27 fevereiro 2013

Companheiros


Lembro que na adolescência éramos todos companheiros. Frequentávamos shows de rock e vivíamos a redemocratização do país, abraçados em comícios políticos, fazendo tremular a bandeira da esperança.

Nada sabíamos de companheiros infiéis ou do cinismo fácil de achar que todos são camaradas da boca para fora. Éramos mesmo companheiros de jornada. Quase tudo vivemos juntos na primeira vez: o susto, o choro, o grande riso, o inesquecível de cada um dos tantos amores. O companheirismo não era uma formalidade, um tratamento vazio; ele era a essência de nossa presença no mundo.

A vida adulta não tardou a chegar. Compreendemos, então, o sentido exato da expressão “o tempo urge”. E descobrimos que, além de voar sem escalas, o tempo não volta, haja o que houver. Os companheiros ganharam o mundo. Uns permaneceram na megalópole, outros foram buscar a felicidade longe de casa. A maioria cresceu rapidamente, foi para a universidade, fez escola, conquistou profissão, povoou a Terra de nosso Deus.

Os companheiros têm todas as cores. Ontem e hoje, eles são de esquerda e de direita, liberais e socialistas, conservadores e progressistas. Muitos companheiros, no entanto, nunca se ocuparam dessas definições, desses rótulos. Nem por isso deixam de ser companheiros eternos.

O companheiro de verdade não é vergonha nem arrependimento; ele não força, não induz, não impõe. O companheiro de toda a vida é pura fraternidade, espontânea presença, apoio e honestidade incondicionais. Ao dizer “bom dia” a um companheiro, o céu se abre – se lá estiver o Sol, o grande astro-rei logo convida as pequenas estrelas para um congraçamento da diversidade entre luzes e infinitos.

Os companheiros de uma vida não lamentam guerras frias nem choram muros que caem. Muitíssimo pelo contrário. Se companheiros de fato, celebram juntos a liberdade alcançada e a felicidade sonhada – entendem, enfim, o poder existente na alma dos que têm amigos e desejos para compartilhar.

Os bons companheiros não nascem, portanto, em partidos políticos ou sindicatos; eles não almejam o Estado nem a tutela do mundo. Os companheiros, que só podem ser bons por natureza, nascem nas estradas da vida, na primeira idade, e reivindicam tão somente um lugar na Terra – um espaço no qual vejam e sejam vistos, falem e ouçam, apareçam, compareçam, realizem seu tempo. Os companheiros são o abraço que não se parte, o sonho que nunca acaba, a partilha da vida que dá sentido a todas as coisas (e brilho a todas as pessoas).

Caso a lembrança de um companheiro ou de uma aventura de velhos amigos suscite dor ou lágrimas de pesar, nunca houve, então, companheirismo: um lado e outro queriam tudo, menos dizer, de coração: “bom dia, companheiro!”.

Nesses tristes episódios de companheirismo forçado, o Sol não comparece e as estrelas jamais são convidadas para a festa da vida, aquela que se faz entre brindes, sorrisos e muito amor pelo que se é e se sonha.

14 fevereiro 2013

Instinto


Há em tudo que respira um instinto de autopreservação. O melhor e o pior deste mundo querem viver – e contam com seus instintos para o êxito dessa permanente e sempre difícil tarefa.

Proteger-se depende muitas vezes de mentir ou dissimular. Em nome da preservação da vida, muitos aceitam o inaceitável e apelam ao inapelável. Em algum momento da já extensa luta pela sobrevivência, a vida criou outros mundos para justificar o mal que praticamos contra este mundo e todos os seus habitantes, em diferentes tempos e nos mais inóspitos lugares.

O instinto, contudo, opera nos níveis básicos da vida. Ele nos incita à proteção contra o frio e o calor; nos diz a hora de beber e comer; nos convida a parar, descansar e dormir. O instinto, que é animal e pouco racional, por isso se faz tão natural, alerta acerca de perigos e emboscadas; premia com alívio e sensação de ter renascido aqueles que o levam a sério – nessas horas, o velho instinto muda de nome e passa a ser chamado de pressentimento.

Envolvido pela cultura, o instinto se desanimaliza e flerta com o pensamento racional. Instinto e cultura formam o perfeito par da melhor definição daquilo que consideramos humano. Muito mais do que a sobrevivência física, o humano instinto deseja a integridade moral. Para tanto, ele nos ensina sobre os riscos de ultrapassar limites, desrespeitar convenções, desconsiderar ou desprestigiar linguagens, conceitos e instituições.  Nesses termos, a cultura não quer um instinto livre: toda liberdade é uma perturbadora ameaça aos cárceres culturais.

A família infeliz, o emprego sufocante, os estudos forçados, o dinheiro proclamado como exigência da felicidade, tudo isso seria facilmente destruído pelo instinto em seu estado animal e, portanto, natural. Os grilhões da cultura, que juram agir em nome da preservação de toda a espécie, neutralizam o gosto pela abusada condição libertária dos instintos - e, então, castram-no, deixando todo o mundo com eterna saudade do que ousou sonhar, mas pelo que jamais teve coragem de verdadeiramente lutar.

07 fevereiro 2013

Hábitos


Hábitos fazem mestres e guerreiros, despertam e cultivam paixões, ensinam algo sobre as estradas da vida e os atalhos do prazer e da beleza

O senso comum consagrou mundos atrás que o hábito faz o monge. Somos o que fazemos, aquilo que insistimos refazer, contra todos e contra ninguém. A sabedoria popular também costuma repetir que é mais fácil o humano aprender a voar do que se livrar de velhos hábitos.

