14 janeiro 2013

Multidão

"Multidão", desenho com caneta esferográfica, de Eduardo Cambuí Junior

A multidão nos persegue, está em toda parte, caminha em todas as direções. O dicionário, ao se referir a ela, substantivo feminino, fala em grande quantidade de coisas ou pessoas, conjunto enorme de determinada quantificação, concentração, fluxo, intensa ocupação espacial. Nas multidões só há mesmo o número e a massa – nunca subjetividade, jamais qualidade.

Na História (o grande livro dos acontecimentos humanos), a multidão tem sido protagonista – livros, jornais, revistas e sites de Internet idolatram a multidão, uma vez que vivem de explorar estatísticas, tabelas, gráficos e probabilidades. Quando a multidão é a personagem principal, tudo que é humano desaparece. No lugar do sujeito surge o barulho, a manipulação, a tensão, o medo. Mais: permanece a certeza de que, apesar do tumulto, nada mudará.

É claro que não falo da multidão que se reúne para falar, mas daquela que se encontra em silêncio. Não me refiro à multidão que ostenta cartazes, mas àquela que potencializa o anonimato. A multidão que nada pode é aquela que corre, nada vê nem se vê. Não falo, portanto, da multidão que canta, se dá as mãos, amplifica a utopia. No mundo das grandes cidades, da velocidade em busca da sobrevivência, da egolatria e do horror à igualdade, a multidão é mal-estar, sombra, algo a dificilmente tolerar.

O sucesso das multidões que não gritam e apenas passam, correm desesperadamente de um lado para outro, é proporcional ao desaparecimento das multidões que erguiam bandeiras, caminhavam numa só direção, partilhavam sonhos, uniam-se na luta. Se a multidão de ontem corria no tempo, a de hoje corre contra ele, em busca exclusivamente do mal menor.

É impressionante a solidão das multidões. Tanta gente, tantas cores, inúmeras origens, incontáveis destinos. A palavra, contudo, é acaso, incômodo, constrangimento. Na multidão, ainda que na hora certa e no rumo previsto, todos estão perdidos, sentem-se sós, são vazios.

A multidão é sinal de que o tempo não permite mais parar para pensar, para fazer um brinde à vida ou acenar para a verdadeira, calma e humana felicidade.