28 janeiro 2013

É preciso ser imenso para saber ser só


Eu não sei dizer se foi sonho ou realidade. Desde as seis horas da manhã, hora em que despertei por causa da forte luz de sol que invadiu meu quarto, só faço tentar lembrar se estive mesmo com ela em todos aqueles lugares, vivendo os fatos mais marcantes da minha vida, ou andei dormindo pesadamente por horas, muitas horas.

Como não há em mim nem em minhas roupas cheiro do mar ou qualquer sinal de seus beijos e frenesi corporal, tendo a aceitar que delirei pra valer durante a última viagem pelas madrugadas de minhas fantasias. De dia - e não importa o que eu esteja a fazer -, penso tanto nela (a quem jamais vejo, não sei onde nem com quem está) que, ao fechar os olhos, um mundo diferente se abre, no qual posso senti-la, conhecer aquilo que, antes do sono, é só vontade, louca e corrosiva tentação.

Ela tem metade da minha idade, praticamente. Tem no rosto um sorriso estampado, largo, atraente como imã, um circuito de oposições. O corpo - que, apesar de nunca ter visto, sou capaz de descrever em detalhes e até alguma licenciosidade - é miúdo, com curvas a lápis, perfeitas. O cheiro dela (uma sensação que povoa de fio a pavio meu imaginário) é pura paralisia. Às vezes - e cada vez mais – cerro os olhos, vejo-a nua, linda, perfumada, sorrindo para mim, fazendo juras de amor eterno e me dando lições odisseicas de prazer e felicidade.

É bem provável que, na última vez, eu tenha passado tempo demais de olhos fechados, contagiado pela paixão que massacra meu peito, totaliza meus pensamentos. Não consigo, então, lembrar se estive naquela praia; se beijei tanto aquela mulher; se a tive em meus braços de modo tão explícito, tão vertiginoso.

Como disse, inexistem sinais do mar e do amor em mim nesta manhã ensolarada. Nada, por menor que possa ser.

A dúvida sobre o real e o não real faz diluírem os sentidos, lançando-os à inquietação, às mais perigosas e indesejáveis manifestações da angústia.

Nunca tive tanta beleza e paixão como agora em meus pensamentos – a lua sorri para mim, ainda que na pênsil ponte dos meus tardios delírios