01 fevereiro 2013

A praia


Eu confesso que já comprei um livro pela capa e pelo nome. Foi o romance “Na praia”, do britânico Ian McEwan. Se o erro é imperdoável, minha sorte não foi menor: o livro é belíssimo; a história, cativante; o autor, um dos meus favoritos desde o episódio, digamos, impulsivo.

A capa do livro me chamou a atenção pela suave onda quebrando à soleira da praia, numa atmosfera enrubescida, sugerindo o entardecer. O nome do livro me fez pensar por longos instantes a respeito do mais belo e pleno lugar deste mundo.

Desde criança, a praia me traduz os melhores momentos da vida. Não apenas férias ou descansos prolongados, mas principalmente a proximidade com a divina face da criação. Na praia, ondas, águas e horizontes põem o céu perto da gente, tocam fundo nosso coração. Recordo que toda vez que me flagro fitando o mar, pés descalços na areia, não tenho ideia dos meus problemas, pouco me importo com as dores do mundo que perfuram a alma. Acredito que perto do mar me faço humano na essência da expressão – brota em mim um amor desmesurado à vida, o futuro se torna promissor, as grandes paixões juram regressar.

Ouvi certa vez que alguém julgava inabitáveis as terras distantes do mar. Há, certamente, um exagero nisso. O mar não é obrigatório; podemos viver, caminhar, criar, trabalhar longe da brisa marítima, sem o horizonte perfeito. Mas, apesar disso, existe uma verdade nas entrelinhas do imperativo que torna o mar imprescindível, qual seja: aqueles que reconhecem os segredos das ondas e peregrinam pelas extensas orlas praianas sabem como é fascinante o sol em sua dileta morada – essas pessoas sorriem mais, desistem menos, vão aos confins do mundo para desenterrar o mapa dos seus sonhos e para abraçar as sensuais silhuetas da felicidade.

Na praia, soube que a vida nunca deve cessar, que os sonhos vão e vêm, que o mundo sempre guarda incríveis surpresas. Na praia, aprendi que a vida nada mais é do que um dia após o outro, com amor e bravura no recheio das horas e no tempero da mais cobiçada e impressionante liberdade.