Penso que existam bons e maus hábitos, sejam novos, sejam velhos. E vou um pouco além de pensar: eu acredito de verdade que precisamos cultivar o hábito de ter bons hábitos.

Há uma carência de bons hábitos no mundo contemporâneo. É raro o hábito da cordialidade e do sorriso aberto; está em vias de extinção o hábito da leitura; e anda muito sumido o hábito do desapego. No lugar da mão estendida, do culto a um bom livro e da adoração às ideias acima das coisas, prevalece o péssimo hábito do amor às posses e da idolatria aos números que quantificam ganhos, vitórias de pura ilusão, êxitos e sucessos frívolos.

Virou hábito o ser humano adornar-se de tudo que é volume e insensatez para encobrir seus abismos. Aliás, por que se propaga tanto o hábito de fugir às dores do mundo? É hábito dos mais arraigados não querer chorar, não querer sofrer, viver só para alegrias e nenhuma frustração. O hábito corrosivo de correr atrás da felicidade a qualquer preço anulou a verdade que sustenta a maior das certezas desta vida, qual seja: é preciso cultivar o hábito de aprender com as derrotas. São elas, as derrotas, que ensinam, com o tempo (somente com o tempo!), quais são os hábitos que valem a pena.

Ouço todo dia que devemos mudar sempre; que devemos nos adaptar aos imperativos da realidade; que devemos, enfim, globalizar nossos sentidos. Com a exigência da dinâmica sem fim, some de nós a paciência que velhos e bons hábitos ensinam a ter – nosso olhar perde foco e nossas ideias não têm mais valor nem capacidade de concentração e dispersão.

O melhor dos sempre bons e, portanto, rejuvenescidos hábitos é que eles são infalíveis na arte de nos instruir a como estar a sós e, ao mesmo, tempo, jamais nos perdermos na solidão. Nesses termos, o mundo da vida é um hábito dos mais imensos.

04 fevereiro 2013

Vitória

 
Nascemos com a missão de fazer um sonho viver
Mesmo com pessoas e pedras fechando o nosso caminho
Fazem necessário que não tenhamos nenhuma paz
Porque a alma descansada não brilha jamais
Inabalável
Certo da vitória

[Dorsal Atlântica, "Vitória'", 
do álbum Dividir e Conquistar
de 1988]
 
E se de repente eu descobrisse que acreditei nas coisas certas, que confiei no bom ideal, que depositei fé nas personagens da verdade?

E se de uma hora para outra eu viesse saber de uma vez por todas que as dúvidas que alimentei eram mesmo as interrogações certeiras de quem deseja aprender com a vida? No turbilhão de emoções que chacoalham sonhos e convicções, parece que foram realmente bons os créditos que efetuei, os débitos que consenti.

E se, no amor ao mundo, tal qual Arendt e Benjamin, em seus tão diferentes caminhos, eu recebesse a faixa de vencedor, aquela que a vida dá aos que lutaram do lado certo? Eu deveria, então, aplaudir as opções que fiz durante a busca pelo mapa de minhas minas?

Tenho sonhado, sim, com essa consagração. Observando tudo à minha volta, tenho amado mais o que sempre amei, defendido mais aquilo em que sempre acreditei. Tenho feito, enfim, a defesa do que sou, do que tanto lutei por me tornar – e dos defeitos e equívocos tenho retirado a possibilidade de um belíssimo futuro jardim de jasmins.

Há em mim, como alma nova, um doce sabor de vitória. Estou me sentindo tranquilo. E muitíssimo bem.

01 fevereiro 2013

A praia


Eu confesso que já comprei um livro pela capa e pelo nome. Foi o romance “Na praia”, do britânico Ian McEwan. Se o erro é imperdoável, minha sorte não foi menor: o livro é belíssimo; a história, cativante; o autor, um dos meus favoritos desde o episódio, digamos, impulsivo.

A capa do livro me chamou a atenção pela suave onda quebrando à soleira da praia, numa atmosfera enrubescida, sugerindo o entardecer. O nome do livro me fez pensar por longos instantes a respeito do mais belo e pleno lugar deste mundo.

Desde criança, a praia me traduz os melhores momentos da vida. Não apenas férias ou descansos prolongados, mas principalmente a proximidade com a divina face da criação. Na praia, ondas, águas e horizontes põem o céu perto da gente, tocam fundo nosso coração. Recordo que toda vez que me flagro fitando o mar, pés descalços na areia, não tenho ideia dos meus problemas, pouco me importo com as dores do mundo que perfuram a alma. Acredito que perto do mar me faço humano na essência da expressão – brota em mim um amor desmesurado à vida, o futuro se torna promissor, as grandes paixões juram regressar.

Ouvi certa vez que alguém julgava inabitáveis as terras distantes do mar. Há, certamente, um exagero nisso. O mar não é obrigatório; podemos viver, caminhar, criar, trabalhar longe da brisa marítima, sem o horizonte perfeito. Mas, apesar disso, existe uma verdade nas entrelinhas do imperativo que torna o mar imprescindível, qual seja: aqueles que reconhecem os segredos das ondas e peregrinam pelas extensas orlas praianas sabem como é fascinante o sol em sua dileta morada – essas pessoas sorriem mais, desistem menos, vão aos confins do mundo para desenterrar o mapa dos seus sonhos e para abraçar as sensuais silhuetas da felicidade.

Na praia, soube que a vida nunca deve cessar, que os sonhos vão e vêm, que o mundo sempre guarda incríveis surpresas. Na praia, aprendi que a vida nada mais é do que um dia após o outro, com amor e bravura no recheio das horas e no tempero da mais cobiçada e impressionante liberdade.