra. Certamente, Nelson refletia sobre as multidões que caminham sobre rastros, multiplicam-se com extrema facilidade, ignoram o fato de que é possível pensar por conta e autonomia.

Além de burra, a unanimidade tem cara feia, é pouco lúcida e completamente embriagada. Quando convidada a admitir seu parco juízo, a multidão que se arrasta feito zumbi afia suas garras na intolerância e na ofensiva mal-educada. Mentem, adulteram palavras, fazem-se de vítimas – esses são os exercícios prediletos dos membros indistintos da unanimidade.

Unanimidade não é consenso; ela é forjada de fora e indiferente à opinião das pessoas. Vale dizer que a unanimidade odeia opiniões que não sejam compatíveis com sua lógica de proibir o contraditório, o diferente, aquilo que não se curva nem aceita um mundo pronto.

Contra os que têm ideias e querem discutir livremente a construção de um consenso erguido sobre todas as vozes e visões, a unanimidade lança o óbvio miserável de suas frases feitas e de seus preconceitos históricos. Em geral, a unanimidade chama seus críticos de “politicamente corretos”, “falantes”, “militantes” e daí para mais, daí para menos.

A unanimidade parece um daqueles toca-discos tentando rodar um elepê velho e riscado: repete a mesma frase mil vezes, na ilusão de vencer pelo cansaço a vida inteligente que rejeita a morte. A unanimidade apela para tudo: para as ofensas gratuitas, para o verbo viciado e até para o céu e o inferno. Ela finge saber sobre o que não sabe; fala daquilo que desconhece; é um eterno rancor de si mesma em amargurada jornada para negar aquilo que ela acha que foi, mas nunca teve condições de ser realmente. A unanimidade, enfim, é um estereótipo, uma colcha de retalhos, uma voz perdida e sem capacidade de se aprofundar nos temas que vocifera dominar. Numa palavra, ela é oca.

Se fosse uma pessoa, a unanimidade mereceria todas as nossas preces e sinceras palavras de conforto e ações de piedade. Afinal de contas, ela seria tão somente uma pobre alma em chamas.

08 outubro 2013

Elegância


Leandro Konder (1936), filósofo marxista brasileiro, um dos maiores e melhores exemplos do poder da expressão "elegância". Um homem de estilo, sofisticação e inteligência ímpares. Meu maestro soberano.

A elegância é suave e serena. Eu vivo a me perguntar por que as pessoas elegantes tanto me cativam. Reflito sobre a elegância como um dom, algo natural, e também como uma escolha, uma decisão pensada, elaborada e bem consciente.

Admiro demais aquelas pessoas que adotam um tom de voz tranquilo, pausado, ilustrado por um sorriso que desconcerta e encanta. A elegância é avessa a destemperos e intransigências; pratica o enternecimento e gosta de ouvir, observar, registrar calmamente tudo que ocorre e passeia pelo mundo. A elegância prefere a aparência discreta, os valores universais, as ideias ousadas – e sintetiza tudo isso em intervenções que nascem do compromisso com um olhar múltiplo e pluralista.

É preciso, contudo, convir: a deselegância reina com facilidade em nossos dias.

O gosto gratuito e irresponsável pela polêmica tornou-se para muitos a única forma de visibilidade. A galhardia de ideias rasas, as palavras vazias, a predileção pelo espalhafatoso e vulgar... Essas reinações da deselegância induzem sempre mais minha admiração pelas atitudes elegantes.

Ser ético, por exemplo, tem sido a aventura dos heróis do nosso tempo e dos representantes mais destacados da elegância. Numa realidade marcada por tantas crises de insustentabilidade e desamor, a elegância está na simplicidade, na valorização de princípios humanistas, na opção pela solidariedade. É elegante ter um livro sempre em mãos, vicejar um vocabulário rico, interessar-se pela sensibilidade despertada pelas artes. Os contrários disso são a fala chula, a redundância, a repetição dos erros, a arrogância, o aparecer pelo aparecer. No limite, nada se revela mais deselegante do que aceitar ser uma caricatura, dizer o que todos dizem, cultuar aqueles tipos humanos que rondam o erro alheio, a dor do outro, o insucesso do próximo. A elegância é independente, terna e aberta às lições que a força da coerência aplica à vida.

Anima-me especialmente a elegância das mulheres, aquele dom ou aquela decisão que prestigia uma sedução recatada, um amor que explode pelo olhar e se concretiza na imaginação. Nas mulheres, a elegância é, acima de tudo, uma profecia da beleza e da paixão irrecusável pela felicidade arrebatadora.

A aposta de Pascal


Acreditar em Deus, ensinou o filósofo Blaise Pascal (1623-1662), um gênio dos aforismos e dos vaticínios precisos, é como ter diante de si uma aposta de três opções, com apenas uma delas inegavelmente correta.

Se não acreditamos em Deus e apostamos na sua inexistência, perdemos. Afinal de contas, o que ganharíamos se constatássemos que de fato somos seres solitários neste mundo? Se acreditamos, mas nossa aposta se revela equivocada, nos contradizendo que Ele não existe, perdemos também. E o pior: ficamos a ver navios após uma vida de dedicação a algo puramente imaginário. Agora, se acreditamos em Deus e isso se prova verdade, ganhamos – na fé, na esperança, no ombro sobre o qual apoiamos a nossa história.

Levo a sério essa aposta pascalina. Toda vez que me perguntam por que acredito em Deus – e eu ouço essa indagação quase diariamente -, digo que entrei num desafio e desejo vencer. Daí, resta-me uma alternativa tão-somente: acreditar piamente.

Pascal, contudo, ampliava muito a abrangência de sua aposta. Para o teólogo e matemático virtuoso, a crença em Deus requer uma conduta compatível com a fé amorosa, a ação solidária, o espírito que se enternece e exige que o corpo estenda a mão ao semelhante. Pascal afirmava que, ao fazer a coisa certa, o ser humano se expande, integra a população da Terra e atinge o céu pela propícia obra. No final de tudo, refletia o filósofo, o que fica é aquilo que fazemos de bom para os outros.

