29 janeiro 2013

O mito


A estátua imponente de Prometeu à entrada da Universidade do Minho, em Portugal, simboliza muitíssimo bem a relação estreita e indissociável entre mitos e poetas: uns e outros querem dar ao homem o fogo divino da sabedoria e do poder de mudar o mundo.

Na velha Grécia, berço da cultura ocidental e espaço de origem das modernas sociedades democráticas, o papel desempenhado pelo mito era essencial.

Preocupado com as origens de tudo (mundos, fatos, personagens e valores), o mito pertencia à genealogia dos deuses, titãs e heróis. Resultado do amor entre deuses ou de relações proibidas entre divindades e figuras humanas, o mito era a verdade, a revelação indubitável de como tudo deveria ser compreendido e honrado.

Para que os mitos chegassem aos homens e a eles parecessem de fato uma revelação, os poetas foram escolhidos pelos deuses para narrá-los ao povo. Sim, os poetas, os rapsodos – homens de cultura, sensibilidade e portadores da confiança de todos. É incrível imaginar, num mundo tão prático e pouco poético como o nosso, o papel atribuído aos poetas, sujeitos de letras e valores nada utilitaristas, na gênese de nossa civilização. Correndo o risco de um pequeno, bem pequeno exagero, é completamente aceitável supor que, não fossem os poetas, nada haveria nesta parte do mundo a que chamamos Ocidente.

Prometeu, por exemplo, metade deus, metade humano – o mais impressionante dos titãs mitológicos -, deu aos homens o fogo divino, a chama da sabedoria: ele expropriou dos deuses o monopólio da verdade e as rédeas de todo o destino. Ainda que pudesse antever o trágico castigo que lhe recaiu sobre os ombros (e as vísceras!), não hesitou em tentar.

Dos mitos devemos resgatar a força de seguir em frente, insistir, mesmo quando possíveis derrotas acenem no tempo. Das derrotas nossas, as futuras gerações irão colher vitória e mudança. E isso será, lá na frente, narrado por muitos, muitos poetas.