29 julho 2013

O Jornalismo e eu


Sede do jornal L'Humanité, projetada em 1987 por Oscar Niemeyer e inaugurada em 1989, no Centro Histórico Seine-Saint-Denis. Fundado pelo socialista Jean Jaurès, em 1904, o jornal francês atravessou o século XX ao lado do pensamento de esquerda na batalha das ideias. Ressurgido de inúmeras crises econômicas, o periódico continua atuante e em busca de novos sinais para novos tempos. Tenho muito orgulho de, em 2004, no ano do centenário do jornal, ter sido agraciado com o "Prêmio Jean Jaurès para a América Latina", uma honraria concedida por conta de minha dissertação de mestrado, "A travessia do infinito", em que narro a epopeia dos seringueiros amazônicos à luz do brilhante pensamento de Hannah Arendt.

Minha relação pessoal com o jornalismo já tem alguma história. Desde pequeno, quando ainda pedia ao meu pai que me entregasse a “Folhinha” (encarte infantil da Folha de S. Paulo), os jornais impressos são um fetiche para mim. Naquela mesma doce época pueril, ia à banca com meu avô materno para comprar o Jornal da Tarde, que, como o nome já dizia, saía depois do almoço, por volta das 13 horas. Assinaturas eram coisa ainda nascente como fenômeno disseminável. Bacana mesmo era frequentar a banca, ser amigo do jornaleiro e folhear de tudo um pouco, até encontrar o exemplar de revista, o álbum de figurinhas, o gibi ou mesmo o velho jornal que se iria levar para casa.

Na adolescência, a paixão pela literatura me manteve ligado aos jornais. Amava os suplementos literários e as resenhas de livros. Havia colunistas que me enchiam o peito. Lembro-me, em particular, de Luis Fernando Veríssimo, Maurício Tragtemberg, Florestan Fernandes e Otto Lara Rezende. Um pouco depois, tornei-me fã do repórter Joel Silveira e do pessoal egresso d’O Pasquim (com exceção contumaz de Paulo Francis, que sempre me pareceu um chato incoerente, principalmente depois que resolveu dançar na Broadway). Recentemente, o Sabático, encarte de O Estado de São Paulo, fazia valer minha ida semanal à banca em busca dum quase extinto exemplar de papel dos velhos jornalões. Nele, nesse inesquecível suplemento da empresa jornalística da família Mesquita, havia de tudo um pouco para quem gosta de jornalismo cultural: entrevistas, críticas de bom tamanho, gente inteligente... Enfim, um pedaço de céu na obscura seara da imprensa burguesa brasileira. Qual não foi minha surpresa (sabe aquele tipo de surpresa mais ou menos previsível mas que machuca para danar?), meses atrás, quando soube da extinção do Sabático: mais uma das medidas de contenção numa época de poucos e novos leitores virtuais.

À altura dos meus vinte anos eu já estava na universidade, estudando Ciências Sociais, e havia me tornado um leitor incorrigível. Exerceram influência decisiva sobre mim os clássicos da nossa literatura (Machado de Assis, em particular) e alguns dos contemporâneos mais ilustres (Rubem Fonseca é e será para todo o sempre meu maestro soberano). A poesia de Drummond e os aventureiros títulos da Coleção Vaga-lume – com um amor todo especial por Marcos Rey – coloriram os dias de minha adolescência e hoje estão prontos – poesia e prosa – para dar mais vida e brilho ao mundo do meu filho, o pequeno e voraz leitor João Gabriel.

Por tudo que sempre havia lido, pelos ídolos que cultivei nas páginas dos jornais, pelos romances que amei, julguei que seria mais condizente tornar-me sociólogo do que jornalista. Nunca pensei em ser jornalista profissional, com diploma, registro, coisa e tal. Nunca mesmo. Mas sempre quis fazer parte do mundo da informação, contribuir de alguma maneira para dar mais corpo, substância e vida literária ao conhecimento. Anos depois de formado, concluí que eu estava certo em minha intenção. Sou mais jornalista como sociólogo (profissão que me forneceu ferramentas de pesquisa, espírito crítico e inquieto, amor incondicional pela palavra, pela investigação, pela grande leitura). Ademais, convenhamos, eu jamais teria a chance de ser um bom sociólogo se tivesse optado por me formar jornalista...