Em seus famosos “Pensamentos”, Pascal, considerado o precursor da dialética moderna, escreveu que o todo e as partes permanecem sempre intercambiáveis. Ou seja, para entender o mundo, devemos observar o indivíduo; para compreender melhor os contornos da aventura singular, devemos elevar o pensamento ao mais alto nível da vida coletiva – em última instância, à experiência planetária.

Ao apostar na existência de Deus (o Todo), Pascal confia no fiel mais simples (a parte). Ao nunca perder a esperança de que o mais humilde dos humanos tem a chama da mudança no coração, o filósofo francês contempla o infinito e vê Deus, na totalidade da criação.

03 outubro 2013

Sala de desconhecidos


Ilustração de Pawel Kuczinsky

Sempre digo aos meus alunos que a sala de aula é meu palco e meu templo sagrado. Nela, protagonizo a história das escolhas que fiz e das coisas em que acredito. Mais: assim como a igreja para o fiel, o mar para o aventureiro e o céu para o sonhador, a sala de aula é o refúgio da minha alma, o lugar em que construo e ainda guardo os melhores mapas das minhas mais caras utopias.

Por tudo isso – que alguns consideram pouco exatamente porque não envolve dinheiro, poder ou diversão barata -, muito me entristecem as atitudes de alunos que não preservam o valor da dedicação às ideias, do amor aos grandes temas, da concentração e do interesse diante de desafios e provocações à inteligência. Aliás, aqueles que desprezam a potência de uma sala de aula (e aí penso nos estudantes alienados, nos gestores equivocados, nos políticos desqualificados e nos educadores não vocacionados) costumam ser os mesmos que rejeitam a profundidade do dom da vida e o elemento divino que possibilita o ato de educar, cuidar do próximo.

Em inúmeros sentidos, a sala de aula se tornou o ponto de encontro entre desconhecidos. Pouco importa se a escola é pública ou privada, se a universidade é de ponta ou um vergonhoso caça-níqueis, se o ambiente é voltado para a sociologia, a filosofia e as humanidades ou para disciplinas técnicas e profissionalizantes. Pouco importa, lamentavelmente. O que sobra é a apatia, esse sentimento tão estranho e ao mesmo tempo estrondosamente característico de nossa formação sociocultural.

A cada novo dia tudo parece mais interessante do que um professor, suas ideias, suas antiquadas sugestões de leitura. Numa realidade em que o hábito de gostar de ler, desafiar textos e desejar conhecer se transformou numa virtude de poucos, uma experiência quase alienígena, papos fúteis e desconexos, celulares conectados à Internet e a ansiedade que vislumbra matar o tempo para que as aulas se encerrem imediatamente ganham adeptos e lotam um mundo disfórico, escandalizando as lições do bom senso, a paciência do saber e aquilo que resta de humano em nossos frágeis laços de convivência.

A vida além dos muros escolares voa a mil por hora, é virtual e em cores, repleta de efeitos especiais. As salas de aula são simples e exigem a presença efetiva das pessoas - uma presença que, parece, estará ausente na já surrada luta pelo futuro.

26 setembro 2013

Silêncio


Quando garoto, ouvia meus pais e mestres repetirem que o silêncio vale ouro. Naquela época, era muito comum ouvir também que em boca fechada mosquito não entra e que aquele que fala demais dá bom dia até para cavalo.

Brincadeiras, exageros ou sabedoria popular à parte, a questão é que o silêncio anda meio desprestigiado no presente. Fala-se muito o tempo todo e em toda parte. Centenas de canais de TV e estações de rádio, milhares de revistas, jornais e sites de Internet, todos falando, alguns gritando, quase ninguém em silêncio. De repente, as pessoas foram convencidas de que o importante é dizer algo, seja o que for, desde que apareça bem e possa se tornar um motivo para que outros digam mais e mais, sem parar.

Num mundo amplificado e barulhento, confuso e transtornante, permanecer em silêncio virou falta de opinião, omissão, desconhecimento. O momento histórico pede o estrondo, o rebuliço, a tagarelice. Até os intelectuais, aqueles sujeitos outrora confiáveis porque pensavam antes de expressar ideias e ajuizar fatos, agora têm muitos pareceres sobre tudo, vivem ao vivo e em cores na mídia, falando rápida e superficialmente sobre coisas e pessoas em movimento, inconclusas, misteriosas...

A realidade eletrônica e virtual seduz os falastrões e corrompe o silêncio. Nem mais o anonimato das formas e da necessária privacidade pode se silenciar, manter-se afastado dos olhos que tudo veem para nada de fato saber. O silêncio bem que poderia ser interpretado como autopreservação e desejo pelo recato, pela discrição. No mundo que berra, as fotos do absurdo e da intimidade revelada são compartilhadas de modo banal e narcísico – as palavras comedidas e inteligentes saem de cena e dão vez aos discursos monossilábicos e às histriônicas vaidades tão embrutecidas.

Sou do tipo que ouço música em silêncio, para pensar, imaginar novos capítulos para o livro particular do tempo. Cultivo o silêncio como o faz o jardineiro cuidadoso com seu delicado bonsai. É do silêncio que nascem boas ideias e grandes invenções. Em meio a gritarias e palavrórios incessantes, o pensamento se despede e convoca a tristeza, esse sentimento tão comum entre aqueles que falam muito e pouco realizam, exatamente por terem desaprendido a viver em silêncio.

20 setembro 2013

Dúvida


Faz tempo que deixei de lado o desejo de encontrar resposta para tudo. Além de ser ilusório, esse ardor camufla o que realmente é essencial na vida, quer dizer, a capacidade de elaborar perguntas para os desafios impostos pela realidade.

Quando indagamos o mundo e suas personagens em ação, manipulamos a mais nobre matéria-prima do conhecimento: a dúvida.

