10 março 2013

Um indivíduo à esquerda


Sobre as relações entre o indivíduo e a sociedade, uma sempre tensa trama, dois autores me têm sido especialmente preciosos: A filósofa judia-alemã Hannah Arendt e o intelectual brasileiro Leandro Konder, o marxista mais influente na minha formação. De Arendt, aprecio particularmente "A condição humana", livro do qual extraí a bela lição do duplo aspecto humano da igualdade e da diferença. Se fôssemos completamente iguais, não trocaríamos experiências e não faríamos História (a vida seria uma colmeia de instintos em cruzamento permanente). Se nos perdêssemos em meio à absoluta difereça, a guerra seria a única tarefa de nossa existência. Por isso, Hannah Arendt atesta que o que há em nós de humano (a igualdade) é fundamental para que projetemos em comunhão nosso futuro neste planeta (a liberdade).

De Konder, autor de quase trinta livros (todos ocupando lugar de destaque em minha estante, bem pertinho da obra completa da autora de "Entre o passado e o futuro"), releio a toda hora um ensaio espetacular, "O indivíduo no socialismo", no qual o grande autor aponta o necessário equilíbrio que devemos construir entre nossas dimensões individual e comunitária. Se nos entregamos ao indivíduo supostamente livre que há em nós, desesperado e sedento por mais, muito mais, cedemos ao egoísmo e flertamos com a hipercompetitividade destrutiva. Se nos entregamos cegamente ao coletivo, eliminamos singularidades, transformamo-nos em massa de manobra - no essencial, deixamos o horizonte aberto e ensolarado para o fascismo e o fundamentalismo dos grupos mais radicais, que vivem da anulação histórica dos sentimentos e das aspirações individuais.

Nesses termos, quero mesmo a igualdade, e entendo que ela será construção da diversidade, num intenso movimento em intransigente defesa das particularidades. A renovação da esquerda (que nunca foi tão urgente!), imagino, passa, necessariamente, pelo desenvolvimento de um amplo e profundo debate sobre esse complexo tema.