06 junho 2013

O guincho


Há muito tempo assisti na madrugada de um sábado já perdido no tempo ao trecho de um filme que, juro que juro, não lembro se vi até o fim. A cena, contudo, logo no início do longa-metragem, desperta em mim suaves e necessárias reflexões até hoje.

O protagonista da história está nervoso, quer chegar logo a algum lugar. Seu carro, no entanto, quebra e o impede de seguir em frente. A saída é apelar para um guincho de socorro, desses que funcionam ininterruptamente.

Ao chegar ao lugar em que o personagem central da história está, furioso e inconsolável no interior de seu veículo avariado, o motorista do guincho se apresenta e pergunta, afinal, o que havia ocorrido.

Minha memória insiste em afirmar que o ator a interpretar o sujeito do carro-guincho é o excelente Danny Glover. Vou confiar na velha memória, não obstante ela venha dando muitos sinais de cansaço ultimamente.

Diante de um Danny Glover (seria mesmo ele?) calmo e solícito, o outro é pura raiva e indignação. Seu grito recorrente é: “Isso não deveria acontecer comigo!”.

Tranquilo e ciente do peso melodramático da situação, o motorista do guincho diz que nada daquilo deveria realmente estar acontecendo; que o homem encolerizado e ele deveriam estar em casa, com suas famílias, descansando, protegidos dos perigos da madrugada num lugar como aquele. E era exatamente por terem de estar, involuntariamente, naquele lugar e àquela hora que deveriam agradecer por terem um ao outro, num instante de angustiante solidão e profundo desespero.

Não lembro mesmo por que não vi o filme até o fim. Para dizer a verdade, sequer me lembro do nome do filme. Acredito que isso me tenha sido muito bom, posto que o restante da história talvez pudesse me decepcionar ou apagar de minhas lembranças essa bela imagem deixada pelo dialogo entre dois sujeitos tão diferentes, presos a uma mesma realidade, desértica, consumada como fato inevitável. A fala de Danny Glover (eu insisto que era ele!) ainda passeia pelos labirintos da visão de mundo que andei construindo para mim.

O velho Drummond estava de fato corretíssimo: nesta vida, de tudo fica um pouco.