Graças à insistência da dúvida, desviamos o curso das certezas sempre prejudiciais à profundidade de uma análise. Aquele que não cultiva a dúvida não desenvolve filtros e acaba engolindo tudo. O sujeito movido por convicções e disposto a oferecer fórmulas e saídas para as encruzilhadas do tempo, descartando pontos de interrogação e reticências, é um eterno candidato aos contos de Dona Carochinha, aquela velha senhora extremamente hábil em capturar incautos.

A dúvida é uma poderosa ferramenta pedagógica. Ela nos ensina a estabelecer metas, prever armadilhas, reconhecer limites nas nossas chances de conhecer. Nesse sentido, a dúvida busca nos convencer de que é preciso dialogar com muitos saberes, da arte à ciência, da religião ao mundo prático das ideias cotidianas.

Não existem receitas que guardem verdades nem mapas do tesouro. A cada dúvida levada a sério resta uma única e renovada certeza: pouco sabemos, muito há para descobrir, quase nada será revelado no curto tempo de nossas tão breves vidas.

Eu aprecio demais a dúvida quando me flagro depositando fé exagerada em episódios e protagonistas da história. A dúvida também me abraça quando estou prestes a colocar sob suspeita minhas convicções éticas, políticas e ideológicas mais preciosas. A boa dúvida, portanto, nos livra da empolgação diante do novo e do desânimo em face do antigo – ela nos mantém na fina corda bamba da coerência e da urgente autocrítica.

Semear dúvidas é habitar o jardim do futuro e passear pelos parques da tradição. A dúvida, quando cresce em meio às nossas mais caras reflexões, nos posiciona no tempo histórico, remetendo-nos dialeticamente ao passado de lutas e ao amanhã de utopias.

Diante da dúvida, o humano apenas se reconhece como tal, imperfeito e louco pela perfeição.

19 setembro 2013

Visita íntima


O amor que nunca fizemos
(que nunca fugiu à pura imaginação)
aqueceu o sonho desta noite
(tudo que ainda tenho de real sobre você).

Ainda demora para aceitar que não seremos,
não poderemos,
não ousaremos,
não faremos.

Nem mesmo um beijo
nossos insinuantes olhares trocados se permitiram.
Presos às armadilhas das convenções,
agredimos nosso desejo,
impedimos o melhor momento,
aquele presente que se eterniza,
faz do tempo um agora infinito.

Esta madrugada você me visitou,
morena mais bonita do mundo!
Mais uma vez,
você se fez real
na ilimitada irrealidade
em que sinto seu cheiro,
num sonho profundamente
excitante e perturbador.

16 setembro 2013

Meu centro


Uma expressão vem batendo insistentemente à minha porta: centro.

Nos meus anos de estudante na universidade, flertei com o budismo tibetano. Foi uma experiência riquíssima. A brava história do povo das montanhas asiáticas me aproximou demais da liberdade e suas exigências práticas e morais. 

À época – eu estava para adentrar a casa dos vinte anos de idade -, a palavra mais utilizada para deformar um debate ou simplificar uma crítica era “neoliberalismo”. As políticas mundiais de privatização e a disseminação dos ideários da era de Tatcher e Reagan desabaram sobre a reflexão das ciências sociais e multiplicaram jargões e lugares-comuns. Qualquer ideia que minimamente se descolasse da acusação geral contra o neoliberalismo, tornado então o mal do mundo, era sumariamente tachada de “neoliberal”. 

Eu, por defender o Tibete e recriminar o domínio chinês sobre seu território e sua religiosidade – além de declarar preferir Max Weber e Hannah Arendt a Karl Marx e Vladimir Lenin –, era muitas vezes insultado como neoliberal.

Os militantes oficiais da política estudantil, que liam pouco e gritavam muito, diziam que eu era, na melhor das hipóteses, a direita da esquerda, um social-democrata. Quando queriam encerrar um assunto e sair correndo, rindo e dando socos no ar, me sentenciavam como “liberal”. E ponto.

Recordo que, já no final da graduação, escrevi um artigo sobre Alexis de Tocqueville e resolvi apresentá-lo num evento oficial do curso, num auditório até que bem cheio. Durante e após a minha leitura tocqueviliana da liberdade e da democracia – que apontava alguns limites da crença na igualdade absoluta e a opção do pensador francês pela liberdade intersubjetiva e comunitária, livre de centralismos –, ninguém disse nem perguntou nada. Mas lembro que, no correr dos dias, um espectro rondou aquele pedaço do campus: o espectro de “estudantes liberais” que ousavam afrontar os “comunistas oficiais” e sua militância partidarizada – tudo que cheirasse a busca por equilíbrio, defesa das liberdades individuais ou apoio às conquistas históricas iluministas era algo que precisava ser combatido a qualquer custo...

Sem nunca ter sido, tornei-me, então, um burguês. Os mais exaltados afirmavam que eu era apenas “de direita”. E assunto encerrado.

Ao voltar no tempo e reencontrar esses episódios da minha vida, a expressão “centro” me revisitou. Nos últimos anos, tenho percebido que àquela esquerda debiloide eu jamais pertenci. Nunca fui fã dos soviéticos, dos chineses ou dos norte-coreanos, embora minha latinidade explícita se solidarize bastante com a ilha de Cuba (mas nunca com a pouca liberdade e a ausência democrática que por lá grassam). Nunca endossei também o conservadorismo barato daqueles que veem “ameaça vermelha” em tudo – acho ridículos os indivíduos que encontram demônios na luta dos que querem ser vistos, reconhecidos e respeitados. 

Se nem tanto ao mar, nem tanto à terra, penso que sou alguém entre a tradição liberal e a utopia socialista mais ecumenicamente humanista. Que nome se dá a isso? Liberalismo social? Socialismo liberal? Independência? Ora, seja o que for, é bem mais que a asfixiante mania de rotular comportamentos, valores e ideias, punindo-os com esquematismos forçados e extremamente arbitrários.