Nos anos de vida universitária, aliás, o jornalismo fez parte de meu processo formativo. Em 1997, por exemplo, eu e alguns bons colegas das Ciências Sociais e da História produzimos um jornalzinho que é hoje clássico, o À margem nau. Nesse quase-fanzine trimestral (foram apenas quatro edições no ano em que todos nós do jornal nos formamos), fui editor, repórter e cronista. Nosso propósito era arejar o pensamento de esquerda maximalista que imperava no Centro de Ciências Humanas. Por pensar mais à la Gramsci do que à la Mao, o jornal foi execrado e exorcizado. Cumprimos, pois, nosso papel de fazer oposição, ofertar boa informação e mergulhar em muita diversão.

Logo após a conclusão do curso universitário, antes da metade da segunda metade da década de 1990’, comecei a dar aulas. Enfim, professor.

Em seguida a uma passagem pelo ensino técnico-profissionalizante e também pelo departamento da instituição de ensino superior em que estudei, como docente auxiliar, consagrei-me professor, numa faculdade privada, no curso de... Jornalismo!

Ao lado das inevitáveis e amadas disciplinas de Sociologia, Cultura e Política, ministrei – e ainda o faço – Teoria da Comunicação, Sistemas de Comunicação, História do Cinema e muita, muita crítica literária e artística. Sem saber (e provavelmente sem que muitos saibam), acabei me tornando um professor de Jornalismo Cultural.  Prova disso são as excelentes monografias que orientei sobre o futebol carioca na crônica esportiva do início do século XX, as revistas de jornalismo cultural brasileiras, os periódicos alternativos e a vida de gente como Barão de Itararé, Henfil e Vianinha, entre outros.

Hoje, por motivos que me são alheios, estou noutras praças da academia. Continuo falando das coisas que amo, indicando os livros que venero, dando lições em torno dos valores em que acredito - e lendo todas as revistas possíveis sobre História, Língua Portuguesa, Ciências Sociais, Crítica Cultural etc. Mas não tenho dado aula no Jornalismo faz alguns anos. Em contrapartida, tenho uma coluna diária na Rádio CBN Londrina, na qual falo só o que quero, discuto temas que me chamam a atenção e me despertam grandes sensações. Meu blog, para além de todo o resto, é meu veículo particular: nele sou o sociólogo-jornalista que sonho ser, sem concessões nem meios-termos.

Dias à frente talvez não existam mais bancas de jornais e revistas nem livros de papel. Dizem que isso é o futuro. A minha sorte é que montei um biblioteca particular bastante generosa e que sebos e pessoas antiquadas estarão sempre por aí. Enquanto houver livros e jornais – e, sobretudo, livros que falem dos velhos jornais e sua brava gente lutadora –, eu mesmo não irei partir: minha presença será um sinal que meu filho, meus familiares, amigos e parceiros de jornada irão incessantemente capturar. E sorrir, feito meninos.

28 julho 2013

A loba casou em Copenhague


Casou-se na Dinamarca, num exuberante palácio de frente para a Baía de Copenhague. Linda e ferina, roubou todas as cenas. Desde que a vi pela primeira vez, nunca esteve tão sedutora e, ao mesmo tempo, tão angelical.

Ela não se casou comigo.

Nosso hoje impossível casório seria numa provinciana cidade no interior do Paraná, com as mesas dos convidados forradas pelos textos de amor que lhe escrevi. Nosso apartamento - nunca tivemos certeza se moraríamos em Londrina ou no Arpoador - teria como elemento privilegiado da decoração cartazes dos filmes de que mais gostamos. Combinamos que seria um luxo, um ambiente aconchegante, cult, que transpirasse paixão pelas paredes.

Esse apartamento nunca existirá.

Saí pelas ruas de Copenhague com a cabeça no céu, pensativo, me sentindo verdadeiramente derrotado. Eu nem havia sido convidado para o casamento. Soube da grande noite pela coluna social do jornal. Eu estava na Escandinávia lançando meu romance de estreia, já traduzido para treze idiomas.

Voltei para o Brasil e comecei a escrever a continuação do meu primeiro livro de sucesso.

23 julho 2013

Acaso


Os céticos nunca me convenceram. Os muito fiéis também não. Sempre torci o nariz tanto para racionalistas quanto para sentimentalistas. Não confio nos práticos e tenho receio dos teóricos em demasia. Na vida, de uma vez por todas, a graça está na síntese: somos o resultado de nossos sonhos, nossas lutas, nossos projetos exaustivamente pensados e elaborados. Acima de tudo – e em larga medida -, somos filhos do acaso, do velho, assustador e inevitável acaso.

