31 maio 2013

Notícias de lugar nenhum


Dia desses eu perguntava em sala de aula aos alunos: como serão nossos dias vistos daqui a uns cinquenta anos? 

A pergunta não é nova nem rara. Vira e mexe, um filme, um contador de histórias ou mesmo um professor de Sociologia como eu cutuca a colmeia e espera respostas improváveis, que não piquem nem machuquem demais.
 
O escritor William Morris, um inglês do século XIX, exercitou essa curiosidade ao escrever “Notícias de lugar nenhum”, um romance imaginário que falava de uma Inglaterra em 2102, uma época em que havia triunfado a luta histórica por um mundo livre, fraterno e democrático.
 
Morris, que era um intelectual muito refinado, um autêntico cidadão vitoriano, não aceitava os limites da sociedade burguesa, na qual a arte era mercadoria e o povo, esquecido. Tornou-se um socialista romântico e escreveu sobre um futuro feliz, humano.
 
Lá, de “lugar nenhum”, a história de Morris mandava suas notícias de prosperidade e felicidade. Seu livro é, na verdade, um túnel imaginário, pelo qual viajam até hoje os que não aceitam perder a esperança.
 
Morris se movimentava por questões estéticas – afinal, era um homem de letras e artes, e não via muita beleza num mundo em que todos competem entre si e tornam horrorosa a convivência, dura, mesquinha, que embrutece os sentidos humanos. E o escritor inglês também se interrogava do ponto de vista ético – acreditava que onde não há beleza a vida é vazia e gira em torno de tópicos pouco solidários, bem pouco inteligentes.
 
E nós, cidadãos deste início do século XXI? O que gostaríamos de noticiar, se estivéssemos lá na frente no tempo, aos de aqui e agora? A pergunta pode ser feita de outra maneira: com o que sonhamos hoje?
 
O livro de Morris nos ensina que não há tempo a percorrer quando não sobressaem na vida os desejos futuros. Só há ética numa estética comovente. E só existe estética que comova numa sociedade ética que inspire.

25 maio 2013

As crônicas do Nelson


O futebol virou coisa do mundo de hoje, ou seja, de arte passou a negócio, de espetáculo converteu-se em refém dos olhares de apostadores triunfalistas, que só querem ganhar e em nada se interessam pela beleza, pela superação, pela transcendência. Mais do que o jogo e os torcedores, a crônica do futebol virou uma coisa do mundo atual, isto é, ficou chata, matemática, sem sal nem açúcar.

Tenho saudade das crônicas do velho Nelson.

Nelson escrevia histórias intensas após uma partida de futebol. O resultado da partida se tornava irrelevante diante da descrição mágica que ele fazia de um gol, um drible, uma costumeira cobrança de escanteio. Para a crônica do Nelson, o futebol era um gesto humano em plenitude – e como tal merecia cenário grandioso, personagens exuberantes, foco nos detalhes. Bem ao contrário de hoje, um tempo de resultados frios e descrições secas, o futebol da crônica antiga era vivo: no ato de ler o Nelson na segunda-feira, o jogo do fim de semana era disputado novamente na cabeça do leitor-torcedor.

Tenho saudade do tempo em que a crônica esportiva punha em campo as peripécias de “Sobrenatural de Almeida” e narrava a saga semanal dos ídolos “à sombra das chuteiras maravilhosas”.

Nas crônicas futebolísticas do Nelson, o futebol era um evento da cidade. Relendo a letra vibrante do profeta tricolor, é possível sentir o clima das ruas do Rio num domingo de Fla-Flu. A cidade amanhece deslumbrante, com o céu azul, o mar em calmaria, o sol a iluminar o bate-papo nas esquinas, nos bares e restaurantes, nas bancas de jornal. O que se fala do futebol hoje é como uma vinheta de rádio ou TV: anunciam-se os resultados, veiculam-se os gols da rodada. Nenhuma poesia. Nenhuma crônica como as do Nelson.

Havia romance no futebol do tempo das crônicas do Nelson. Por isso, havia paixão nos escritos que ele fabricava após os jogos. Agora, o futebol é uma máquina de franquias econômicas. Por isso, não há versos sedutores nas crônicas, nem nas de futebol, nem nas de assunto algum.

19 maio 2013

Novas últimas

Estavam lá
sobre o criado-mudo
as últimas quatro palavras:
te amei,
agora cansei.

No dia seguinte,
no fim de uma noite
de longa tarde e insuportáveis horas,
um bilhete passou por debaixo da porta.
Novas últimas três palavras:
morro
sem
ti.

10 maio 2013

O sentido da vida


Dias atrás peguei na estante de livros lá de casa o belíssimo e obrigatório “Irmãos Karamazov”, de Dostoiévski. Tirei este ano para ler mais uma vez ou conhecer os grandes nomes da literatura russa. A idade traz essas necessidades e urgências inadiáveis. A ideia de a vida acabar sem que eu tenha mergulhado fundo em Dostoiévski, Tolstoi Gogol, Tchekhov e tantos outros é, para dizer o mínimo, angustiante.
 
A epígrafe do livro de Dostoiévski, contudo, foi o que gerou essa breve reflexão, essa viagem perfurante pelos labirintos da existência.
 
Diz o autor de “Crime e Castigo” (o mais importante romance da literatura mundial em todos os tempos) que a vida não consiste apenas em viver, mas antes – bem antes! – em encontrar um sentido para ela, a doce vida.
 
Em que temos apoiado a vida nesse estranho e ainda indecifrável início de terceiro milênio?
 
No dia a dia, observando alunos e muitos colegas de trabalho na educação superior, constato que de superior a vida tem tido muito pouco. Aliás, o sentido da vida tem sido de uma inferioridade transtornante.
 
O debate de ideias, o gosto pelas questões estéticas, a discussão sobre as urgências da ética, quase nada mais habita o cotidiano dos bastidores acadêmicos. Confundem frankfurtianos com pós-modernos; falam de elitismo (palavra polissêmica) sem entender a essência contraditória da palavra. De livros, pouco de diz; de autores clássicos, nada mais se fala. As provocações do conhecimento científico e as temáticas sensíveis da arte simplesmente desapareceram. E, com elas, o pedaço que deveria haver em cada um de nós do gênero humano.
 
Pululam, então, o vazio, o bater de palavras em torno de fórmulas prontas, casuísmos, o mais nocivo dos utilitarismos. A sensação que tenho é de que o saber virou uma entediante apostila feita às pressas, recheada de erros de português e de incongruências conceituais.
 
A biblioteca vive às moscas; não há sessões de cinema, mesas-redondas para pensar o humano, o país, o mundo...
 
Enfiei-me pela leitura de Dostoiévski e passei a sonhar com dias melhores, com o grande encontro que terei com o sentido da vida. Os escritores russos entendem muitíssimo bem desse assunto.