Não troco uma leitura dos “Dois tratados sobre o Governo Civil”, de John Locke, por nenhum manual de (a)fundamentos marxistas. Não deixo de lado minhas dezenas de releituras de “O Antigo Regime e a Revolução” ou “A Democracia na América”, de Tocqueville, para me entediar com textos impenetráveis de teoria social e crítica fácil contra “direitistas” ou “neoliberais”, escritos que, em geral, nascem da burocrática e fechada estrutura de produções acadêmicas erguida por compadres que vivem destilando seu horror ao mundo burguês.

Dizem que o centro político é o espaço gravitacional dos indecisos e oportunistas. Bom, minhas decisões são minha história: levo uma vida modesta, tranquila e assalariada; gosto do que faço e desenvolvo com seriedade minhas atividades; oriento-me pela ética kantiana do bem universal e não me rasgo na leviandade de eleger culpados óbvios ou aparentes pelo difícil mundo em que vivemos. Essa história pessoal, aliás, descarta qualquer lastro de oportunismo ou pragmatismo.

Tenho sido convencido a cada novo tempo de que o meio influencia, sim, os indivíduos. Impossível negar o poder das oportunidades permitidas ou proibidas socialmente. No entanto, estou convencido de que a subjetividade é o caminho para a liberdade. Ninguém pode ser responsável pela felicidade ou pelo martírio d’alma de outro alguém. Há escolhas, ainda que limitadas ou radicais, sempre – e a mesma sociedade que limita e influencia tendenciosamente para um lado, possui milhares de brechas e alternativas para outros muitos lados. A realidade, inesgotável, é uma figura sociogeométrica inclassificável.

Inexiste liberdade sem pensamento livre e atitudes conscientes e amorosas. E participar da grande aventura da liberdade é, antes e tudo, uma decisão de cada um. É nisso que eu acredito. Esse é meu “centro”.

11 setembro 2013

Coração Vermelho



(para Salvador Allende)

Descobri
que meu coração
e frágil
quando percebi
que ele atropela
meus passos.

Há um enorme
descompasso
entre o ânimo das ideias
e a batida dentro do peito,
entre os planos da cabeça
e a realidade na contramão.

Com o tempo
(numa luta sem aliados)
os ponteiros se acertam -
o do ritmo das coisas
e o da vontade de viver,
bela,
transbordante de si.

O velho coração vermelho,
abatido e cansado,
não quer parar:
bate dizendo
que ainda tem
um mundo
a sonhar.

10 setembro 2013

Hiato


Um hiato é um intervalo que separa e dá vida independente a vogais – as letras ganham sonoridade altiva e uma existência singular.

Mas não são só vogais que conhecem o fenômeno do hiato. Para muito além da linguagem, hiatos existem em tudo e estão em toda parte.

Na política, por exemplo, entre um governo e outro, há o hiato da incerteza. A expectativa de como será o novo governante, quais serão as características da gestão, como se dará o relacionamento com a população, de que maneira serão conduzidas as políticas sociais e econômicas, se haverá radicalidade no enfrentamento dos problemas, tudo isso faz do hiato político um momento excepcional para a reflexão e o exercício da cidadania.

Hiatos, portanto, separam para que se possa valorizar mais a força da união. Ao ocorrerem dois momentos destacados pela ação temporal do hiato, entende-se bem melhor quanto são importantes o poder coletivo, a coesão das partes, a sinergia entre parcelas independentes. No limite, um hiato representa um incrível poder simbólico: ele demonstra sem contornos que indivíduos são seres sociais, que necessitam conhecer os intervalos e separações da vida para se coletivizarem com mais ânimo e destemor.

Existem e se disseminam pelo mundo os hiatos amorosos. Namoros interrompidos, paixões finitas, explosões de prazer que logo se dissipam são exemplos de hiatos que falam diretamente às emoções. Os sentimentos humanos, aliás, sempre em litígio com as observações excessivamente ponderadas da racionalidade, vivem hiatos que são pura tristeza, enorme reclusão. Mas é durante a vigência desses hiatos da perda e da decepção que resgatamos do exílio nossa história – os hiatos de amor perdido são essenciais para que a vida siga adiante (e com mais vigor, sensibilidade e inteligência).

Hiatos têm por hábito assustar porque provocam cisões e nos põem abertamente diante dos traumas da ruptura. Talvez por isso sejam vistos costumeiramente como uma experiência negativa e fortemente indesejada. É preciso, no entanto, recordar que do hiatos nascem ideias e a oportunidade de perceber evidências antes ignoradas ou reduzidas. Seja como for, os hiatos, além de inevitáveis nesta vida, falam alto como regentes da mudança e da luta por dias melhores. Para cada um e para todos.

05 setembro 2013

Encantamento


A linda e inteligente atriz Alice Braga, em fotografia de Christian Gaul, a prova viva de que existe mesmo o vale das luzes dos encantados

Dizem que um sujeito encantado não vê nada, vive perdido em meio às suas ilusões. O encantamento, então, teria uma força mágica, uma poderosa capacidade de apagar todos os sinais deixados pela razão e pelo bom senso. Encantar-se, portanto, seria permitir-se trafegar pela estrada do delírio, do bem absoluto, do sonho que nunca foi sonho, só a mais pura realidade.

O encanto tem outras formas, porém. Aquele que se encanta é movido a energias que andam raras no mundo. Não existe preguiça, barreira física ou discurso que desencoraje um sujeito encantado. O amor só é belo enquanto duram encantos no coração. Ao se mover por amor, o ser humano vivem encantado. Nada pode haver de ruim nisso.

A sensibilidade, um valor que somente o aprendizado pelas artes proporciona, necessita do êxtase dos encantados. Os sentidos que (se) encantam produzem beleza, sentimento e esperança.

A linda tela, a boa canção, o verso perfeito, a frase plena, a dança divina e o balé das estrelas, tudo gera tantos encantos. Ora, não dá para negar que o indivíduo encantado anda mesmo às turras com os dissabores da realidade. O mundo e o coração encantado não se dão nada bem, não combinam. Mas como imaginar um mundo melhor sem animar aqueles que o negam em suas amarguras mais profundas e injustas? Como, hein?