O acaso determina importantes momentos da vida: ele é o grande responsável por acreditarmos na frase: “O bom é estar no lugar certo, na hora certa, em companhia da pessoa certa”. Às vezes todas as certezas são desenhadas, planejadas, perseguidas sem trégua. Muitas vezes, contudo, as coisas simplesmente acontecem, sem que as tenhamos imaginado, sem que as tenhamos sequer levado em conta uma única vez anteriormente.

Muitos gênios ganharam o mundo por acaso. Uma coincidência, um atalho providencial, um “olá” bem-intencionado... São muitas as portas para o acaso. Há quem o chame de “inusitado”. Eu gosto muito de trata-lo por “imponderado”.

O acaso que também é imponderado é tudo aquilo que não podemos prever. O acaso aparece no hiato irrefreável que existe entre o mundo e a nossa capacidade de conhecer. Como o pensamento e a inteligência humana são infinitamente menores que a realidade, o acaso surge para que reconheçamos nossas limitações, aceitemos a dúvida como fonte da vida e adotemos a humildade como um grande e insubstituível ideal. Acolher o acaso quase sempre é demonstração de saber amar – ou, no mínimo, estar pronto para grandes paixões.

Há quem considere que os anjos são os guardiães do acaso – e que eles enchem nossa vida de fatores inusitados para que não percamos a fé nem deixemos de olhar para o céu. Nesse mesmo time dos anjos estão os santos e orixás, que nos lançam pelas trilhas do acaso para descobrirmos, enfim, que nunca estamos sós.

O acaso, seja lá quem o promova, é do curso da vida, que de tão perfurante e misteriosa só pode ter surgido como um grande acaso na história da criação.

21 julho 2013

Artes liberais


"Cidade do Lago", pintura de Leonid Afremov

O mundo moderno tem uma de suas bases fincadas nas artes liberais. Eu diria mais: a base de sustentação do melhor que a modernidade pôde realizar são as artes liberais e tudo que ela promoveu nos últimos séculos.
 
A filosofia e as ciências humanas, o teatro e o cinema, a literatura e a música, a cultura, enfim, permite que sejamos melhores, sonhemos mais, superemos dificuldades e escancaremos horizontes.
 
T. S. Elliot, um bom analista conservador, afirmou que a cultura vem antes e sustenta todas as formas de conhecimento. Hoje, com a matança progressiva das artes liberais, acredita-se que o conhecimento não tem bases, reduzindo tudo ao discurso da eficiência, da agilidade e das formações enxutas e objetivas. Ou seja, reduzindo tudo, apenas.
 
Em nome de necessidades urgentes e interesses imediatos, conteúdos são transmitidos sem que haja no receptor a base cultural indispensável. Resultado: tragédias de uma comicidade lamentável.
 
Nas escolas e, ainda mais, nas universidades, a cultura perdeu lugar. O espaço e o interesse dedicados às artes liberais no mundo educacional são mínimos, tão mínimos que já imperceptíveis.
 
Por toda parte, o genocídio vitimou a filosofia, a sociologia, a literatura, o cinema, o teatro, a política, os estudos que exaltam a investigação sobre o humano, colorem o conhecimento e dão vida à sensibilidade e a visões de mundo mais abrangentes e ricas.
 
Sem cultura, a barbárie aniquila a gramática, o raciocínio crítico e as dúvidas que permitem ao espírito elevar-se. No imediato lugar que agora ocupa a incultura, brotam gráficos, mentiras e muita autoajuda, esse libelo da estranheza absoluta do ser humano diante do seu presente, do seu passado e, pior, do seu futuro.
 
A grande questão que a morte das artes liberais em nosso triste e opaco tempo levanta é calamitosa: afinal, seremos capazes de sobreviver num mundo sem inteligência?

18 julho 2013

Com Tocqueville, no túnel do tempo


Estive refletindo sobre o conceito de vida comunitária. Andei lendo alguns textos dedicados ao assunto e pesquisando experiências bem-sucedidas ao redor do planeta.

Concluí que a ideia de comunidade requer três ingredientes fundamentais: espíritos altruístas, projetos múltiplos de curto, médio e longo prazos, encontros indulgentes entre as pessoas. Um quarto ingrediente é vital: zelo pelas regras assumidas após amplo, plural e legítimo debate.

Em seu mais importante livro, “A democracia na América”, Alexis de Tocqueville (1805 - 1859) relata, encantado, algumas histórias que vivenciou em sua viagem pelos Estados Unidos da América, na primeira metade do século XIX.

