04 junho 2013

Normal e natural


Perguntaram-me o que realmente quero dizer quando utilizo a expressão “pensamento conservador”. O que caracterizaria, afinal das contas, o conservadorismo?

Passei dias me debatendo em torno dessa questão, indagando meus botões, inquerindo minhas velhas concepções de mundo. Meu intuito era promover uma resposta simples, mas que pudesse se universalizar. Foi no momento em que saí à cata de algo que pudesse de fato se universalizar que dei de cara com a melhor resposta entre as que me sondaram e provocaram.

Quem nunca ouviu de pais e mestres – e também de autoridades públicas e empresariais – que tais e quais atitudes são “normais” e determinadas circunstâncias, “naturais”? Ao pregar que existem normalidade e naturalidade, o pensamento conservador se dissemina, conquista corações e mentes, mas não se universaliza, não demonstra ser capaz de explicar as tantas dinâmicas da vida que não se encaixam em seus padrões normais e naturais.

Por ser pouco extensivo, o pensamento conservador resiste a encarar mudanças e necessidades históricas de transformação social. Nesse sentido, o preconceito se converte em uma de suas características essenciais: se não é normal nem natural, precisa ser negado ou combatido.

Enquanto tudo aquilo que o pensamento conservador não aceita por ser considerado anormal e artificial permanece no campo das opiniões, a democracia sobrevive e segue seu curso. No instante em que aquilo que é democraticamente negado (porém tolerado como manifestação das diversidades livres) passa a ser combatido, instaura-se o fascismo, que caminha com impressionante desenvoltura da injúria à agressão, da palavra falada à violência consagrada.

O conservadorismo evita debater os imperativos da mudança e abrir-se para o novo. Por essa razão, situa-se historicamente nas manifestações de fundo político e religioso que combatem supostos ataques à moral e aos bons costumes. Vale ressaltar que a moral e os bons costumes conservadores são congelados, fingem não assistir à passagem do tempo e à entrada em cena pública de novos personagens.

Nesse sentido, respondendo bem objetivamente àquilo que me perguntaram dia desses, o conservadorismo é uma crença bastante prática num tempo que não existe – ou não deveria existir.