18 março 2013

Falando com Deus


Eu nunca parei para racionalizar minha fé em Deus. Desde criança, nos bons e nos maus momentos, eu me dirijo a Ele – desabafo, peço desculpas, exponho as vísceras de meu medo e o fino cristal da minha humana condição. Nunca me questionei sobre o eventual fato de estar a falar sozinho ou a praticar um inócuo monólogo. Nunca mesmo.

Diante da dor dos outros, aprendi a não ser indiferente. As injustiças do mundo sempre me agridem (os desfavores, as humilhações, as tolices do poder, as irritações da arrogância, tanta coisa...). Impotente e sem saída, rogo a Deus que me dê um pouco de atenção; em geral, conversamos à noite, quando me deito em minha cama e fecho os olhos para imaginar a versão muito particular que tenho da Ilha Utopia.

Vejo num bom livro que me surge, numa canção nova que me encanta, num filme cheio de lições que me interpela as respostas de Deus. Não fico a aguardar sinais claros e incontestáveis. Na verdade, clara é a minha fé; incontestável, o fato de ela ser válida e inexplicável, intransferível. Ouço, vejo, sinto Deus nas pessoas e nos eventos que vão preenchendo meu caminho, de passos plurais, ideias singulares e francamente abertas. 

Perguntar de onde vem a luz, o porquê de as coisas serem assado ou assim, qual a explicação pra tudo de bom ou ruim à volta, acima de tudo, é força introspectiva, valor do espírito que vive a transcender. Fácil culpar o mundo; mais fácil ainda dizer que Deus não ama ninguém ou o coisa-ruim anda vencendo a batalha entre o bem e o mal. Em todos os sentidos, essa racionalização irracional (que mestre Weber emprestaria à falsa racionalidade capitalista dos negócios corporativos) não eleva a fé, não explica Deus, não oferece alternativas.

Aprendi (e continuo aprendendo) que Deus é tão somente a oportunidade que cada humano tem de se conhecer melhor, saber de seus limites, apoiar-se no amor ao próximo, posto que é frágil e incompleto em essência. Quando me volto para Deus, percebo que sou um fragmento de sua criação, uma notável partícula humana que vive em busca de seus bilhões de outros pedaços, que estão, todos eles, na família humanidade.

Deus nos fez pequenos para descobrirmos a grandeza. Deus nos fez frágeis e quebradiços para sairmos à cata da imortalidade e do vigor sem fim. Deus nos fez aos bilhares para ensaiarmos eternamente a montagem do quebra-cabeças que ele concebeu, criou e para cá enviou em sete longos dias (com direito divino ao descanso) – um tempo astronômico para nossa hoje tão egoísta e imediatista compreensão da vida.

Realmente, não questiono Deus nem sua existência. Questiono a mim e o tipo de vida que vou levando. A Deus peço paz, luz e bem-estar; peço proteção para a minha família; peço também a graça do amor no cruzamento de todas as famílias pelas estradas do mundo.

A casa de Deus tem muitas moradas – isso foi das primeiras e melhores coisas que aprendi sobre Ele. Eu, um comunista impenitente, um anarquista meio consequente, um libertário incorrigível, terei lugar lá, sim. A certeza disso me faz falar com Ele, apanhar seus sinais, reconhecer seu amor por mim. No fundo, todo dia, toda hora, conversamos sobre o futuro, a época em que iremos viver juntos, no teto dos tetos, num agradável tempo eterno em que tomaremos café sempre juntos, toda manhã.

16 março 2013

Quinta-feira

"Going to work", pintura de Lawrence Stephen Lowry, de 1943, uma belíssima alusão à esperança que guia os passos de quem trabalha, os artífices exclusivos do desenvolvimento humano e da vida inteira. Desconfio que uma beleza dessas deve ter sido concebida numa tarde de quinta-feira...

Em minha certidão de nascimento consta que nasci numa quinta-feira, às 22 horas e 5 minutos. E há um bocado de sorte nessa história: como cheguei a este mundo num 28 de fevereiro, faltando menos de duas horas para o dia seguinte, devo agradecer aos céus por não ter nascido num ano bissexto.

A rica cultura popular afirma que os originais de 29 de fevereiro só amadurecem muito lentamente; de fato, a cada quatro anos envelhecem somente um. Trocando em miúdos: um ser de quatro décadas e uma vontade de um menino de dez anos para viver, sonhar e sorrir – é isso que eu seria hoje se não tivesse respeitado os rigores e as artimanhas do tempo.

Francamente, acredito que um pouco dessa “maldição” do 29 de fevereiro chegou a me contagiar. Não consigo deixar meu coração-menino, daquele que o genial Fernando Sabino dizia morrerem os que nunca abandonam a esperança e o desejo de amar infinitamente as belas coisas e pessoas do mundo.

Antigos povos pagãos reverenciam às quintas-feiras o deus do dia, Júpiter. Na mitologia grega, quinta é o dia de Zeus, deus dos deuses e dos homens, senhor de tudo e de todos.

Cristãos em todo o mundo têm na quinta-feira um dia de devoção à memória de Jesus. Trata-se de um momento da semana para a partilha dos pães (e da vida!) e profundas reflexões sobre o gesto magnífico de renunciar a si em nome de uma felicidade maior, capaz de abraçar o planeta e vislumbrar tempos melhores.