Há um quê de amor mundi no vale de luzes em que vivem os espíritos encantados. Lá não têm lugar as dores, os sofrimentos, a desesperança, a vontade de desistir. Por suas bandas, o fracasso está proibido – e só é parcialmente admitido o insucesso que promete abrir caminho para a glória.

Eu sou mesmo um sujeito antigo. Eu torço por heróis e acredito no bem prevalecendo sempre. Venho do vale das luzes onde aprendi com os encantados que nesta vida precisamos levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima a cada instante.

31 agosto 2013

Escriba de aluguel


Dias atrás reli “Budapeste”, romance de Chico Buarque de Holanda. Depois de alegremente devorar o livro, assisti mais uma vez ao filme homônimo inspirado nele e dirigido por Walter Carvalho.

A história narra o drama de um amargurado escritor fantasma, um indivíduo que escreve para o sucesso comercial de gente sem talento e tristemente idolatrada por desavisadas legiões de consumidores. Ao ver os livros que escreveu mas não assinou nas prateleiras dos mais vendidos, o protagonista da trama de Chico Buarque vai da indiferença à culpa, da satisfação enganosa ao desespero de ser um mero “escriba de aluguel”.

Escribas de aluguel são sujeitos que têm algum talento e o vendem aos que não têm valor nem vergonha. Tanto o escriba quanto o comprador das palavras valem pouco, mentem muito, distorcem fatos e iludem os deslumbrados. Trata-se de um nítido e melancólico caso de talento a serviço do que pode haver de pior: a farsa, que, segundo o velho Marx, nada mais é do que uma tragédia que se repete.

O escriba de aluguel, quase sempre uma caricatura imperfeita de gurus falastrões e fanfarrões, escreve para jornais, revistas e páginas da Internet. Muitas vezes é o responsável por locuções no rádio e na TV. De vez em quando, transforma-se até em personagem literário ou cinematográfico.

Em geral, esse vendilhão da palavra mistura números e verbos para incitar os outros à ação. Os números, via de regra, são fictícios, e os verbos, artificiais. O movimento que decorre de seus textos é o mesmo que faz proliferarem inverdades e pouca solidariedade entre as pessoas. O coração do escriba de aluguel é frio – mesmo que fale em Deus (e isso ele costuma fazer bastante para dar algum tom de emoção ao seu palavrório oco), é incapaz de sentir a iluminação divina, posto que está irremediavelmente contaminado pela obsessão de enxergar somente aquilo que é bem remunerado para ver e defender.

O escriba de aluguel tem preferência por combater aqueles que sonham e não desistem de lutar por novas versões da Ilha Utopia, essa terra de ímpetos tão humanos, justiceiros e generosos. O escriba de aluguel só tem gosto pela quantidade: pela própria natureza de sua pouco ética função no mundo, não pode conhecer qualidades, a não ser as más.

De peito vazio e alma emprestada mediante contrapartida de cifras generosas, o escriba de aluguel dirá que não existe como tal, que são mentiras as histórias que contam a seu respeito... Negar-se, aliás, é o que ele mais faz com invejável fé e impressionante habilidade.

20 agosto 2013

O céu estrelado sobre mim


Reza a lenda que Immanuel Kant, um dos maiores filósofos da modernidade, em seu derradeiro momento de vida, assegurou ter vivido da forma correta. Por essa razão, iria partir em paz, com duas grandes convicções inabaláveis: a de que viveu sob o céu estrelado e a de que teve nas ideias e no coração a presença constante do dever moral.

Eu sempre convoco Kant para justificar a mim mesmo meu apreço pela pontualidade, pela verdade, pela ação coerente com minhas ideias e pensamentos. Digo sempre que o importante é fazer a coisa certa, independentemente do que digam pelo mundo e do que façam por aí.

Considero no mínimo deselegante todo atraso. Horários combinados não se respeitam; contratos de tempo não se cumprem; o uso preciso das horas não se realiza. O atraso constante e reincidente, de inoportuno, passa a inconcebível e injustificável, uma vez que revela despreocupação, falta de interesse e pouco caráter.

No fundo, percebo que a falta de valoração no tempo certo alimenta a pouca paixão que muitos demonstram por aquilo que fazem. Não gostam da escola, detestam o trabalho, sonham em estar noutros lugares, ao lado de outras pessoas. Todos esses sentimentos e desejos endossam a indiferença e abolem de vez qualquer compromisso com o dever moral, com o “fazer a coisa certa”. Por não saberem o que é certo (ou, pelo menos, o ignorarem), não são capazes de pressentir o céu estrelado sobre suas cabeças, as quais nem mais esperança conseguem nutrir.

A fraqueza, o tédio, a negligência se transformaram em questão de ordem. Vejo jovens de menos de vinte anos compartilharem que se sentem entediados numa bela e ensolarada tarde de domingo. Vejo-os também lamentarem a segunda-feira, porque não estão motivados, e a sexta-feira, porque estão cansados e desanimados.

Flagro-me triste quando suspeito de que, num futuro não muito distante, poucos poderão fazer um balanço tão positivo da vida como o fez o velho Kant. Estou convencido de que a felicidade requer o dever moral no peito e, acima de tudo, o céu estrelado não apenas no alto, mas, principalmente, a iluminar de pertinho os labirintos da vida, da condição humana.

15 agosto 2013

Horizonte


Suzanne e Ida, com a atenção dedicada ao horizonte, em fotografia de Pablo Saborido, para a Revista Trip.

No horizonte está tudo aquilo que ainda não é realidade. Difícil saber se um dia será. Ninguém está habilitado para dizer o que exatamente há no horizonte nem quem serão os privilegiados por alcançá-lo.

O horizonte é desejo e mistério. E é isso que o torna tão sonhado, o destino exclusivo de todas as bússolas.

