16 março 2013

Quinta-feira

"Going to work", pintura de Lawrence Stephen Lowry, de 1943, uma belíssima alusão à esperança que guia os passos de quem trabalha, os artífices exclusivos do desenvolvimento humano e da vida inteira. Desconfio que uma beleza dessas deve ter sido concebida numa tarde de quinta-feira...

Em minha certidão de nascimento consta que nasci numa quinta-feira, às 22 horas e 5 minutos. E há um bocado de sorte nessa história: como cheguei a este mundo num 28 de fevereiro, faltando menos de duas horas para o dia seguinte, devo agradecer aos céus por não ter nascido num ano bissexto.

A rica cultura popular afirma que os originais de 29 de fevereiro só amadurecem muito lentamente; de fato, a cada quatro anos envelhecem somente um. Trocando em miúdos: um ser de quatro décadas e uma vontade de um menino de dez anos para viver, sonhar e sorrir – é isso que eu seria hoje se não tivesse respeitado os rigores e as artimanhas do tempo.

Francamente, acredito que um pouco dessa “maldição” do 29 de fevereiro chegou a me contagiar. Não consigo deixar meu coração-menino, daquele que o genial Fernando Sabino dizia morrerem os que nunca abandonam a esperança e o desejo de amar infinitamente as belas coisas e pessoas do mundo.

Antigos povos pagãos reverenciam às quintas-feiras o deus do dia, Júpiter. Na mitologia grega, quinta é o dia de Zeus, deus dos deuses e dos homens, senhor de tudo e de todos.

Cristãos em todo o mundo têm na quinta-feira um dia de devoção à memória de Jesus. Trata-se de um momento da semana para a partilha dos pães (e da vida!) e profundas reflexões sobre o gesto magnífico de renunciar a si em nome de uma felicidade maior, capaz de abraçar o planeta e vislumbrar tempos melhores.

Desde a infância, talvez pelo fato de ter sido meu primeiro dia de vida, talvez porque Cristo me apareça na forma de amor e luta por justiça e liberdade, eu prefiro a quinta-feira a todos os demais dias da semana. Nem a euforia de um sábado, nem a rede preguiçosa de um domingo, nem a noite eterna de uma sexta-feira me seduzem mais do que a quinta, o dia mais abençoado, leve e livre da semana.

Numa quinta-feira nasci. Acho que foi também numa bela tarde de quinta que a esperança bateu à porta do coração humano – a magia deve estar nisso, decerto.