30 janeiro 2013

Tolerância

 
A vida é um ato tenso e contínuo. No correr dos anos, o processo evolutivo da existência revela avanços, retrocessos, alegrias e decepções. Todos que tentaram conter a vida, moldá-la, predizê-la o tempo todo, falharam. E tiveram de aprender duramente a conviver com a única das certezas, qual seja: a absoluta fragilidade de tudo que é de fato humano.
 
O mundo moderno, temperado a lutas e mais lutas, quebras difíceis de antigos e cristalizados poderes, benefícios e mentalidades, para sobreviver a si mesmo, teve de desenvolver o ideal da tolerância. Tolerar não pode ser reduzido apenas a suportar, ter forçosamente de aturar. Essa redução liberal da tolerância transforma o convívio em castigo, a troca de experiências num insuportável e ameaçador exercício do viver.
 
Após séculos de guerras e insurreições que desprezaram o outro e estigmatizaram o diferente como inferior, culpado ou tão somente infecundo, a tolerância ressurge como ingrediente da autocrítica – ela é, essencialmente, saber que ter de pedir perdão não é exclusividade de ninguém.
 
Respeitar o diferente é saber que a diferença está em tudo e em todos. Conviver é assumir que se é imperfeito, incompleto e insuficiente, que a necessidade do outro está no fato de que nele pode estar o que se procura, o eterno ausente – algo que, muitas vezes, se revela indispensável à vida.
 
Nesse sentido, tolerar é abrir-se para o mundo, dele estar à espera, nele residir, com seus personagens partilhar. A tolerância não é o suspiro pobre do indivíduo obrigado a suportar o mundo. Não. Ela é o enigma que reúne os indivíduos no processo de fabricação da realidade, de modo mais amplo, extensivo e comunitário. O ato de tolerar não é individual; é coletivo e socializante.
 
Diante do fracasso das orgias do dinheiro, que filiaram a seu clube meia dúzia de sanguessugas do planeta humano, a tolerância como inspiração coletiva ao quinhão democrático – como autocrítica ininterrupta – é a chance de um mundo de novos princípios e valores, todos eles sem preço nem cotação no mercado financeiro. Tolerar, contra o efeito neoliberal, é simplesmente reaprender a amar.