12 junho 2013

Orgulho do vagabundo


Independentemente,
os rios encheram meus olhos,
com sonhos
e muita, muita
esperança.

Flanei,
vagabundo como nunca,
orgulhoso de não ceder
à tentação
do fácil,
do muito fácil e
cômodo
regresso.

06 junho 2013

O guincho


Há muito tempo assisti na madrugada de um sábado já perdido no tempo ao trecho de um filme que, juro que juro, não lembro se vi até o fim. A cena, contudo, logo no início do longa-metragem, desperta em mim suaves e necessárias reflexões até hoje.

O protagonista da história está nervoso, quer chegar logo a algum lugar. Seu carro, no entanto, quebra e o impede de seguir em frente. A saída é apelar para um guincho de socorro, desses que funcionam ininterruptamente.

Ao chegar ao lugar em que o personagem central da história está, furioso e inconsolável no interior de seu veículo avariado, o motorista do guincho se apresenta e pergunta, afinal, o que havia ocorrido.

Minha memória insiste em afirmar que o ator a interpretar o sujeito do carro-guincho é o excelente Danny Glover. Vou confiar na velha memória, não obstante ela venha dando muitos sinais de cansaço ultimamente.

Diante de um Danny Glover (seria mesmo ele?) calmo e solícito, o outro é pura raiva e indignação. Seu grito recorrente é: “Isso não deveria acontecer comigo!”.

Tranquilo e ciente do peso melodramático da situação, o motorista do guincho diz que nada daquilo deveria realmente estar acontecendo; que o homem encolerizado e ele deveriam estar em casa, com suas famílias, descansando, protegidos dos perigos da madrugada num lugar como aquele. E era exatamente por terem de estar, involuntariamente, naquele lugar e àquela hora que deveriam agradecer por terem um ao outro, num instante de angustiante solidão e profundo desespero.

Não lembro mesmo por que não vi o filme até o fim. Para dizer a verdade, sequer me lembro do nome do filme. Acredito que isso me tenha sido muito bom, posto que o restante da história talvez pudesse me decepcionar ou apagar de minhas lembranças essa bela imagem deixada pelo dialogo entre dois sujeitos tão diferentes, presos a uma mesma realidade, desértica, consumada como fato inevitável. A fala de Danny Glover (eu insisto que era ele!) ainda passeia pelos labirintos da visão de mundo que andei construindo para mim.

O velho Drummond estava de fato corretíssimo: nesta vida, de tudo fica um pouco.

04 junho 2013

Normal e natural


Perguntaram-me o que realmente quero dizer quando utilizo a expressão “pensamento conservador”. O que caracterizaria, afinal das contas, o conservadorismo?

Passei dias me debatendo em torno dessa questão, indagando meus botões, inquerindo minhas velhas concepções de mundo. Meu intuito era promover uma resposta simples, mas que pudesse se universalizar. Foi no momento em que saí à cata de algo que pudesse de fato se universalizar que dei de cara com a melhor resposta entre as que me sondaram e provocaram.

Quem nunca ouviu de pais e mestres – e também de autoridades públicas e empresariais – que tais e quais atitudes são “normais” e determinadas circunstâncias, “naturais”? Ao pregar que existem normalidade e naturalidade, o pensamento conservador se dissemina, conquista corações e mentes, mas não se universaliza, não demonstra ser capaz de explicar as tantas dinâmicas da vida que não se encaixam em seus padrões normais e naturais.

Por ser pouco extensivo, o pensamento conservador resiste a encarar mudanças e necessidades históricas de transformação social. Nesse sentido, o preconceito se converte em uma de suas características essenciais: se não é normal nem natural, precisa ser negado ou combatido.

Enquanto tudo aquilo que o pensamento conservador não aceita por ser considerado anormal e artificial permanece no campo das opiniões, a democracia sobrevive e segue seu curso. No instante em que aquilo que é democraticamente negado (porém tolerado como manifestação das diversidades livres) passa a ser combatido, instaura-se o fascismo, que caminha com impressionante desenvoltura da injúria à agressão, da palavra falada à violência consagrada.

O conservadorismo evita debater os imperativos da mudança e abrir-se para o novo. Por essa razão, situa-se historicamente nas manifestações de fundo político e religioso que combatem supostos ataques à moral e aos bons costumes. Vale ressaltar que a moral e os bons costumes conservadores são congelados, fingem não assistir à passagem do tempo e à entrada em cena pública de novos personagens.

Nesse sentido, respondendo bem objetivamente àquilo que me perguntaram dia desses, o conservadorismo é uma crença bastante prática num tempo que não existe – ou não deveria existir.