Desde a infância, talvez pelo fato de ter sido meu primeiro dia de vida, talvez porque Cristo me apareça na forma de amor e luta por justiça e liberdade, eu prefiro a quinta-feira a todos os demais dias da semana. Nem a euforia de um sábado, nem a rede preguiçosa de um domingo, nem a noite eterna de uma sexta-feira me seduzem mais do que a quinta, o dia mais abençoado, leve e livre da semana.

Numa quinta-feira nasci. Acho que foi também numa bela tarde de quinta que a esperança bateu à porta do coração humano – a magia deve estar nisso, decerto.

15 março 2013

Distante de Assis


Desde a tarde de terça-feira 12 de março, quando Jorge Mario Bergoglio surgiu numa das sacadas da Basílica de São Pedro na condição de novo papa da igreja católica, pouco tenho feito além de responder a curiosidades, questões pertinentes e impertinentes, importância do líder vaticanista mundo afora etc. 

Fora o fato de o papa Francisco ser latino-americano, pouco há de novidade na escolha da cúpula de Roma. O discurso sobre o desgaste da cúria romana, fato que acelerou a urgência de ir buscar "no fim do mundo" um novo sumo pontífice, me parece exagerado (o tal desgaste atravessou o século XX, flertou com o nazismo e as ditaduras do mundo; ademais, viu crescerem todas as religiões do planeta, enquanto o catolicismo só caiu, só se perdeu nos próprios riachos do imobilismo). Que o papa não foi escolhido para uma missão longa e revolucionária (basta lembrar que ele já tem 76 anos e foi eleito no vácuo da estranha renúncia de Ratzinger), isso é certo. Que ele é moralmente muito conservador e leva sobre as costas o apoio à ditadura sangrenta da Argentina nos anos 1970 e 80, isso é indelével. Mais: recai sobre Francisco uma dúvida quanto à nobreza da escolha de seu novo nome - na minha opinião, deve-se mais ao jesuíta que colonizou o diferente do que ao Assis que amou o próximo, ainda que sempre distante. 

Tenho dito a todo o mundo que, dentre as escolhas possíveis, Bergoglio não é das piores, apesar do que já escrevi e também do fato de ele ser da tropa de elite no combate à ideia de uma igreja que, hipertardiamente, atinja o século XXI. Não virá de Bergoglio nada que pense o respeito à diversidade sexual e à emancipação feminina, nem nada semelhante ao profundo espírito reformador de um João XXIII, por exemplo. Certamente não virá. 

A "defesa da vida" (lema inócuo que se debate com uma prática contraditória e muito doída para as minorias sociais) ainda terá de lidar com os fantasmas que habitam os corredores luxuosos do Vaticano e, num passado recente, apoiaram genocídios e penas de morte por Estados-nação. 

Talvez venha do papado do argentino um pouco mais de misericórdia para com os pobres do mundo, o que não significa que a riqueza exploratória e desumana do capital gigante venha a ser questionada. No lugar da luta para mudar o mundo, sobrarão os pães que atenuam a fome, mas não questionam o seu porquê. Enfim, tudo como antes nas terras vaticanas. Vida que segue. Fé que segue.

10 março 2013

Um indivíduo à esquerda


Sobre as relações entre o indivíduo e a sociedade, uma sempre tensa trama, dois autores me têm sido especialmente preciosos: A filósofa judia-alemã Hannah Arendt e o intelectual brasileiro Leandro Konder, o marxista mais influente na minha formação. De Arendt, aprecio particularmente "A condição humana", livro do qual extraí a bela lição do duplo aspecto humano da igualdade e da diferença. Se fôssemos completamente iguais, não trocaríamos experiências e não faríamos História (a vida seria uma colmeia de instintos em cruzamento permanente). Se nos perdêssemos em meio à absoluta difereça, a guerra seria a única tarefa de nossa existência. Por isso, Hannah Arendt atesta que o que há em nós de humano (a igualdade) é fundamental para que projetemos em comunhão nosso futuro neste planeta (a liberdade).

De Konder, autor de quase trinta livros (todos ocupando lugar de destaque em minha estante, bem pertinho da obra completa da autora de "Entre o passado e o futuro"), releio a toda hora um ensaio espetacular, "O indivíduo no socialismo", no qual o grande autor aponta o necessário equilíbrio que devemos construir entre nossas dimensões individual e comunitária. Se nos entregamos ao indivíduo supostamente livre que há em nós, desesperado e sedento por mais, muito mais, cedemos ao egoísmo e flertamos com a hipercompetitividade destrutiva. Se nos entregamos cegamente ao coletivo, eliminamos singularidades, transformamo-nos em massa de manobra - no essencial, deixamos o horizonte aberto e ensolarado para o fascismo e o fundamentalismo dos grupos mais radicais, que vivem da anulação histórica dos sentimentos e das aspirações individuais.

Nesses termos, quero mesmo a igualdade, e entendo que ela será construção da diversidade, num intenso movimento em intransigente defesa das particularidades. A renovação da esquerda (que nunca foi tão urgente!), imagino, passa, necessariamente, pelo desenvolvimento de um amplo e profundo debate sobre esse complexo tema.