As melhores ideias estão no horizonte. Aquelas que criam, aquelas que solucionam, aquelas que apaziguam, curam, aproximas as pessoas da verdade. Religiosos, cientistas, bons políticos, gente de bem, todo mundo deposita o olhar e a esperança na reta e ao mesmo tempo sinuosa linha do horizonte.

Aos sonhos, dizem, estão reservados nossos melhores momentos. As festas, as férias, os fins de semana, o desejado momento no balançar da rede ou numa cadeira de descanso: é nessas horas que alimentamos a imaginação. Mas vale nunca esquecer que, independentemente do tamanho, do estilo, da profundidade ou da importância, os sonhos residem no horizonte, estão à frente, vivem no amanhã.

O sol, o mar, o campo verde forrado das cores múltiplas das flores vivem e repousam também no horizonte. No fim de tudo que nos consome – as horas, os dias, os anos inteiros -, brilha o horizonte. Há horizontes claros e escuros (uns são transparentes, previsíveis e esperados; outros, neblina, trevas por vezes). De uma coisa, contudo, todos sabemos: a vida seria insuportável e até inviável se não soubéssemos desenhar horizontes.

Muitas paisagens habitam nossas ideias. E, se são ideias, estão lá, no horizonte. A cidade da viagem perfeita, a praia da paixão definitiva, a final de campeonato almejada com o time do coração, o beijo mágico do despertar de tudo. Sejamos sinceros: o que de valioso neste mundo não está ou um tempo esteve no horizonte?

O horizonte como motor do pensar ensina a firmar passos, rever planos, costurar expectativas. A imagem permanente do horizonte é a nítida constatação de que nós, humanos, somos porvir. O que seremos, aliás, é a razão de ser de nosso estreito e indissociável laço afetivo com o horizonte.

02 agosto 2013

A loba se latiniza


Em Moray, Alpes Peruanos, no coração do Vale Sagrado dos Incas, uma enorme área de cultivos experimentais, ideia símbolo das grandes transformações na vida.

Depois do casamento no palácio em Copenhague, andei um pouco pelas belas ruas da cidade. À noite tudo é mais bonito no Velho Mundo. 

Incontáveis cafés me convidavam a cada passo; artistas noctívagos encenavam seu olhar em público, agraciando-me com histórias inéditas de vida. Parei, então, para um café num acolhedor pier - de frente para mim, a lendária sereia da baía dinamarquesa.

Àquela hora da noite, um ensaio pela madrugada, a loba já viajara para muito longe. As colunas sociais falavam em lua de mel em grande estilo pela América Latina, uma viagem pelo universo andino de tantas lutas populares e pelo mar caribenho de incomparáveis sóis. A loba, enfim, se encontraria com sua ancestralidade ferina, cujo poder de sedução invencível havia roubado meu coração, anos atrás.

De charuto cubano e café colombiano como companhia numa noite fria, numa Escandinávia cosmopolita e iluminada, eu não sabia como conter tanta tristeza: a loba latina perdia-se nos braços e amores de outro homem, nada latino, nada merecedor daquela que para sempre será uma das melhores mulheres do mundo.

01 agosto 2013

Francisco, o carismático



Em visita ao Brasil, para participar da XVIII Jornada Mundial da Juventude (JMJ), de 23 a 28 de julho de 2013, o Papa Francisco deu bonitas lições de humildade e transmitiu importantes palavras de compaixão e solidariedade.

O Brasil é certamente o maior país de maioria católica do mundo. Algo em torno de sessenta a setenta por cento dos brasileiros se declaram seguidores do catolicismo. Só isso já tornaria a visita do Papa um evento de destaque. Mas, me parece, existem outros motivos.

Nos últimos anos, numa realidade contaminada pela ampliação de tristes manifestações de fanatismo religioso - fenômeno que vem invadindo a mídia, a educação e a política do país -, os ensinamentos franciscanos do novo líder da Igreja católica vêm muito a calhar. Numa época em que fé e dinheiro resolveram se dar mãos e mentes, é muito bom ouvir falar em humildade e prazeres do espírito. Francisco, o Papa, falou de simplicidade e a praticou; discursou contra a ostentação e na prática a rejeitou.

O Francisco que andou pelas ruas do Rio de Janeiro e rezou com igual talento e inquestionável dom na Basílica de Aparecida do Norte e a nas areias de Copacabana lembrou os padres sonhadores do interior do Brasil e fez da palavra de amor o símbolo de sua caminhada religiosa.

Contra a crítica fácil e a demagogia oportunista, não podemos esquecer que, além de líder religioso, Francisco é chefe de estado. Uma visita dessa natureza desperta atenção, curiosidade e exige aplicação pública de recursos materiais e humanos. Cabe, então, refletir: será que as sementes deixadas pela visita de um sujeito tão carismático e atraente como ser humano não valem tamanho investimento? Num país acostumado a torrar dinheiro em bobagens e tramoias, minha resposta é "SIM".

Com poucos meses à frente da Santa Sé, Francisco tem dado prova de seu viés reformador. Está aos poucos alterando estruturas de poder que permaneceram intocadas por décadas. Sem exageros, Francisco é um Papa só comparável a João XXIII, um homem que foi mais do que um santo.

Há muito o que contestar e mais ainda a condenar na postura da Igreja Católica em toda a sua história. Não há dúvida disso. Mas existe a boa hora para tudo. No momento, acredito que Francisco, em sua oportuna passagem pelo Brasil, tenha nos conduzido pelo urgente instante da reflexão e do amor.

29 julho 2013

O Jornalismo e eu


Sede do jornal L'Humanité, projetada em 1987 por Oscar Niemeyer e inaugurada em 1989, no Centro Histórico Seine-Saint-Denis. Fundado pelo socialista Jean Jaurès, em 1904, o jornal francês atravessou o século XX ao lado do pensamento de esquerda na batalha das ideias. Ressurgido de inúmeras crises econômicas, o periódico continua atuante e em busca de novos sinais para novos tempos. Tenho muito orgulho de, em 2004, no ano do centenário do jornal, ter sido agraciado com o "Prêmio Jean Jaurès para a América Latina", uma honraria concedida por conta de minha dissertação de mestrado, "A travessia do infinito", em que narro a epopeia dos seringueiros amazônicos à luz do brilhante pensamento de Hannah Arendt.

