24 janeiro 2013

Democracia

"Marat Tião", de Vik Muniz, brasileiro do mundo que tira poesia de onde menos se pode imaginar. Quem não viu o filme "Lixo Extraordinário", que conta um pouco da história de vida dos cidadãos valentes do Aterro Gramacho, em Duqie de Caxias, Baixada Fluminense, RJ, transformada pela arte e pela sensibilidade, bem menos saberá a respeito da democracia, essa andarilha da liberdade. 

Ela vem dos gregos. Anunciada nos encontros entre cidadãos na praça pública, ela trazia a vontade das palavras e a força das ideias. Ela, caprichosa, não podia existir onde todos fossem idênticos, concordassem em tudo. Vaidosa e louca por cortejos, ela ama a diferença, o encontro dos distintos, a convivência tranquila da pluralidade. Numa palavra, ela é festeira.

Com o passar dos séculos, ela foi sendo esmagada por guerras, tiranias e até por quem jurasse falar e fazer em nome de Deus. Por um período muito longo, ela foi clandestina, vagou solitária pelas ruas escuras da história. Ninguém a reconhecia. Ninguém podia sequer desejá-la por perto. Abandonada e improvável, ela flanou diante de muitos acontecimentos que timidamente lhe acenavam, mas não tinham fôlego nem condições para amá-la verdadeiramente.

No curso das revoluções sociais do século XVIII, ela foi lembrada inúmeras vezes por filósofos, escritores, trabalhadores e lutadores do povo que queriam porque queriam saber do seu paradeiro. Muitos declaravam ser seu amigo de longa data. Outros, menos lúcidos e completamente extemporâneos, queriam fazer crer que eram seus proprietários.

Num mundo que foi se hegemonizando por meio de valores burgueses – em que a base era comprar barato e vender caro -, ela foi perdendo brilho diante de tanta competição, tanto individualismo, tanto exclusivismo de interesses. Os reais novos donos do mundo e seus ideólogos (liberais ou conservadores, tanto faz) fizeram de tudo para derrotá-la. Quando sua presença já não mais podia ser negada, tentaram limitá-la, aferroá-la, destituí-la do seu grau mais substantivo, qual seja: a soberania popular.

Hoje, ainda tentando superar o prolongado tempo de equívocos, ilusões e horrores, a humanidade não esconde mais que somente com ela poderá aprender o melhor caminho para a paz, a justiça e a liberdade. Nesse entendimento, aqueles que lutam contra a desigualdade e em favor de um ser portador de si mesmo saíram à frente.

À esquerda da vida e da história, lá está ela, linda e incontestável, bajulada por todos. Lá está ela, a coragem-saga do tempo. Lá está ela, a democracia!