15 março 2013

Distante de Assis


Desde a tarde de terça-feira 12 de março, quando Jorge Mario Bergoglio surgiu numa das sacadas da Basílica de São Pedro na condição de novo papa da igreja católica, pouco tenho feito além de responder a curiosidades, questões pertinentes e impertinentes, importância do líder vaticanista mundo afora etc. 

Fora o fato de o papa Francisco ser latino-americano, pouco há de novidade na escolha da cúpula de Roma. O discurso sobre o desgaste da cúria romana, fato que acelerou a urgência de ir buscar "no fim do mundo" um novo sumo pontífice, me parece exagerado (o tal desgaste atravessou o século XX, flertou com o nazismo e as ditaduras do mundo; ademais, viu crescerem todas as religiões do planeta, enquanto o catolicismo só caiu, só se perdeu nos próprios riachos do imobilismo). Que o papa não foi escolhido para uma missão longa e revolucionária (basta lembrar que ele já tem 76 anos e foi eleito no vácuo da estranha renúncia de Ratzinger), isso é certo. Que ele é moralmente muito conservador e leva sobre as costas o apoio à ditadura sangrenta da Argentina nos anos 1970 e 80, isso é indelével. Mais: recai sobre Francisco uma dúvida quanto à nobreza da escolha de seu novo nome - na minha opinião, deve-se mais ao jesuíta que colonizou o diferente do que ao Assis que amou o próximo, ainda que sempre distante. 

Tenho dito a todo o mundo que, dentre as escolhas possíveis, Bergoglio não é das piores, apesar do que já escrevi e também do fato de ele ser da tropa de elite no combate à ideia de uma igreja que, hipertardiamente, atinja o século XXI. Não virá de Bergoglio nada que pense o respeito à diversidade sexual e à emancipação feminina, nem nada semelhante ao profundo espírito reformador de um João XXIII, por exemplo. Certamente não virá. 

A "defesa da vida" (lema inócuo que se debate com uma prática contraditória e muito doída para as minorias sociais) ainda terá de lidar com os fantasmas que habitam os corredores luxuosos do Vaticano e, num passado recente, apoiaram genocídios e penas de morte por Estados-nação. 

Talvez venha do papado do argentino um pouco mais de misericórdia para com os pobres do mundo, o que não significa que a riqueza exploratória e desumana do capital gigante venha a ser questionada. No lugar da luta para mudar o mundo, sobrarão os pães que atenuam a fome, mas não questionam o seu porquê. Enfim, tudo como antes nas terras vaticanas. Vida que segue. Fé que segue.