06 abril 2013

Vende-se


Vender é um ato de livramento. Numa economia capitalista, como a que grassa por todo o mundo, vender significa lucrar, julgar, obter vantagem numa determinada troca. Aliás, numa sociedade cujo valor predominante é o da troca, o mais aconselhável uso que devemos fazer de tudo é o da ampliação e o da quantificação. Os provérbios contaminados pela lógica da soma insistem: ser esperto é comprar por dez e vender por cem. Aqueles que conseguem adquirir por dez e repassar por mil ganham rapidamente o status de “gênios” pelo mercado e pelas consciências que deduzem ser a felicidade uma questão do mundo monetário.

Nesse jogo veloz das trocas, tudo é cogitado, tudo recebe lances e é caso válido no mercado de apostas.

Além do trivial mundo das coisas – as chamadas mercadorias, tão bem traduzidas no fruto da atividade industrial de eletrônicos, veículos e coqueluches informatizadas de uso pessoal e intransferível -, pessoas também se vendem por aí. Algumas, tornadas coisas, são vendidas por terceiros, os que lucram. Nisso estão o trabalho e a prostituição infantis, o tráfico de órgãos e o cruel e desumano comércio de recém-nascidos, os quais, via de regra, partem da América Latina, da África e da Ásia para a América do Norte e a Europa Ocidental.

Há também as vendas subjetivas. Muitos vendem ideias, trocando de opinião, aceitando se silenciar ou, bem pior, mentir em troca de duas ou três peças do vil metal. Outros tantos caem nas graças da bajulação e do puxa-saquismo, em nome de um cargo, uma assessoria, um posto, um aumento. Conheci muitos desses lambe-botas – para encontra-los, basta saber onde está o chefe ou o dono da bolsa de dinheiro e da carteira dos privilégios.

O contínuo ato de vender e se vender não faz distinção ideológica nem vê raça, sexo, condição social. Vender-se é exclusividade da fragilidade e de sua sombra mais assustadora, qual seja: a covardia. Estar permanentemente à venda, numa disposição admirável para livra-se de si mesmo, é saída fácil para quem vive dizendo que a vida é muito difícil...

De qualquer maneira, ainda assino embaixo da velha máxima do incomparável Barão de Itararé: “Aquele que se vende sempre recebe mais do que merece.”