Minha relação pessoal com o jornalismo já tem alguma história. Desde pequeno, quando ainda pedia ao meu pai que me entregasse a “Folhinha” (encarte infantil da Folha de S. Paulo), os jornais impressos são um fetiche para mim. Naquela mesma doce época pueril, ia à banca com meu avô materno para comprar o Jornal da Tarde, que, como o nome já dizia, saía depois do almoço, por volta das 13 horas. Assinaturas eram coisa ainda nascente como fenômeno disseminável. Bacana mesmo era frequentar a banca, ser amigo do jornaleiro e folhear de tudo um pouco, até encontrar o exemplar de revista, o álbum de figurinhas, o gibi ou mesmo o velho jornal que se iria levar para casa.

Na adolescência, a paixão pela literatura me manteve ligado aos jornais. Amava os suplementos literários e as resenhas de livros. Havia colunistas que me enchiam o peito. Lembro-me, em particular, de Luis Fernando Veríssimo, Maurício Tragtemberg, Florestan Fernandes e Otto Lara Rezende. Um pouco depois, tornei-me fã do repórter Joel Silveira e do pessoal egresso d’O Pasquim (com exceção contumaz de Paulo Francis, que sempre me pareceu um chato incoerente, principalmente depois que resolveu dançar na Broadway). Recentemente, o Sabático, encarte de O Estado de São Paulo, fazia valer minha ida semanal à banca em busca dum quase extinto exemplar de papel dos velhos jornalões. Nele, nesse inesquecível suplemento da empresa jornalística da família Mesquita, havia de tudo um pouco para quem gosta de jornalismo cultural: entrevistas, críticas de bom tamanho, gente inteligente... Enfim, um pedaço de céu na obscura seara da imprensa burguesa brasileira. Qual não foi minha surpresa (sabe aquele tipo de surpresa mais ou menos previsível mas que machuca para danar?), meses atrás, quando soube da extinção do Sabático: mais uma das medidas de contenção numa época de poucos e novos leitores virtuais.

À altura dos meus vinte anos eu já estava na universidade, estudando Ciências Sociais, e havia me tornado um leitor incorrigível. Exerceram influência decisiva sobre mim os clássicos da nossa literatura (Machado de Assis, em particular) e alguns dos contemporâneos mais ilustres (Rubem Fonseca é e será para todo o sempre meu maestro soberano). A poesia de Drummond e os aventureiros títulos da Coleção Vaga-lume – com um amor todo especial por Marcos Rey – coloriram os dias de minha adolescência e hoje estão prontos – poesia e prosa – para dar mais vida e brilho ao mundo do meu filho, o pequeno e voraz leitor João Gabriel.

Por tudo que sempre havia lido, pelos ídolos que cultivei nas páginas dos jornais, pelos romances que amei, julguei que seria mais condizente tornar-me sociólogo do que jornalista. Nunca pensei em ser jornalista profissional, com diploma, registro, coisa e tal. Nunca mesmo. Mas sempre quis fazer parte do mundo da informação, contribuir de alguma maneira para dar mais corpo, substância e vida literária ao conhecimento. Anos depois de formado, concluí que eu estava certo em minha intenção. Sou mais jornalista como sociólogo (profissão que me forneceu ferramentas de pesquisa, espírito crítico e inquieto, amor incondicional pela palavra, pela investigação, pela grande leitura). Ademais, convenhamos, eu jamais teria a chance de ser um bom sociólogo se tivesse optado por me formar jornalista...

Nos anos de vida universitária, aliás, o jornalismo fez parte de meu processo formativo. Em 1997, por exemplo, eu e alguns bons colegas das Ciências Sociais e da História produzimos um jornalzinho que é hoje clássico, o À margem nau. Nesse quase-fanzine trimestral (foram apenas quatro edições no ano em que todos nós do jornal nos formamos), fui editor, repórter e cronista. Nosso propósito era arejar o pensamento de esquerda maximalista que imperava no Centro de Ciências Humanas. Por pensar mais à la Gramsci do que à la Mao, o jornal foi execrado e exorcizado. Cumprimos, pois, nosso papel de fazer oposição, ofertar boa informação e mergulhar em muita diversão.

Logo após a conclusão do curso universitário, antes da metade da segunda metade da década de 1990’, comecei a dar aulas. Enfim, professor.

Em seguida a uma passagem pelo ensino técnico-profissionalizante e também pelo departamento da instituição de ensino superior em que estudei, como docente auxiliar, consagrei-me professor, numa faculdade privada, no curso de... Jornalismo!

Ao lado das inevitáveis e amadas disciplinas de Sociologia, Cultura e Política, ministrei – e ainda o faço – Teoria da Comunicação, Sistemas de Comunicação, História do Cinema e muita, muita crítica literária e artística. Sem saber (e provavelmente sem que muitos saibam), acabei me tornando um professor de Jornalismo Cultural.  Prova disso são as excelentes monografias que orientei sobre o futebol carioca na crônica esportiva do início do século XX, as revistas de jornalismo cultural brasileiras, os periódicos alternativos e a vida de gente como Barão de Itararé, Henfil e Vianinha, entre outros.

Hoje, por motivos que me são alheios, estou noutras praças da academia. Continuo falando das coisas que amo, indicando os livros que venero, dando lições em torno dos valores em que acredito - e lendo todas as revistas possíveis sobre História, Língua Portuguesa, Ciências Sociais, Crítica Cultural etc. Mas não tenho dado aula no Jornalismo faz alguns anos. Em contrapartida, tenho uma coluna diária na Rádio CBN Londrina, na qual falo só o que quero, discuto temas que me chamam a atenção e me despertam grandes sensações. Meu blog, para além de todo o resto, é meu veículo particular: nele sou o sociólogo-jornalista que sonho ser, sem concessões nem meios-termos.