Ele, um liberal sempre desconfiado do desejo sedento por igualdade – algo que, no limite, prejudica a liberdade de cada um -, percebeu que o progresso no norte do Novo Mundo devia à união das pessoas seus maiores êxitos. Nas pequenas cidades, apontou Tocqueville, todos se importavam com a situação do comércio, a conservação de ruas e praças, a saúde dos indivíduos, a educação das crianças, o bem-estar das famílias etc. Nada acontecia sem o aval das assembleias compostas por membros das igrejas, do governo local, dos sujeitos de negócios, dos cidadãos comuns mais interessados.

O futuro da América, segundo Tocqueville, iria inspirar as terras de todo o mundo. Nas nações em que esses ingredientes rendessem boas comunidades, lá estariam grandes democracias. Vale ressaltar: o único desafio dessas experiências seria impedir que o gigantismo necessário ao bem-estar de todos sufocasse os sonhos e a realidade dos indivíduos, cuja liberdade é o maior bem.

Pedindo a honrosa companhia de Tocqueville, voltei ao meu tempo e ao meu país. Entre nós, brasileiros e cidadãos do século XXI, o espírito altruísta, o zelo pela ordem e a tolerância respeitosa ainda estão por vir. Condena-nos uma prática que cobra dos outros, vigiando-os dia e noite, mas nos absolve de tudo, livrando-nos, inclusive, da responsabilidade pela vida comunitária, berço da felicidade de cada um e da verdadeira prosperidade de todos.

O presente que pretende ser um bom futuro terá de conhecer um pouco mais a democracia que fascinou o velho Tocqueville – uma trajetória em torno do bem comum que, espero, não tenha morrido no passado.

15 julho 2013

Sorriso


Se os olhos são o espelho da alma, o sorriso é a porta do céu. Não existem sorrisos iguais, assim como é impossível negar o poder que todo sorriso tem.

A culpa das paixões é do sorriso. São dele também as noites mal dormidas, a ansiedade amorosa, a deliciosa distração de quem não consegue esquecer seus encantos. O sorriso, para todos os efeitos, desafia a razão, dribla o coração, faz o que bem quer com suas vítimas. (Na verdade, é injusto denominar “vítima” quem é capturado por um sorriso; trata-se de um ser privilegiado.)

Uma pessoa bonita, quando sorri, fica linda, deslumbrante. Uma pessoa que não sorri, ainda que aparente a delicadeza dos anjos, não pode ser bela. Toda beleza será sedutora ou não será. Sem sorriso, sem sedução.

Infinitas são as maneiras de um sorriso encantar, contagiar e, claro, seduzir: a criança que brinca em sua pureza, os jovens que sonham em sua leveza, os adultos que lutam em sua certeza, os idosos que insistem em sua inteireza. Para cada fase da vida, muitos sorrisos a eleger, muitos traços pulcros para compartilhar.

Os olhos – aqueles que falam do que há em nossa alma – são o adorno preferencial do sorriso. Enquanto o olhar oferece a profundidade do que se passa no coração, o sorriso não desmente o que de fato acomete os muitos nós do humano, dos labirintos das tantas tramas do viver.

Por medo, vergonha ou pura dissimulação, aprendemos a desviar o olhar, fingir o modo como o mundo pode e está sendo visto. Já o sorriso, este não se esconde em artimanhas – inexiste quem não entenda de sorriso falso ou verdadeiro, sublime ou melancólico, de êxtase ou de castração.

O ser humano que sorri tem a chave da porta do céu, abre caminhos, conhece as melhores pistas e não deixa nunca de ousar amanhãs. O sorriso, assim, é fonte de vida, mapa de amor, oração à imaculada perdição. O sorriso, em síntese, é a liberdade irrecusável.

09 julho 2013

Sétimo (e melhor) Round


A tattoo da antidiva Tori Black, imagem que eu identifico como a sétima estrela, 
ícone da liberdade que não se pode negar

A noite alternava
calor e frio,
chuva e lua cheia -
uma magia esplendorosa
rasgava o céu,
enchia os olhos,
brindava corações.

A menina
que por mim passava
dia depois de dia
(e lançava aquele sorriso),
esquentava
o corpo trêmulo,
esfriava
o desejo fervilhante.

Houve uma longa hora
de beijo,
só beijo,
de olhos
entreabertos,
sempre perplexos -
nenhum de nós
acreditava naquele sonho -
era real,
porém.

A doce vida nos enviou
uma mensagem:
a palavra certa,
na hora mais improvável,
precipitou tudo,
aos montes.

Uma avalanche
de paixão nos
tomou,
inebriou,
pulsou
o peito,
a têmpora,
a poesia da menina
que amou um homem
e a prosa de um homem
que se desnudou para
a mais linda das meninas.

Estávamos
muito longe,
próximos um
do outro,
escondidos do
mundo.