Dias à frente talvez não existam mais bancas de jornais e revistas nem livros de papel. Dizem que isso é o futuro. A minha sorte é que montei um biblioteca particular bastante generosa e que sebos e pessoas antiquadas estarão sempre por aí. Enquanto houver livros e jornais – e, sobretudo, livros que falem dos velhos jornais e sua brava gente lutadora –, eu mesmo não irei partir: minha presença será um sinal que meu filho, meus familiares, amigos e parceiros de jornada irão incessantemente capturar. E sorrir, feito meninos.

28 julho 2013

A loba casou em Copenhague


Casou-se na Dinamarca, num exuberante palácio de frente para a Baía de Copenhague. Linda e ferina, roubou todas as cenas. Desde que a vi pela primeira vez, nunca esteve tão sedutora e, ao mesmo tempo, tão angelical.

Ela não se casou comigo.

Nosso hoje impossível casório seria numa provinciana cidade no interior do Paraná, com as mesas dos convidados forradas pelos textos de amor que lhe escrevi. Nosso apartamento - nunca tivemos certeza se moraríamos em Londrina ou no Arpoador - teria como elemento privilegiado da decoração cartazes dos filmes de que mais gostamos. Combinamos que seria um luxo, um ambiente aconchegante, cult, que transpirasse paixão pelas paredes.

Esse apartamento nunca existirá.

Saí pelas ruas de Copenhague com a cabeça no céu, pensativo, me sentindo verdadeiramente derrotado. Eu nem havia sido convidado para o casamento. Soube da grande noite pela coluna social do jornal. Eu estava na Escandinávia lançando meu romance de estreia, já traduzido para treze idiomas.

Voltei para o Brasil e comecei a escrever a continuação do meu primeiro livro de sucesso.

23 julho 2013

Acaso


Os céticos nunca me convenceram. Os muito fiéis também não. Sempre torci o nariz tanto para racionalistas quanto para sentimentalistas. Não confio nos práticos e tenho receio dos teóricos em demasia. Na vida, de uma vez por todas, a graça está na síntese: somos o resultado de nossos sonhos, nossas lutas, nossos projetos exaustivamente pensados e elaborados. Acima de tudo – e em larga medida -, somos filhos do acaso, do velho, assustador e inevitável acaso.

O acaso determina importantes momentos da vida: ele é o grande responsável por acreditarmos na frase: “O bom é estar no lugar certo, na hora certa, em companhia da pessoa certa”. Às vezes todas as certezas são desenhadas, planejadas, perseguidas sem trégua. Muitas vezes, contudo, as coisas simplesmente acontecem, sem que as tenhamos imaginado, sem que as tenhamos sequer levado em conta uma única vez anteriormente.

Muitos gênios ganharam o mundo por acaso. Uma coincidência, um atalho providencial, um “olá” bem-intencionado... São muitas as portas para o acaso. Há quem o chame de “inusitado”. Eu gosto muito de trata-lo por “imponderado”.

O acaso que também é imponderado é tudo aquilo que não podemos prever. O acaso aparece no hiato irrefreável que existe entre o mundo e a nossa capacidade de conhecer. Como o pensamento e a inteligência humana são infinitamente menores que a realidade, o acaso surge para que reconheçamos nossas limitações, aceitemos a dúvida como fonte da vida e adotemos a humildade como um grande e insubstituível ideal. Acolher o acaso quase sempre é demonstração de saber amar – ou, no mínimo, estar pronto para grandes paixões.

Há quem considere que os anjos são os guardiães do acaso – e que eles enchem nossa vida de fatores inusitados para que não percamos a fé nem deixemos de olhar para o céu. Nesse mesmo time dos anjos estão os santos e orixás, que nos lançam pelas trilhas do acaso para descobrirmos, enfim, que nunca estamos sós.

O acaso, seja lá quem o promova, é do curso da vida, que de tão perfurante e misteriosa só pode ter surgido como um grande acaso na história da criação.

21 julho 2013

Artes liberais


"Cidade do Lago", pintura de Leonid Afremov

O mundo moderno tem uma de suas bases fincadas nas artes liberais. Eu diria mais: a base de sustentação do melhor que a modernidade pôde realizar são as artes liberais e tudo que ela promoveu nos últimos séculos.
 
A filosofia e as ciências humanas, o teatro e o cinema, a literatura e a música, a cultura, enfim, permite que sejamos melhores, sonhemos mais, superemos dificuldades e escancaremos horizontes.
 
T. S. Elliot, um bom analista conservador, afirmou que a cultura vem antes e sustenta todas as formas de conhecimento. Hoje, com a matança progressiva das artes liberais, acredita-se que o conhecimento não tem bases, reduzindo tudo ao discurso da eficiência, da agilidade e das formações enxutas e objetivas. Ou seja, reduzindo tudo, apenas.
 
Em nome de necessidades urgentes e interesses imediatos, conteúdos são transmitidos sem que haja no receptor a base cultural indispensável. Resultado: tragédias de uma comicidade lamentável.
 
Nas escolas e, ainda mais, nas universidades, a cultura perdeu lugar. O espaço e o interesse dedicados às artes liberais no mundo educacional são mínimos, tão mínimos que já imperceptíveis.
 
Por toda parte, o genocídio vitimou a filosofia, a sociologia, a literatura, o cinema, o teatro, a política, os estudos que exaltam a investigação sobre o humano, colorem o conhecimento e dão vida à sensibilidade e a visões de mundo mais abrangentes e ricas.
 
Sem cultura, a barbárie aniquila a gramática, o raciocínio crítico e as dúvidas que permitem ao espírito elevar-se. No imediato lugar que agora ocupa a incultura, brotam gráficos, mentiras e muita autoajuda, esse libelo da estranheza absoluta do ser humano diante do seu presente, do seu passado e, pior, do seu futuro.
 
A grande questão que a morte das artes liberais em nosso triste e opaco tempo levanta é calamitosa: afinal, seremos capazes de sobreviver num mundo sem inteligência?