Fomos à sétima
estrela (round?)
das mais inacreditáveis
sensações.

Desvendamo-nos,
demo-nos
algo mais
daquelas preciosidades
que o infinito
guarda somente
a quem nunca
desiste de
amar.

06 julho 2013

Desconcertante


Rivelino, com a camisa do Fluminense: sempre desconcertante

A palavra que mais me atrai na nossa língua é desconcertante. Ela me coloca diante de muitas sensações – de infinitas maneiras, ela serve a poesias e revoluções, contos eróticos e romances típicos da era vitoriana.

Desconcertante é a beleza que tira o ar e invade suavemente os labirintos da imaginação amorosa. É igualmente desconcertante o olhar que perfura um momento, inusitado, feito um raio – depois dele, nada mais pode existir como antes.

Desconcerta qualquer um a música certa, no lugar certo, no instante certo. Aliás, é do certo o desconcerto. A palavra parece falar daquilo que será quebrado, que não mais irá funcionar corretamente. No entanto, o desconcertante põe tudo nos trilhos, até o que se julgava não ser, não poder, não nascer.

Os trilhos, contudo, quando inibem a criatividade, bloqueiam a felicidade ou perturbam os humanos limites da paixão, são desconcertados pelo novo, pelo que vamos buscar nas fronteiras de nosso inadiável sonho de plenitude. Numa palavra, só é verdadeiramente humano o que pode ser desconcertante.

É inabalável e desconcertante uma caminhada ao lado da ansiada companhia; só pode desconcertar a presença de alguém que provoca sorrisos e atiça fantasias fabulosas. O fabuloso, ápice dos desejos, é desconcertante sempre.

Desconcerta um livro decisivo; desconcerta um filme que instiga turbilhões em nossos sentimentos; é absolutamente desconcertante decolar para a viagem de uma vida, para o destino de um futuro novo, radicalmente perseguido, lutado, suado.

A palavra desconcertante me seduz porque ela é a única da língua portuguesa que tem os cinco sentidos e alguns outros, os quais se revelam à medida que a vida desconcerta os dias e prova que, no fim de tudo, um acontecimento desconcertante aguarda os que aprendem de verdade a sonhar.

04 julho 2013

O dicionário do meu pai


A imagem mais forte que tenho dos tempos de faculdade é a do dicionário que ganhei do meu pai no primeiro dia de aula. Era um dicionário enorme, bonitão, que me acompanhou pelos longos e deliciosos anos de aprendizado na graduação acadêmica. Naquela época, primeira metade da década de noventa, não havia googles nem quaisquer facilidades virtuais. Havia um único jeito de estudar: ler os inúmeros textos e livros, rabiscá-los (se não fossem emprestados, é claro), resumi-los e, de minuto em minuto, recorrer ao dicionário para decifrar palavras e expressões que até então eram completamente estranhas.

Uma equivocada máxima popular definiu o dicionário como “pai dos burros”. Discordo totalmente. Burro (na falta de uma palavra com mais glamour) é quem não consulta o dicionário e vive nas trevas, década depois de década usando as mesmas poucas palavras e desconhecendo a vastidão da língua, os infinitos das letras.

Eu não seria capaz de dizer quantas vezes abri aquele dicionário que ganhei do meu pai para iluminar uma palavra ou mesmo passar horas lendo, aleatoriamente, seus milhares de páginas.

No convívio de tantos anos com aquele velho e gigante dicionário, aumentei meu vocabulário, descobri coisas fantásticas e curiosas. Acima de tudo, passei a amar a palavra escrita, ensaiar suas formas, fazer divisões silábicas, pronunciar o som de cada letra, imaginar uma história só de palavras para cada movimento que eu observava ao meu redor.

Hoje outro dicionário está sobre a minha mesa. Um exemplar mais moderno e ainda mais completo. O velho presente do meu pai, que conservei com carinho e fino olhar de cuidado, está numa biblioteca da periferia, a serviço dos filhos de tantos trabalhadores. Ele está num lugar que agradaria muito ao meu pai.

Mesmo com os dicionários eletrônicos para computadores, telefones celulares e tablets, que facilitam a consulta e dispõem de ferramentas de pesquisa fabulosas, não abro mão de ler e escrever em companhia do dicionário de papel, aquele amigo incondicional que ocupa metade da minha mesa de estudos.

Presente de pai é mais do que um agrado ou uma obrigação. É uma dádiva. Devo ao meu pai, um operário de poucas letras, meu amor pela palavra. Coisas da vida. Coisas de amor de pai.